Copel avança para entrar no Novo Mercado, que vive redução
A Companhia Paranaense de Energia (Copel) anunciou, em Fato Relevante publicado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na última semana, que convocou uma assembleia especial de acionistas preferencialistas (AGESP PN) para conversão de ações preferenciais. A convocação representa mais um passo no processo da empresa de entrada no Novo Mercado, segmento de empresas listadas na B3 cujas regras de governança são ainda mais rigorosas que as exigidas pela legislação. Nos últimos meses, o segmento também foi palco de discussões a respeito de possíveis alterações em suas regras, que não avançaram. O movimento da Copel parece ir na contramão do mercado dados os custos exigidos para se manter no segmento, o que tem sido evitado no ambiente macroeconômico atual.
A Capital Aberto analisou dados e conversou com especialistas para entender como está a movimentação das empresas em torno do Novo Mercado – entradas e saídas do segmento e as impressões sobre o segmento.
Conforme dados da B3, o segmento conta com 17 empresas a menos hoje – atualmente, ele é integrado por 185 companhias – em comparação com janeiro de 2023, quando o Novo Mercado incluía 202 empresas. Vale notar que esse é um valor bastante próximo da máxima histórica do segmento, registrada em outubro de 2021: 205 empresas integrantes. A Copel caminha na direção contrária e vai reforçar o segmento.
Compreenda como a contabilidade deve evoluir diante de startups, tecnologia e ativos intangíveis no curto “Contabilidade Societária” com Eliseu Martins e Eric Martins
Apesar de novas entradas pontuais, a retração tem se mostrado uma tendência duradoura, de longo prazo, cenário que é ainda mais bem evidenciado ao se analisar os dados por semestre: ao final do primeiro semestre de 2023, o número de empresas no Novo Mercado já havia diminuído para 197. Até dezembro do mesmo ano, uma nova redução levou o total a 195.
As saídas continuaram em 2024: em junho daquele ano, o total caiu para 192, enquanto em dezembro, chegou a 189. Já em junho de 2025, um novo saldo negativo levou o número a 187 – volume que, apenas no trimestre entre junho e setembro, já se reduziu novamente.
Apesar da redução, segmento continua prestigiado
Embora o Novo Mercado tenha perdido companhias, especialistas entendem que estar listada no segmento segue como um fator importante de valorização para as empresas. Para Luiz Martha, diretor de conhecimento e impacto do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), integrar o seleto segmento da B3 é um “marco”.
"O Novo Mercado sempre representou um marco para empresas comprometidas com padrões mais elevados de governança corporativa. A decisão de aderir a esse segmento está associada a uma busca estratégica por maior transparência, credibilidade e acesso a capital de longo prazo”, analisa Luiz.

PUBLICIDADE
“Com exigências adicionais — como estrutura de controle mais clara, composição qualificada do conselho e práticas rigorosas de divulgação —, o Novo Mercado continua sendo um selo de confiança”, acrescenta ele, em alusão às discussões dos últimos meses. “Ele sinaliza ao mercado que a empresa está disposta a submeter-se a regras mais exigentes em nome de uma relação mais equilibrada com acionistas, investidores e demais partes interessadas.”
O diretor do IBGC também afirma que a adesão pode favorecer a valorização das ações, reduzir o custo de capital e atrair investidores institucionais que priorizam governança – mas que, por outro lado, o ingresso exige uma mudança cultural profunda: sair de um modelo centrado em poucos decisores para uma estrutura mais colegiada, com papéis e responsabilidades bem definidos.
“Essa abertura não é simples, mas pode fortalecer a reputação e a sustentabilidade da companhia no longo prazo. Mais do que um conjunto de regras, o Novo Mercado é um compromisso público com a governança como ativo estratégico”, conclui.
A análise de Lucy Pamboukdjian, diretora executiva de mercado de capitais da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), é convergente.
“Acreditamos muito no valor da boa governança”, afirma ela. “Em relação às discussões feitas recentemente pela B3, vimos um posicionamento muito intenso das empresas associadas à Abrasca no sentido de reconhecer a importância do Novo Mercado, da governança corporativa para as nossas companhias.”
“Vamos continuar apoiando as empresas em todas as discussões que elas precisarem para fazer incrementos na questão da governança, em qualquer discussão, qualquer revisão, qualquer contexto relacionado a novas exigências de governança corporativa”, acrescenta Lucy, que entende que as bandeiras representadas pelo Novo Mercado são importantes para o “desenvolvimento e crescimento do mercado de capitais brasileiro”.
Empresas do setor elétrico no Novo Mercado
No setor de energia elétrica, particularmente, também não são muitas as empresas que integram o Novo Mercado. Ainda conforme dados da B3, somente oito das 77 empresas listadas do setor integram o segmento – Auren Energia, CPFL Energia, Eneva, Engie Brasil Energia, Equatorial, Light, Neoenergia e Serena Energia.
Para a Copel, que segue executando os procedimentos para integrar o Novo Mercado, a migração para o segmento é “parte de uma estratégia voltada a buscar o maior nível possível de governança corporativa, com o intuito de aumentar seu valor de mercado e fortalecer sua imagem institucional”, afirmou a empresa em comentário enviado à Capital Aberto.
“A companhia enxerga a migração como um investimento estratégico que reforça sua competitividade, amplia seu acesso a capital de longo prazo e consolida sua posição como uma empresa moderna, transparente e alinhada às melhores práticas do mercado”, complementa.
A Copel também aponta o alinhamento dos direitos dos acionistas, por meio da adoção de uma única classe de ações ordinárias com direito a voto, como um dos motivadores, assim como o intuito de tornar a companhia mais atrativa para investidores institucionais.
