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Gestores de crédito descartam crise generalizada, fruto dos episódios de Ambipar, Raízen e Braskem

Jiane Carvalho

A preocupação com a qualidade do crédito privado no país, após episódios envolvendo Ambipar, Raízen e Braskem, chegou ao topo nas últimas semanas. Tensões internacionais e o juro doméstico a 15% ao ano, que pressiona a rentabilidade das companhias, colaboraram para uma piora na percepção de risco. A Capital Aberto ouviu gestores para entender se o cenário atual tem potencial para desencadear uma crise no mercado de crédito privado. Casas como SulAmérica Investimentos, Sparta e Valora reconhecem o momento mais delicado, com a lupa dos investidores sobre o mercado, mas veem pouco potencial para uma contaminação do ambiente capaz de gerar uma crise no semento. O retorno menor dos fundos de crédito com papeis das companhias na carteira, pelo efeito da marcação a mercado, é um ponto de alerta, mas ainda contido pela exposição pequena dos fundos.

As três companhias que derrubaram o desempenho dos fundos com carteira expostas aos papeis têm situações distintas. Com uma alavancagem elevada, a Raízen vendeu ativos e tem negociações para uma injeção de capital. Ainda assim, o temor de um downgrade na nota de crédito pelas agências de risco afetou o interesse pelo papeis. Na Braskem, o anunciou da contratação de assessores financeiros para otimizar a estrutura de capital foi a senha para desconfianças sobre a saúde financeira da companhia. A Ambipar, considerada um caso à parte, está na iminência de um pedido de RJ, conseguiu bloquear o vencimento de dívidas e viu os COEs lastreados em seus títulos despencarem, levando a prejuízos aos investidores.


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Na visão da CIO de Crédito Privado e Imobiliário da SulAmérica Investimentos, Daniela Gamboa, não há sinais de que haja uma crise no mercado de crédito, destacando que são eventos isolados. “O principal termômetro de que temos ou não um mercado saudável é o ingresso de recursos na classe de ativo, que segue positivo. Temos um acompanhamento diário e o investidor segue alocando”, comenta Daniela, destacando, por outro lado, que há um “maior conservadorismo na hora das alocações”.

Sobre a sequência de eventos negativos no mercado de crédito privado, a CIO destaca que tem efeitos “pontuais pela pequena participação nos portfólios das carteiras”. Daniela, citando em particular a Ambipar, lembra que os investidores no exterior estão mais atentos às empresas brasileiras e à sua posição de caixa. “Virou uma discussão superimportante para o analista de crédito. Na sequência de Ambipar, vieram os problemas da Braskem. Tudo fez com que o investidor jogasse uma lupa neste mercado. O interesse prossegue, porém, é mais criterioso.”

A SulAmérica Investimentos, casa com perfil high grade, não abre a carteira dos fundos, mas informou que “não houve impacto significativo no desempenho”. “Claro que uma piora no resultado dos fundos no curto prazo, mesmo sendo pontual, pode representar um sinal de alerta, é um trigger importante.” Os fundos da SulAmérica menos líquidos estão com uma posição de caixa maior, fruto da cautela, entre 25% e 30% do PL, o dobro dos 15% usuais. Daniela acrescenta que, mesmo em momentos difíceis, podem surgir oportunidades para os gestores. “Quando a gente olha um papel tipo Ambipar, está sendo negociado a 30% 40% do par, mas eu não tenho mandato para fazer pelo perfil da casa. Já quando falamos de Cosan, também com desconto, é algo que entra em nosso radar. Pode ter oportunidade”, explica a CIO.

O potencial limitado dos efeitos da crise nas companhias é também destacado por Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Fundos de Investimento. “Não é por causa de alguma empresa específica ou outra que a gente vai ter uma reviravolta no mercado de crédito. O pano de fundo principal é a história da divergência entre fundamento e fluxo”, comenta Nehmi, acrescentando que o maior problema é a taxa de juro alta, Selic a 15%, que aumenta o risco de crédito das empresas.

