Adaptação do mercado às mudanças climáticas inclui monitoramento de ativos e uso de IA
As mudanças climáticas, além de causar sérios danos à população, têm obrigado empresas e governos a se readaptarem e anteciparem cenários de riscos. Eventos climáticos extremos, como inundações, incêndios e ondas de calor são cada vez mais frequentes, enquanto os impactos econômicos e sociais dos eventos estão se tornando ainda mais severos, particularmente nos mercados energéticos. Com isso, governos e indústrias se movimentam para a transição energética e a antecipação aos riscos climáticos. Companhias como a CPFL Energia focam na agenda ESG, enquanto bancos como Banco do Brasil (BB) se debruçam sobre o tema para lançar produtos, inclusive utilizando análise preditiva com IA.
Durante o painel “Visões do Mercado: navegando a transição, riscos físicos e climáticos para um crescimento resiliente no Brasil”, durante evento pré-COP30 promovido pela Moody’s nesta terça-feira (04), executivos mencionaram os impactos de eventos catastróficos, como as enchentes no Rio Grande do Sul. Rodolfo Sirol, diretor de sustentabilidade e meio ambiente da CPFL Energia, destacou as dificuldades da empresa e como esses eventos mudaram a estratégia da companhia, que atua na região, e quais ações teve que tomar, com apoio do governo, para driblar os desafios gerados pelo desastre. A região sofreu com tempestades severas em 2023 e em 2024, seguidas por muita chuva, que afetaram 30 municípios do estado, ou seja, 3% da área de concessão da CPFL.
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“A gente pôde ver um colapso total da infraestrutura do estado. A gente tinha as estradas interrompidas, o acesso ao Estado interrompido. E uma das questões principais foi a comunicação. Nenhuma rede de telefonia funcionava e mesmo a de rádio estava fechada. Uma das coisas que a gente teve que se adaptar mais rápido foi instalar a Starlink. Compramos e comissionamos 1.100 antenas de Starlink em menos de 4 dias. Também contamos com veículos adaptados”, conta Sirol, citando que estabelecer uma colaboração forte com o painel de crise do Estado foi importante para receber orientação do poder público sobre o que restabelecer e juntar esforços para a volta de serviços públicos. “Mas uma das coisas que mais funcionou, não foram nossos veículos adaptados, mas sim contar com as forças armadas para deslocar as nossas equipes diante de tudo aquilo.”
O executivo da CPFL também citou os incêndios em São Paulo, estado no qual a companhia está presente em mais de 230 municípios, pontuando que, com eles, vem o desligamento das redes. “Manter a qualidade do serviço numa situação extrema é muito desafiador. Ao mesmo tempo que, no Nordeste, tínhamos chuvas onde as nossas eólicas não estavam performando adequadamente. Vocês dizem sobre a importância da diversificação e sempre achei que estava muito protegido em relação a isso, com ativos em diversos locais, mas com mudança climática, todos os locais, de alguma forma, estão sendo afetados”, diz Sirol, destacando que é preciso redobrar o conceito não só de mitigar os efeitos de mudanças climáticas, mas de aumentar a resiliência de todos os ativos.
Sirol ainda menciona o protagonismo do Brasil em relação às normas IFRS, dizendo que em relação ao mapeamento de riscos e o teste de estresse para cada um desses riscos em relação aos ativos, “estamos perdendo até a sensibilidade desse teste de estresse”, pontuando que “essa pluralidade de fenômenos está perpassando a capacidade de uma análise total”. “A hora que enfrentamos uma situação dessa, a única coisa que não pode existir é a paralisia, dizer que não vai dar para se adaptar. Precisamos fazer empreendimentos e trabalhar ao máximo conectado com outras infraestruturas. Acho que o grande desafio passa a ser esse”, opina.
A discussão ainda abordou o tema seguros e sua participação na questão das mudanças climáticas. Para Vilmar Thewes, gerente de Finanças Sustentáveis do Banco do Brasil, é impossível falar do tema e não mencionar o agronegócio, que representa um terço da carteira do banco. “Qualquer coisa que atingir o mercado vai atingir o Banco do Brasil. O setor tem passado por alguns problemas que são agravados pela questão climática. E o banco, historicamente, é um segurador que também foi protagonista nesse mercado”, diz, apontando que a cobertura de seguros, principalmente contra a seca, vem caindo de forma dramática. Um ponto de atenção, visto que o risco está aumentando e as pessoas estão deixando de se proteger. Com o risco maior, o preço do prêmio também é maior, e as margens estão mais apertadas do que o visto no mercado nos últimos anos. “O produtor tem deixado de buscar essa cobertura.”

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O Banco do Brasil inclusive, está colocando esforços em mecanismos para melhorar a previsibilidade desses assuntos, em termos de análise de cenários. Thewes conta que a seguradora do banco está lançando um novo modelo, em algumas parcerias, focado em guiar a análise de dados para clientes que usam agricultura regenerativa. “Vai ter um modelo diferente de precificação para esses seguros e para esses produtores que apresentarem práticas mais sustentáveis e que apresentem melhores resultados e melhor resiliência à questão climática. Esse é um ponto importante, talvez um ponto de mudança na precificação de seguros, uma personalização muito maior do risco”, diz.
