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Em meio à alta alavancagem, pouca saída resta para a Braskem

Amanda Meneses

A empresa química e petroquímica global Braskem agitou o mercado nas últimas semanas, surpreendendo com o anúncio da contratação de assessores financeiro e jurídicos para estudar alternativas econômico-financeiras para a companhia e, posteriormente, com o rebaixamento de sua nota de crédito por duas das maiores agências de rating, Fitch e S&P. Nesta terça-feira (30), mais um rebaixamento, agora pela Moody’s. A sequência de problemas fez a companhia voltar ao nível de valor de mercado visto apenas em 2009. Agora, o mercado especula as saídas para a alavancagem da Braskem e cogitam uma recuperação extrajudicial. 

A companhia, resultado da sociedade entre Novonor (ex-Odebrecht) e Petrobras, tem sofrido com um desempenho financeiro fraco, queda de margens, e pela pressão sobre seus balanços devido a outros custos. Esses, inclusive, foram pontos abordados pela S&P Global Ratings ao rebaixar a classificação de crédito de emissor em escala global da Braskem de 'B+' para 'CCC-’, com perspectiva negativa, na última semana. O motivo do rebaixamento, segundo a agência, é o risco de reestruturação da dívida, contratação de assessores financeiros e deterioração das métricas de crédito. “A perspectiva negativa reflete o potencial de rebaixamento nos próximos seis meses caso a empresa anuncie um processo de reestruturação de dívida que consideramos equivalente a um calote”, disse a S&P Global Ratings.


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A Fitch tem visão similar. Na sexta-feira (26), a agência também rebaixou a companhia, de 'BB-' para 'CCC+/RR4', com perspectiva negativa, destacando que os rebaixamentos refletem os elevados riscos de crédito e liquidez da Braskem, decorrente de um persistente consumo de caixa e da necessidade de amortizar dívidas que vencem em 2028. Os rebaixamentos da Braskem ocorreram após a companhia anunciar no mesmo dia que contratou assessores para auxílio na elaboração de um diagnóstico de alternativas para otimizar a sua estrutura de capital. “A decisão de contratar assessores financeiros ressalta a pressão sobre seu perfil financeiro e mostra a crescente probabilidade de inadimplência ou de uma reestruturação da dívida no curto a médio prazo”, disse a agência, em nota.

A companhia já havia alertado o mercado ao exibir em seu balanço do 2º trimestre de 2025 resultados mais fracos, um Ebitda Recorrente de US$ 74 milhões (R$ 427 milhões), 67% inferior ao do 1º trimestre, e geração de caixa operacional negativa em R$ 175 milhões, redução do consumo em R$ 761 milhões em relação ao trimestre anterior, com as justificativas de “redução dos spreads de PE e PVC no mercado internacional e o efeito estoque nos segmentos em função de matérias-primas adquiridas em períodos anteriores, quando os preços estavam mais elevados” e a “menor variação de capital de giro, sendo explicada, principalmente, pelos menores custos de produto acabado e de matéria-prima e pelos esforços da companhia para otimizar os níveis de estoques no trimestre”.

A visão das agências é que o fluxo de caixa da Braskem continuará pressionado nos próximos trimestres, mesmo com as iniciativas para melhorar sua rentabilidade e preservar liquidez, como redução de custos, racionalização de investimentos e possível venda de ativos. Para a S&P, essas medidas não serão suficientes para mitigar a atual queima de caixa. Já a Fitch, destaca que a liquidez da Braskem, antes um ponto forte, diminuiu significativamente e que as recentes ações da companhia sinalizam a iminência de uma reestruturação ou da tomada de ações prejudiciais aos detentores de títulos.

A Moody’s Ratings foi a última a reduzir a nota da companhia de B2 para Caa3, com perspectiva negativa. Segundo a Moody’s, o rebaixamento envolveu a Classificação de Família Corporativa (CFR) da Braskem e os títulos globais sênior não garantidos da Braskem America Finance Company, que têm garantia integral da controladora. A decisão, mencionada pela agência, foi motivada pela contratação de assessores financeiros e jurídicos — um movimento interpretado como indício de risco elevado de “trocas em dificuldades”.

