“Única maneira de alcançar US$ 1,3 tri é fazer sem financiamento público”, diz executivo do BID sobre pauta ESG
Diante da COP30, o mercado voltou os olhares para o investimento sustentável e como o setor privado poderia contribuir para pautas ESG, ligada a transição energética e a mitigação de riscos climáticos. Em se tratando do financiamento desses projetos, muito se fala sobre o blended finance, que une o capital público ao privado, no entanto, executivos acreditam que a temática deve ficar pouco dependente do recurso público, devido à sua limitação.
Essa foi uma das avaliações feitas durante o painel “COP em Contexto: significado da COP30 para os mercados de crédito globais”, evento realizado pela Moody’s na capital paulista nesta terça-feira (04), quando executivos mencionaram a importância do financiamento da temática, o papel do governo e se o blended finance pode ganhar escala.
Há desafios no horizonte, mas segundo relatório da Moody’s publicado hoje, o Brasil é destacado como líder regional em financiamento sustentável. A casa de rating destaca que a América Latina e o Caribe têm uma exposição significativa a riscos ambientais e sociais, o que contribui para as grandes necessidades de desenvolvimento sustentável na região. "Essas condições respaldarão o crescimento de longo prazo da emissão de títulos sustentáveis dos setores público e privado, apesar do declínio dos volumes regionais nos primeiros nove meses de 2025. A forte liderança de entidades do setor público, incluindo as soberanas e bancos públicos de desenvolvimento, é uma característica única que sustenta o crescimento no longo prazo", aponta a Moody's, em relatório, citando ainda a COP e dizendo que o país emergirá como um mercado líder nos próximos anos, impulsionado pelo apoio político do
país, planos de investimento do governo e características econômicas.
Durante o evento da Moody's nesta manhã, Avinash Persaud, conselheiro especial em Mudanças Climáticas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), diz que “as coisas que geram rendimentos precisam de um setor privado para financiar seus investimentos”. “Eles fazem isso em países ricos, precisam encontrar um jeito de desbloquear o dinheiro”, aponta o executivo, citando, por exemplo, o investimento em infraestrutura, que possui bom retorno, mas cujos rendimentos não são capturados pelo setor privado, ele diz. “O governo precisa se envolver em financiamento. O desafio é que o que ele deve fazer é trazer todos os seus investimentos para o dia de hoje, mas o fiscal restringe isso.”
Sobre a colaboração dos governos o ideal que é que criem um ambiente que seja conduzido a investimentos, em geral, segundo Marie Diron, diretora-geral de Risco Soberano Global da Moody's Ratings. “E isso não é diferente de investimentos financeiros ou de outros tipos de investimentos. Ter estabilidade macroeconômica, ter um investimento com uma legislação clara e uma administração, tudo isso vai ajudar as empresas a decidirem investir no país”, pontua a executiva.

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Marie diz que no Brasil há estruturas voltadas à questão do financiamento sustentável, como programas do BNDES, mas que a questão é a escala. “Essas estruturas existem aqui e lá, mas vamos voltar para a escala. Esse é outro aspecto no qual os governos têm um papel crítico, e então, investir em adaptação de todas as empresas, nos segmentos onde a prática não é tão importante porque os retornos não são comerciais na natureza. São retornos sociais ou ambientais. É mais difícil quantificar em termos financeiros onde os governos vão ter um papel crítico.”
O BID, por exemplo, vai lançar um projeto e está realizando um processo de engajamento de conversas entre agências e investidores privados. O executivo do banco diz que se ouve sobre bilhões de dólares há décadas, mas que esse recurso nunca é visto porque aqueles que detêm bilhões de dólares são os fundos de pensão, investidores institucionais, seguradoras, tradicionalmente investidores conservadores (internacionalmente) devido a suas regras internas e regulamentação, que, em grande parte, investem em ativos de investimento de alto grau de segurança. “Nós tentamos levar esse dinheiro para os mercados comerciais, para projetos emocionantes e divertidos, que estão no início, ainda não construídos, ainda não permitidos, e muito longe de serem valorizados”, diz.
Os executivos ainda citam a dificuldade no financiamento, em destravar o capital. Para chegar a uma escala significativa, de US$ 1 trilhão, como visto em mercados de capital de dívidas, é preciso haver recurso do setor privado. Atualmente, o blended finance está na casa de R$ 18 bilhões. “Nós não vemos novos compromissos do setor público para oferecer domínios para o blended. Temos que dizer que a única maneira de alcançar esse número é fazer isso sem financiamento público. Não há financiamento público para alcançar US$ 1.3 trilhões”, opina Avinash Persaud.
Falando especificamente do Brasil, durante a sessão de perguntas, os executivos ainda responderam sobre o efeito das IFRS S1 e IFRS S2, e se a adesão do Brasil poderia exercer papel na escala do capital. Mas para Marie, embora esses avanços e mudanças sejam necessários, não provam ser suficientes neste caso. “Nós agora estamos indo para um exercício de discussão e avançar a discussão por alguns anos. O projeto não está completamente concluído, há alguns anos ainda”, diz.
