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Do Brasil à Europa: a virada, que pode ser histórica, e levar o Mercado Bitcoin a novo patamar global

Victor Aguiar

Com 4 milhões de clientes e há 12 anos em operação, o MB | Mercado Bitcoin entrou em uma nova fase de expansão internacional. Depois de se consolidar como protagonista do ecossistema cripto brasileiro, o grupo decidiu transformar sua presença na Europa em um dos pilares do crescimento para os próximos anos. À frente desse movimento está Reinaldo Rabelo, ex-CEO da empresa, que agora ocupa a presidência do MB na Europa — e que, para conduzir a operação de perto, até se mudou para Portugal nos últimos meses.

“Esse mercado cripto é um mercado global”, afirma o executivo. “Quando fizemos nossas rodadas de captação, sempre houve a intenção de investir na expansão internacional.” A ambição agora é transformar essa presença inaugural em uma operação relevante no continente.

A escolha por Portugal, segundo ele, não foi acidental, mas estratégica. O país foi um dos primeiros da Europa a construir um regime claro para empresas de ativos digitais. “Portugal largou na frente na regulação”, diz Rabelo, destacando que esse pioneirismo ofereceu ao Mercado Bitcoin algo valioso: previsibilidade.

Rabelo também menciona um estudo da BlackRock People & Money, que aponta que 43% dos investidores portugueses já investem em criptoativos, quase o dobro da média europeia, de 22%. “Esses dados, somados à expressiva comunidade brasileira no país, reforçam que Portugal é o ponto de partida estratégico para nossa expansão no continente europeu”, afirma.

Ainda de acordo com o executivo do MB, a estabilidade europeia contrasta com o ambiente brasileiro, marcado pela presença de empresas internacionais que operam sem aderência às normas locais. “Acabaram surgindo várias empresas que se dizem de fora do Brasil e não cumprem nenhuma das regras locais. Isso acabou manchando a imagem do setor”, afirma. Segundo ele, isso não acontece na Europa, e é justamente esse um dos maiores atrativos do continente. “As empresas aqui têm mais segurança jurídica, o ambiente é mais estável.”

O MiCA, marco regulatório europeu para criptoativos, é outro ponto relevante. A norma permite que uma empresa regulada em um país da União Europeia atue em todos os outros países do bloco — o chamado passporting. “É o motivo principal, esse alargamento de mercado”, explica Rabelo.

Mesmo com atrasos causados, em parte, pela instabilidade política observada em Portugal ao longo de 2025 — o primeiro-ministro Luis Montenegro teve seu governo derrubado e, posteriormente, reconduzido ao poder — o Mercado Bitcoin afirma já cumprir os requisitos, e apenas aguarda a oficialização do processo. Atualmente, a operação europeia do MB também reúne mais de 450 criptomoedas e ativos de renda fixa digital.

Rabelo comenta que a adaptação regulatória exigiu reforço de várias áreas da operação. O grupo ampliou a estrutura local e vem contratando profissionais para compliance, risco e tecnologia, todas áreas críticas no MiCA. Ele também afirma que ainda será necessário buscar “licenças adicionais que complementem a nossa licença de empresa cripto, do Banco Central de Portugal”.

Isso inclui, no médio prazo, autorizações ligadas a serviços financeiros tradicionais, para permitir a construção de um ecossistema mais completo, semelhante ao que o grupo desenvolveu no Brasil.


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Presença física no comando

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Rabelo, que se mudou para Portugal há cerca de quatro meses, entende que a presença física ajuda a calibrar não só decisões estratégicas para a expansão, mas a própria leitura do mercado — o que funciona, o que não funciona. Mas reforça que, apesar de operar em outro continente, a base do modelo vem do Brasil: infraestrutura robusta, experiência regulatória e pioneirismo em tokenização.

O tema apareceu diversas vezes na entrevista. No entendimento de Rabelo, o Brasil desenvolveu um ecossistema de tokenização mais sofisticado do que o europeu, o que cria uma vantagem competitiva. “O europeu tem no banco euro +2%. Quando olha real +16% ou +17%, toma o risco”, diz ele, ao explicar o interesse crescente de estrangeiros pela renda fixa brasileira.

O Mercado Bitcoin planeja levar à Europa produtos que combinam tecnologia blockchain com ativos tradicionais: estruturas de crédito, produtos de investimento, infraestrutura para terceiros e, futuramente, soluções institucionais. Para o executivo, o Brasil criou um “primeiro grande laboratório” de tokenização do mundo, e a Europa, com o MiCA, oferece o ambiente ideal para escalar.

Rabelo evita qualquer narrativa de “confronto direto” com gigantes globais. Para ele, a principal diferença em relação à competição no Brasil é que agora todos atuam sob as mesmas normas. “Conseguimos perceber de forma mais clara quem são os nossos competidores, pois estamos competindo dentro das mesmas regras”, diz.

Ele também reforça que não se trata de replicar o modelo de outros players, mas de ocupar espaços ainda pouco explorados: nichos institucionais, tokenização, produtos complexos e integração de mercados emergentes com Europa.

Ao longo da conversa com a Capital Aberto, Rabelo descreveu a Europa como um conjunto de mercados distintos, não um bloco homogêneo. Na visão dele e do Mercado Bitcoin, os países da União Europeia têm níveis diferentes de maturidade digital, perfis de investidor e estruturas bancárias. Isso cria oportunidades para empresas regionais com propostas específicas.

Segundo ele, empresas como Coinbase ou Bitpanda não dominam igualmente todos os países, e há espaço para um player com uma abordagem segmentada, especialmente nos produtos de investimento, onde o Mercado Bitcoin planeja concentrar sua força.

Do ponto de vista comercial, o plano do MB na Europa tem três pilares centrais: investidores europeus que estejam olhando para a renda fixa brasileira, atraídos pelo diferencial de juros; brasileiros residentes na Europa, que precisam gerenciar a vida financeira em duas moedas; e remessas internacionais, baseadas em stablecoins e no Pix. Em relação ao último ponto, Rabelo destaca é um produto próprio, que tem atraído bastante interesse desse brasileiro que faz pequenas remessas”.

Perspectivas para o futuro

Sobre o momento atual do mercado cripto, especialmente no que diz respeito ao Bitcoin, sobre o qual Rabelo mantém uma leitura estruturalmente otimista. “Estamos ainda no começo de encontrar o preço justo do Bitcoin”, afirma. “Nunca duvido da possibilidade dele recuperar rapidamente o seu preço quando tem esses movimentos de queda por medo.”

Para o executivo, apesar das oscilações, a trajetória de médio e longo prazo é positiva graças ao avanço institucional, à escassez programada do ativo e ao aumento da integração entre mercados regulados e cripto.

Rabelo também propõe uma reflexão sobre o papel das empresas brasileiras no cenário global, afirmando acreditar que o Brasil deveria participar mais ativamente da competição internacional. “O Brasil não é acostumado a fazer movimentos de expansão, mas deveríamos ter mais confiança em sair para tentar vencer fora também.”

A mudança para Portugal, segundo ele, marca uma nova etapa para o Mercado Bitcoin, e é um movimento pensado para durar. Embora não utilize termos grandiosos, deixa claro que o passo europeu é visto como um divisor de águas na história da empresa: uma chance real de transformar escala, produto, governança e posição competitiva.