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“A decisão das agências Fitch e S&P de rebaixar a nota de crédito da Braskem reflete uma percepção de risco adicional em relação à possibilidade da recuperação extrajudicial, o que pode, sim, dificultar suas futuras captações de dívida, tanto em custo quanto em acesso”, pontua João Abdouni, analista da Levante Inside Corp, complementando que, com um rating mais baixo, os investidores passam a exigir prêmios maiores para assumir o risco de crédito. “Isso tende a pressionar a estrutura financeira da companhia, especialmente em um cenário macroeconômico mais restritivo.”

Abdouni comenta que, além disso, esse rebaixamento contribui para uma percepção mais negativa do mercado em relação à empresa, afetando não apenas o valor de suas ações no curto prazo, mas também sua credibilidade junto a credores, fornecedores e parceiros.

A opinião parece ser compartilhada pelos investidores, uma vez que as ações da companhia têm derretido. A derrocada da petroquímica chegou a um marco histórico, encerrando o pregão de 30 de setembro deste ano avaliada em apenas R$ 5,63 bilhões, patamar que não era visto desde 29 de setembro de 2009, quando a Braskem valia R$ 5,68 bilhões, segundo a Elos Ayta Consultoria. Apenas em setembro, a companhia perdeu mais de R$ 2 bilhões em valor de mercado. De sexta a terça-feira (30), as ações BRKM3 e BRKM5 recuaram 5,1% e 6,41%, respectivamente, enquanto BRKM6 subiu 9,18%.

Qual a saída?

Excluindo a operação com a Idesa, no México, a Braskem tem uma dívida de US$ 8,5 bilhões, e sua geração de caixa (Ebitda) caiu, o que aumentou muito a alavancagem. Soma-se ao cenário de juro restritivo e ao o ciclo de baixa da indústria petroquímica essa alta alavancagem e a obrigação de honrar com o pagamento dos bonds emitidos, deixando a companhia em maus lençóis. A expectativa é que a petroquímica entre em recuperação extrajudicial, instrumento previsto na lei de recuperação judicial e falências que “permite a renegociação da dívida pela empresa em crise, mas diretamente com seus credores, com uma intervenção muito menor do poder judiciário”, esclarece Kaue Cardoso de Oliveira, sócio do MKR Advogados (Modesto Carvalhosa, Kuyven e Ronco). 

Para Bruno Boris, sócio fundador do Bruno Boris Advogados, a recuperação extrajudicial é uma possibilidade que, eventualmente, a Braskem pode pleitear. “Tem alguns benefícios. É, em regra, mais rápida do que uma recuperação judicial, visto a negociação diretamente com os seus credores”, diz. “É uma possibilidade. Quando ventilada, hoje, o mercado entende até de forma positiva.”

Basicamente, a empresa elabora um plano de pagamento aos credores, classificando cada um e os créditos pela sua natureza e espécie, e passa a negociar diretamente com eles. Nesse processo, inclusive, não é necessário que o plano abarque todas as espécies de créditos e credores. Ele pode ser focado especificamente em um ou mais créditos de algumas naturezas. Após essas negociações, e uma vez que a empresa obtém um terço dos credores, créditos representando um terço de cada uma das espécies abrangidas, a empresa pode ingressar com um pedido de homologação do plano. Procurada sobre o tema, a Braskem disse não comentar o assunto. 

Esse instrumento pressupõe que a devedora tem um relacionamento com seus credores e possui tem condições financeiras de apresentar propostas factíveis direcionadas a classes de credores específicas. “Esse, acho que é o caso específico da Braskem, porque a companhia tem um valor considerável em caixa, em linhas de crédito disponíveis. O que tem pressionado a situação financeira dela é a alavancagem e o endividamento em dólar”, diz Oliveira, do MKR, lembrando que essa dívida, hoje, é majoritariamente detida por bancos e bondholders, por meio de títulos emitidos no exterior. A companhia possui diversos títulos de dívida no exterior, muitos com prazos alongados, com pagamento de juros semestrais. 

O advogado do MKR cita que a dívida em relação aos detentores dos bonds é um elemento de pressão que leva a Braskem a tentar fazer essa negociação com os credores. Caso esse acordo seja obtido, os bondholders podem ser adiados e, de alguma maneira, isso deve aliviar a pressão financeira da companhia. “De maneira geral, a expectativa do mercado é que o plano de recuperação extrajudicial seja direcionado a esses credores financeiros, majoritariamente estrangeiros, e não afete os demais, fornecedores, empregados, os demais crio grafados da companhia. Mas isso, naturalmente, só vai poder ser confirmado após a divulgação do acordo”, diz Oliveira.