O executivo do BB ainda menciona a análise desses riscos e cita o risco de transição, outra questão a ser monitorada, visto que para atingir o net zero de 2050 (balanço líquido zero de emissões de gases de efeito estufa), haverá um risco de mudanças regulatórias maiores, que podem afetar alguns setores mais que outros.
O cenário, no entanto, tem se repetido em vários lugares do mundo. Esses eventos de perda e prejuízos econômicos aumentaram nas últimas décadas. Só em 2024 foram US$ 318 bilhões em perdas econômicas, com 57% de lacuna de proteção (diferença entre as perdas econômicas e as perdas seguradas). Olhando para economias emergentes, essa lacuna de proteção é ainda maior que 90%, e mesmo na Alemanha, ou países vizinhos, essa lacuna é de mais de 70%.
“Estamos vendo uma mudança no mercado de seguros, principalmente nessas regiões com risco elevado. Vemos as reguladoras limitando o pacote seguros, aumentando os prêmios, ou aumentando o preço, limitando a faixa de seguros. O que isso significa? Uma transferência do risco das seguradoras para os residentes, para a região, para os comerciantes, para o setor público”, diz Jennifer Chang, vice-presidente analista Sênior de Crédito e Finanças Sustentáveis da Moody’s Ratings, acrescentando que o governo está ciente da situação e que tenta ajustar regulamentos ou criar novos para manter o mercado de seguros estável.
Dado este cenário, há um aumento dos prêmios em 300%, queda no preço dos imóveis, assim como uma retração de forma mais permanente das economias prejudicadas com esses eventos climáticos. A desvalorização dos imóveis pode desencadear uma queda do imposto predial e desencadear outra série de consequências financeiras, segundo pontuam os especialistas. A Moody’s tem estudado as consequências macroeconômicas de eventos climáticos, como de um furacão categoria 5 na região de Miami, citando impactos no PIB.
As políticas de cobertura de seguros não são suficientes, o que torna necessário que esses investimentos sejam incorporados na estratégia das companhias, e investimentos em transição energética representam uma forma de prevenção e redução dos riscos climáticos no longo prazo. A CPFL, por exemplo, tem apostado em seu plano ESG, cujos primeiros compromissos se referem à mitigação, como ser 100% renovável e reduzir as emissões. “Mas essa é só a primeira parte, o primeiro de vários compromissos, o resto é sobre resiliência dos nossos ativos”, conta o executivo da companhia de energia. A CPFL, que tem 56 hidrelétricas instaladas, está monitorando seus ativos para identificar possíveis riscos e se antecipar a eles. Fatores como deslizamentos e enchentes são olhados de perto pela companhia.
Hoje em dia há um incentivo inclusive por parte do governo, ao incluir nas consultas públicas para a renovação das concessões distribuidoras fatores como a resiliência desses ativos. “Esses investimentos tendem a serem reconhecidos dentro da base do setor elétrico regulatório e isso é fundamental para que as empresas realmente se proponham a fazer esses projetos. Porque isso está mais na mão da empresa, mas está na mão do regulador tentar incentivar para que ela se torne mais resiliente e escolha mais assertivamente onde vai depositar esse recurso”, opina Sirol.
Olhando oportunidades nesse sentido, de empréstimos sustentáveis, o Banco do Brasil está com uma carteira chegando a R$ 400 bilhões, do total de R$ 500 bilhões de meta de carteira do país. O executivo do banco destaca que a inadimplência da carteira sustentável representa metade da inadimplência da carteira do mundo, apresentando um risco menor, além de um resultado dessa carteira superior a linhas com taxa de spread grandes de riscos bem maiores.
O BB também começou a focar em alguns segmentos específicos, como agricultura sustentável e energia renovável. “Quisemos participar desse movimento, a gente vê outras inovações. Vamos começar a vender energia por assinatura, para os nossos clientes, as micro e pequenas empresas hoje já podem acessar esse tipo de serviço; crédito de carbono, que é bastante promissor, agora com a regulação, então vemos uma nova linha no banco focada na agenda sustentável. Vemos uma linha de negócios de receita focada nesses negócios sustentáveis. Tem o EcoInvest também, importante para mobilizar capital privado”, conta o executivo, falando queo Brasil tem potencial para ser potência no assunto. “A gente captou R$ 40 bilhões durante os 4 anos do exterior e poderíamos captar um pouco mais, mas ainda vemos desafios do que poderia ampliar a escala desses investimentos. O principal desafio é o risco cambial. Não temos hedge para 15 anos. Na usina eólica normalmente o financiamento é de 15 a 20 anos.”
Mais de 190 países, incluindo o Brasil, segundo estudo da Moody’s, apontam questões como enchentes e estresse hídricos como os desafios mais citados pelos governos, enquanto as soluções de infraestrutura cinza planejadas citadas incluem drenagem e esgoto para a maioria dos mercados emergentes. Os países também planejam reflorestamento e proteção da biodiversidade, mas ainda há desafios.


