Intenção da Gol de fechar capital pressiona minoritários e coloca setor aéreo em xeque
O anúncio da Gol de que tem a intenção de fechar o capital e sair da B3 levantou uma série de questionamentos. Para os acionistas minoritários o dilema é o momento adequado de venda dos papeis para reduzir prejuízos eventuais. A relevância do setor aéreo na B3, com a eventual saída de uma das suas principais companhias, também é questionada. No Fato Relevante divulgado pela Gol, o fechamento de capital teria o objetivo de “reorganizar as operações da companhia, buscar sinergias e reduzir seus custos”. Ainda conforme o comunicado, assembleias gerais serão convocadas para deliberar sobre a incorporação da companhia e da Gol Investment Brasil S.A. (GIB) pela Gol Linhas Aéreas (GLA).
O anúncio acontece no momento em que o free float das ações preferenciais da Gol se encontra em aproximadamente 0,78% – “notavelmente inferior ao percentual mínimo de ações em circulação exigido pelo Regulamento de Nível 2”, segundo a própria companhia. O plano da Gol é realizar uma oferta pública de aquisição (OPA), cujo preço será estabelecido por um avaliador ainda não definido – o prazo para nomeação vai até o dia 4 de novembro. Vale notar que a empresa se reservou ao direito de cancelar a operação caso o valor total da operação exceda R$ 47,25 milhões – cerca de R$ 6,30 por ação GOLL54. No fechamento do pregão nesta terça-feira (21), cada papel valia R$ 5,72.
O que esperar
A Capital Aberto consultou especialistas para discutir o que os acionistas minoritários da Gol podem esperar do futuro da empresa, bem como quais os caminhos mais recomendados diante do novo cenário. Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, entende que ainda é cedo para afirmar com precisão o que os investidores podem esperar – tanto para bem quanto para mal.
“A gente não tem qualquer expectativa em relação ao eventual upside que pode ser colocado pela oferta pública de aquisição”, analisa Sant’Anna. “Quanto a empresa vai ofertar para que os investidores, em especial os minoritários, entreguem as suas ações? O que a gente sabe hoje é que a Gol vem passando por um momento muito complexo, e só temos um valor mais elevado no pregão de hoje por conta daquele agrupamento gigantesco que eles fizeram. De outra forma, estaríamos com as ações assentadas.”
“O que a companhia ainda vai divulgar, vai gerar ali o interesse ou não dos investidores de puxarem o preço do papel para cima. Ainda é muito preliminar”, acrescenta Sant’Anna. “Como nós não temos essa informação, tudo fica no campo da especulação.”

Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital, enxerga o cenário de maneira similar. Na visão dele, o cenário nas próximas semanas deve ser fortemente balizado pelo teto da OPA. “Vai ficar negociando com o deságio em relação a esse nível, que vai variar ao longo do tempo. Agora está com deságio de 4%, 5%, acredito que vai ficar gravitando nisso até ter um desdobramento, a não ser que tenha uma mudança relevante, a OPA seja retirada, alguma coisa, aconteça”, comenta Utsch.

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Minoritários, tendência de venda
Ainda na análise de Sant’Anna, a recomendação seria para que os investidores vendam seus papéis. “Você ficar em um mercado secundário, tendo que buscar alguém, ficar com uma ação que não está sendo negociada, vai sofrer com a falta de liquidez”, analisa o especialista da Axia. “Me parece um tiro no pé. Quem está comprado em Gol já está, eventualmente, com prejuízo, a maioria dos investidores, principalmente a longo prazo.”
“É hora de realizar, entregar ou, se for essa a oportunidade, pegar o dinheiro e recomprar em papéis de uma eventual abertura de capital no mercado americano, ou mesmo uma migração automática, se for oferecido no processo de fechamento de capital aqui no Brasil”, complementa Sant’Anna.
Utsch tem uma posição mais cautelosa – ao mesmo tempo, não vê muitas alternativas disponíveis para os investidores: “O que fazer depende muito da posição de cada um. Se é um investidor que entrou para especular agora mais recentemente, pós-RJ, se é alguém que tem esse papel há anos e está com 99,9% de perda acumulada, mas assim, de uma maneira geral, não tem mais muito o que fazer”, analisa.
“Não tem mais muito o que fazer com a ação listada no Brasil, porque ela tem esse cap de preço dado pela OPA, a não ser que o investidor esteja olhando para migrar essa ação dele lá para fora. Mas nesse caso, poderia ter comprado diretamente no exterior, se fosse essa a intenção. E no caso desse investidor, ele precisaria ter mandato para segurar essa posição lá fora, se for pessoa física”, complementa. “E acreditar muito, muito no longo prazo, certamente.”
Setor aéreo
Ambos os analistas convergem no entendimento de que o setor aéreo não figura como a opção mais atrativa no mercado financeiro. Para Utsch, “é um setor que sempre foi super mal visto” e que, no Brasil, embora tenha vivenciado uma boa fase entre 2017 e 2019, foi fortemente afetado pela pandemia.
“A pandemia foi um choque para o setor aéreo no mundo inteiro, obviamente, só que aqui no Brasil, as companhias estavam mais alavancadas, a demanda não voltou tão forte, o consumidor, e as empresas não tiveram a elasticidade para colocar custos de preços suficientes para voltar a rentabilizar a operação pós retomada do fluxo, depois do fim da pandemia”, afirma o gestor da Nero Capital. Sant’Anna tem uma visão mais radical: para ele, o setor aéreo é “fadado ao insucesso”.
“Me aponte uma empresa que deu certo no Brasil, no longo prazo. Não temos. Todas as empresas quebraram. OceanAir, BRA, VASP, Varig, Rio Sul, Nordeste. Até a Latam, hoje, é mais chilena do que brasileira”, afirma Sant’Anna.
“O real, desde 1994, vem perdendo valor, frente ao seu poder de compra e, principalmente, frente ao dólar. Se praticamente tudo na aviação é dolarizado e nós temos uma moeda em franca desvalorização, não há como dar certo essa conta. Sem um programa claro e subsidiado até, de alguma forma, pelo governo, nunca vai dar certo”, conclui.
