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De olho em institucionalização e mirando altos retornos, VCs apostam em digital assets

Amanda Meneses

O crescimento do segmento de digital assets (ativos digitais, em português) tem ganhado a atenção dos investidores, movimento que ganhou impulso com a institucionalização desses ativos, diante da regulamentação em diversas economias e criação de reservas estratégicas de criptomoedas pelos próprios governos. As stablecoins, criptomoedas vinculadas a algum ativo mais estável, inclusive, favorecem a tendência, e atraem o capital de fundos como os de Venture Capital, os VCs. Segundo o Brazil Tokenization Report, iniciativa conjunta da Nexa Finance e da Fintrender, entre os fundos de venture capital, mais de 70% dos gestores atuantes no Brasil afirmam já ter investido em digital assets, somando mais de US$ 100 milhões em aportes. 

O movimento ocorre, na análise de Chen Wei Chi, sócio para Serviços Financeiros da EY, porque gestores de VCs, que buscam oportunidades com potencial de crescimento, apresentam uma confiança nos resultados de negócio que podem ser criados ao longo do tempo na indústria de digital assets. “Esse volume de aportes aponta para isso [confiança]. Uma vez que surgem casos de uso mais concretos para a utilização de soluções de ativos digitais, o mercado endereçável dos novos negócios que financiam com capital de risco se expande e reforça a hipótese de crescimento”, diz o executivo, complementando que a adoção de soluções de ativos digitais por indústrias diversas e por instituições com solidez operacional reforça esse movimento. 


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Fatores como um movimento muito relevante em tokenização ao longo de cadeias de valor complexas em diversas indústrias, como, por exemplo, o rastreio de safras por meio de blockchain, e a análise de possíveis casos de uso das criptomoedas, que podem mudar a dinâmica de todo o mercado, têm potencial para escalar isso. “A natureza do Venture Capital é o risco. Os benefícios estão na alocação de recursos em um nicho com oportunidades reais de crescimento que habilita transformações reais no mercado”, aponta Chi, acrescentando que cada empresa terá uma história distinta, mas o potencial da indústria de ativos digitais, quando se vale de casos de usos concretos, tem se mostrado consistente. “Por trás dos ativos digitais, segue o mundo físico que busca eficiência e a habilitação de novos negócios.”

Os digital assets tem ganhado os holofotes ao redor do mundo, e no Brasil não é diferente. A institucionalização desses ativos traz o benefício do reforço da segurança operacional, e o mercado se beneficia dessa transparência. Aqui, o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), tem se debruçado cada vez mais sobre o tema, lançando consultas públicas e normas específicas para regular esse mercado e trazer segurança jurídica e previsibilidade. 

“Em ativos digitais, especificamente, em stablecoins, o Brasil chama a atenção pelo volume crescente de negociação, como no caso do USDT. No mercado americano, vemos corporações que entenderam que podem desafiar seus ciclos de Order-to-Cash, suas relações com fornecedores e clientes com uma moeda digital e transformar suas relações de pagamento”, afirma Daniela Noronha, consultora executiva de ativos digitais para EY, complementando que já é possível observar exchanges se movimentando nessa direção, com o lançamento de ativo digital, mas ainda não existe uma sinalização de adoção mais massiva.

Segundo o Brazil Tokenization Report, entre os fundos de venture capital, mais de 70% dos gestores atuantes no Brasil afirmaram já ter investido em digital assets, somando mais de US$ 100 milhões em aportes. O relatório destaca, inclusive, o Brasil como referência global em ativos digitais, apresentando o conceito de “momento de convergência”, tese que, em 2025, regulação, tecnologia, instituições e modelos de negócio finalmente se alinharam, criando um ambiente fértil para a adoção em larga escala da tokenização.

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O movimento de escalada dos ativos digitais é observado atentamente pelos fundos VCs, que têm assistido os ativos digitais vendo oportunidades de alocação. A Bossa Invest, que iniciou sua exposição aos ativos digitais em 2021, tem olhado com atenção crescente para esse segmento, priorizando casos de uso com lastro e governança — como tokenização de ativos reais (RWA) e infraestrutura de mercado. “Para nós, o valor está em usar a tecnologia para melhorar emissão, distribuição, liquidação e auditoria de produtos financeiros, ampliando acesso e eficiência com conformidade regulatória”, conta Daniel Coimbra, head de Venture Capital da Bossa Invest.

