Campanha Vórtx Institucional

PUBLICIDADE

Ressaca da Ambev: companhia perde R$ 9 bi de valor de mercado, mas metanol é ruído de curto prazo

Amanda Meneses

A indústria de bebidas sofreu um abalo reputacional nas últimas semanas com a descoberta de casos de intoxicação por metanol pelo consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. Apesar do impacto de imagem, os maiores efeitos serão sentidos por empresas menores, enquanto para gigantes do mercado como Ambev e Heineken o episódio deve ser considerado apenas “ruído de curto prazo”, segundo especialistas. A Ambev chegou a perder R$ 9 bilhões em valor de mercado desde o primeiro caso, de acordo com levantamento da Quantum, mas a desvalorização está mais atrelada a tendências de consumo. 

De 19 de setembro (primeiro pregão após morte por intoxicação por metanol) a 2 de outubro, a gigante cervejeira saiu dos R$ 195,7 bilhões de valor de mercado para 186 bilhões, resultando em uma perda de R$ 9,7 bilhões. 

Para especialistas, o episódio do metanol, no contexto de notícias sobre adulteração de bebidas e riscos ligados à intoxicação chamam a atenção, mas empresas de grande porte como Ambev e Heineken não sofrem impacto operacional direto, já que contam com rígidos processos de qualidade e rastreabilidade. O efeito maior, na análise de Caroline Sanchez, analista da Levante Inside Corp, aparece na percepção do consumidor, já que em momentos de maior exposição desse tipo de problema, marcas menores e produtores informais acabam sendo os mais penalizados, enquanto líderes consolidadas podem até capturar demanda adicional pela confiança que transmitem. 


Utilize simuladores reais de negociação e entenda como cada decisão impacta o capital e a gestão de riscos no curso “Derivativos”


Segundo Caroline, embora o tema esteja no radar das companhias, se trata muito mais de uma questão reputacional e de imagem do setor como um todo do que de risco estrutural para as grandes cervejarias. “O que realmente determina a trajetória de resultados dessas empresas são tendências de consumo mais amplas e duradouras. O avanço de hábitos ligados à saúde e bem-estar, a busca por moderação no consumo de álcool e o crescimento de alternativas como bebidas de baixo teor calórico ou sem álcool representam vetores de mudança estrutural na indústria”, aponta a analista, citando ainda a adoção de medicamentos que reduzem o apetite, que também pode pressionar volumes no médio prazo.

Campanha Vórtx Institucional

PUBLICIDADE

“Assim, enquanto a pauta do metanol gera ruído de curto prazo, o que pesa de fato para o setor são essas transformações de comportamento do consumidor, que tendem a influenciar não apenas o volume de vendas, mas também o posicionamento estratégico das líderes do setor”, diz Caroline.

Para a Eleven, a visão também é de impacto marginal da temática metanol. “A ação caiu, mas o mercado todo vem caindo. Além disso, um pouco da queda da Ambev tem a ver com alguns relatórios reforçando que a tendência negativa nos resultados da empresa, visíveis no segundo trimestre, e deve continuar, principalmente por conta de um tempo frio que está atrapalhando bastante a venda de cerveja no Brasil”, opina Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial.

Outro fator são os custos também um pouco altos, devido ao momento em que a empresa fez o hedge. “O câmbio era um pouco mais depreciado e também houve um pequeno aumento do milho, o alumínio subiu um pouco, o que também atrapalha um pouco. Do lado da receita, os resultados devem sofrer com o tempo bastante frio, do lado de custos também teve algumas pressões”, diz Siqueira, apontando que o resultado da Ambev deve continuar fraco no curto prazo.

Se por um lado a questão do metanol atrapalha, visto que a população tem evitado bebida alcoólica, por outro lado, o maior impacto até agora tem sido nos produtos destilados. “Tem até uma chance do consumo de cerveja aumentar. Até agora não teve nenhuma sinalização de nenhum bar, restaurantes, tirando cerveja do cardápio. Só teremos uma clareza maior sobre esse assunto quando a empresa divulgar os resultados na conferência. Provavelmente vão falar um pouco do assunto, mas nossa visão é que o impacto é pequeno”, opina Siqueira, da Eleven.

Os fatores mencionados pelos especialistas, inclusive, foram motivos citados por analistas da XP em rebaixamento da companhia. A casa mudou a recomendação de “neutra” para “venda”. Em relatório, Leonardo Alencar, head de agro, alimentos e bebidas, e Fonseca, analista de agro, alimentos e bebidas, destacaram que projetam o papel negociando a 14,1x P/E para 2026, o maior nível desde meados de 2023, quando o papel iniciou um processo de rating. “Esperamos um momentum fraco de resultados pelo menos até o 2º semestre de 2026, impulsionado por uma dinâmica de receita fraca combinada com custos mais altos; e 2025 deve marcar o segundo ano consecutivo de queda no consumo per capita de cerveja no Brasil”, explicando o rebaixamento.