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“O fluxo para a renda fixa foi alto, levando a uma queda forte dos spreads. O cenário de juros elevados continua pressionando as métricas de crédito das empresas, mas a demanda por ativos de crédito privado de alta qualidade segue firme.” Na visão do CEO, buscar spreads maiores neste cenário é o que pode trazer relação de risco retorno desfavoráveis. “A Raízen é um exemplo de que taxa de juros alta não pega só o balanço de empresa pequena. Afeta o balanço de todos os tipos de empresa.”

A piora no humor dos investidores após a sequência de fatos negativos envolvendo Braskem, Ambipar e Raízen, acrescenta Nehmi, não são suficientes para uma “crise generalizada”. “A marcação a mercado prejudica no curto prazo, mas é bom porque evita algo mais abrupto. A dinâmica nas últimas semanas mudou, mas vejo que fica claro que o investidor ainda não se acostumou com a marcação a mercado.”

Os fundos da Sparta não têm Ambipar desde 2023, mas tinham papeis de Braskem, com uma exposição pequena, de 0,6% aos preços atuais. “Um dos fundos no mês ficou em 80% do CDI, não é nenhum desastre porque no ano segue acima do indicador.” O fundo Sparta TOP, por exemplo, no ano, acumula retorno de 10,99% até 13 de outubro, 100,8% do CDI, embora em setembro tenha ficado a 93% do CDI. “Os retornos do mercado, no geral, estão mais contidos, os spreads amassados. Eles devem voltar, mas não temos clareza de quando.”

O CEO da Sparta reconhece que uma sequência de dois ou três meses abaixo do CDI pode afetar o apetite do investidor. “A gente tem esse receio, mas olhamos o comportamento dos investidores e isto ainda não ocorre. Enquanto o juro nominal continuar alto, mesmo o 90% do CDI equivale a 1% ao mês e segue atrativo.” Os fundos da casa também contam com uma posição de caixa maior. O Top, por exemplo, tem historicamente algo perto de 10%, e agora está em 30%.

Na Valora Investimentos, o CEO Daniel Pegorini, tem visão semelhante sobre os riscos contidos nos três episódios - Ambipar, Raizen e Braskem – e sobre o maior problema que pode afetar a qualidade de crédito, a Selic alta. “Se olharmos caso a caso, chegamos à conclusão de que são completamente isolados entre si. Por motivos completamente diferentes. A situação é mais complicada do ponto de vista estrutural, do juro alto”, acrescentando que o mercado mais nervoso também está ligado a questões globais como tarifas na China e shutdown nos Estados Unidos. “Os balanços das empresas domésticas não estão ruins, mas conviver com um juro alto pode piorar a qualidade de crédito.”

O CEO da Valora lembra que o mercado de crédito está “trabalhando com halteres”, se referindo a um universo de high grade, com pouco spreads, porém mais seguros de um lado, e o do high yield, com empresas “mais complexas do ponto de vista de balanços” e retornos maiores, do outro lado. “Os juros impactam os balanços e restringem o consumo, mas é isto que abrirá a possibilidade de corte na Selic, que é positiva. Faz parte do momento contracíclico.”

A queda no curto prazo dos fundos de crédito privado também afetou produtos da asset. O fundo Valora Absolute no ano, até 13 de outubro, acumula retorno de 11,44%, um desempenho de 104,98% do CDI. Em setembro, no entanto, o fundo retornou 67,39% do CDI. “Eu tinha um pouco de Braskem na carteira do fundo, uma empresa petroquímica importante, sólida. Também tínhamos um pouco de Ambipar, porém bem menos. Todos os fundos que tiveram abaixo de 100% de CDI no último mês têm as marcações a mercado.”

Daniel Pegorini lembra que, se não houver uma inadimplência efetiva, é um efeito pontual que pode ser recuperado. “Se não perder o dinheiro, tem a marcação, e por efeito um carrego maior para o futuro. Ter uma marcação dos papéis da Braskem significa que a taxa de cupom aumentou no prazo. A não ser que eu não receba.” O fundo Absolute da Valora tem 30% de posição de caixa, contando LFs, para “ficar mais protegido”.