A primeira investida da Bossa foi a Biscoint — posteriormente incorporada ao Bitybank, no movimento de cripto-banking no país. Mais recentemente, a casa ampliou a tese com a AmFi, infraestrutura de mercado de capitais para tokenização de crédito privado sob supervisão da CVM. “Acreditamos que o Brasil assume algum protagonismo nesse segmento. O país combina alta penetração digital, regulação em amadurecimento (CVM/BCB) e infraestrutura bancária moderna. Esse contexto favorece a adoção de produtos tokenizados e serviços de cripto-banking com escala e governança — o que naturalmente abre oportunidades para fundos de venture como o nosso”, ressalta Coimbra.

Até mesmo VCs com foco em empresas em estágio de early growth estão apostando em digital assets. A Volpe, que se caracteriza por ser esse tipo de fundo e investe em empresas de tecnologia na América Latina, e considera o estágio “early growth” o momento em que as empresas já tenham ‘product market fit’ (quando o produto satisfaz uma demanda do mercado), um modelo de negócios que funciona e ‘unit economics’ (análise da receita e dos custos de um negócio por unidade de produto) saudáveis, avalia o tema ‘ativos digitais’ como mais evoluído agora. 

“Acompanhamos as discussões sobre digital assets nos últimos anos e considerando a evolução da regulação em diversos mercados, especialmente nos EUA, entendemos que agora essa oportunidade passa a se encaixar melhor na nossa tese. Agora conseguimos ter mais de visibilidade e ferramentas para avaliar melhor essas oportunidades”, conta Milena Oliveira, sócia e cofundadora da Volpe Capital.

Milena Oliveira, sócia e cofundadora da Volpe Capital

Para os gestores, ter um dos reguladores mais ativos globalmente, o Banco Central, contribui muito em um setor em que a construção da regulação anda de mãos dadas com a inovação, favorecendo na criação de novos modelos e fomentando a competição com a entrada de novos players no mercado. Os perfis e estruturas de empresas avaliados no segmento de ativos digitais, no entanto, são distintos. 

Na Bossa Invest, a casa olha o segmento de digital assets com foco em RWA (Ativos do Mundo Real), que representa a digitalização de ativos físicos em tokens, e infraestrutura, “onde tecnologia encontra governança”. “Seguimos com observação ativa e disciplina de portfólio — ampliando exposição quando há fundadores preparados, unit economics sólidos e aderência regulatória”, diz Coimbra.

Já a Volpe Capital tem mapeado oportunidades em stablecoins considerando o tamanho de mercado e o potencial de disrupção desse novo rail de pagamento. “O ganho de eficiência e redução de custo é enorme. Só para se ter uma ideia, o swift leva em torno de 1-2 dias para concluir uma transação e pode custar entre US$ 15 a US$ 50. Com stablecoins, a compensação é em segundos e o custo inferior a US$ 0,10”, diz Milena. “No sistema legado, há vários intermediários na cadeia e só funcionam em horário comercial. Stablecoins operam 24/7 sem intermediários. A oportunidade é clara”, complementa, ponderando que a maior dúvida ainda é o MOAT (vantagem competitiva) dessas empresas e como a regulação vai se comportar localmente, o que pode alterar modelo e economia dos players atuais.

Os VCs citam benefícios, eficiência e escala, acesso a novas bases de capital, vantagem regulatória do Brasil e diversificação de tese. Mas principalmente, os altos retornos possivelmente advindos da estratégia chamam atenção. A executiva da Volpe destaca que o potencial de ganho é enorme (sendo esse o foco de investimento em fundos de venture capital). “A penetração, hoje, ainda é muito baixa, em torno de 2%, mas o potencial é gigante. O market cap atual de stablecoin é de aproximadamente US$ 280 bilhões – a projeção é que isso cresça para quase US$ 4 trilhões ainda nessa década. É exatamente o tipo de investimento que os fundos de venture capital deveriam estar fazendo”, opina Milena.