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No top retorno no ano, Fiagros-FII com Agrogalaxy na carteira mostram recuperação

Amanda Meneses

Os Fundos de Investimento em Cadeias Agroindústrias (Fiagros), categoria criada há poucos anos, tiveram um começo explosivo, mas em 2023 surgiram problemas com quebra de safra e pedidos de Recuperação Judicial (RJ) de produtores rurais que abalaram o mercado, além de eventos de crédito em empresas do setor, desvalorizando cotas e dificultando a captação do segmento, questões que ainda se arrastam. Agora, os fundos parecem se recuperar. Na lista dos maiores retornos, os Fiagros-FII que se destacam passaram por maus bocados, incluindo recuperação de capital em situações como a da Agrogalaxy. 

Segundo levantamento da Quantum, entre os FIIs de Fiagros de maiores retornos no período de 2 de janeiro a 15 de setembro deste ano, lideram a lista as gestoras, XP, JGP, SFI Investimentos, Capitânia e Galapagos.


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Em primeiro lugar no ranking de retorno no ano, o XPCA11, fundo de crédito do agronegócio voltado ao investidor qualificado, com alocação majoritária em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), mas com investimentos em CRIs vinculados ao setor e em estruturas de FIDCs. O fundo acumulou um retorno de 48,15% no período. O motivo, segundo o gestor do produto, não é único, visto sua diversificação setorial e geográfica. Para ele, sempre existem boas oportunidades, mesmo em segmentos que enfrentam desafios, como a soja recentemente. “Vale destacar que esse retorno reflete um movimento de recuperação do mercado após um período de maior volatilidade no ano anterior. Com a estabilização do cenário e um dividend yield atrativo, observamos um retorno consistente do interesse dos investidores”, comenta Gustavo Gomes, responsável pela área comercial do setor agro da XP Asset.

O fundo possuía, em 2024, cerca de 8% de seu Patrimônio Líquido exposto aos papeis da Agrogalaxy, empresa que abalou o mercado agro ao entrar com pedido de RJ no ano passado. A XP, no entanto, não comentou o assunto, afirmando apenas que a equipe enfrentou desafios “com disciplina e transparência junto aos investidores, mantendo o foco na qualidade da carteira e na gestão ativa”. “O agronegócio é um setor cíclico, e saber navegar nesses momentos é essencial para capturar boas oportunidades no longo prazo”, apontou o gestor.

Já o segundo colocado, o JGP11, com 44,01% de retorno, é um Fiagro de crédito com foco em CRAs e alocação complementar em outros Fiagros e FIDCs, com ativos high grade, duration controlada, estruturas com garantias e “covenants que protejam o investimento”. O retorno, segundo a gestora do produto, reflete a recuperação do preço do fundo a mercado versus a queda de 2024 e a normalização dos dividendos pagos. “Além disso, reflete três vetores: carry + seleção + realocação. Carry de uma carteira majoritariamente indexada a CDI; gestão ativa, marcação a mercado, incluindo realocações táticas como redução/venda de créditos que comprimiram demais e compra de papéis com melhor relação risco-retorno, por exemplo, aquisições no mercado secundário com prêmio sobre a emissão no primário”, esclarece Julia Bretz, responsável pelas estratégias de agro e crédito ESG da JGP.

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O fundo em questão teve um único evento de crédito relevante em sua história, também envolvendo o pedido de RJ da Agrogalaxy e seu default dos CRAs em carteira. Julia aponta que a remarcação do ativo para 50% do seu valor impactou nas distribuições que seriam possíveis até o fim do ano fiscal do fundo, em junho de 2025, tendo que ser reduzidas. “Passado essa fase, voltamos a distribuir os dividendos normalizados, constituindo reserva prudencial quando possível. Em paralelo, no caso de Agrogalaxy, acionamos nossa equipe especializada em situações especiais/reestruturação para liderar as negociações junto aos demais credores e agentes fiduciários, com foco em melhorar o nosso recovery”, explica. 

O terceiro lugar da lista, com retorno de 41,20%, o IAGR11, fundo da SFI Investimentos, tem na carteira CRAs de agricultores. O fundo foi bastante impactado pelas RJs no campo, mas tem conseguido avançar na recuperação dos recursos. Segundo o último relatório gerencial, estão em diferentes fases os processos para adquirir os recursos dos CRAs 3 irmãos, Piva, Castilhos, Ducoco e Mitre. A reportagem não conseguiu contato com a gestora até o fechamento da matéria.

O quarto colocado, o Fiagro-FII da Capitânia Investimentos, CPTR11, acumula um retorno de 36,9%. A estratégia do fundo, cuja gestão sabe que “garantia rural é muito difícil de executar” é se aproximar do segmento sem estar diretamente envolvido com a produção final. “Tentamos achar indústria, logística, os elos adjacentes que costumam ter a cobrança um pouco mais bem resolvida, e já tem um desenho no mercado de capitais de alguma forma”, conta Christhoper Smith, gestor da Capitânia. Segundo relatório de Julho, o fundo possuía 68% do patrimônio alocado em operações indexadas ao CDI + 3,9%, 22% na curva do IPCA + 11,9% e 7% em cotas de Fiagros.

O fundo teve eventos como o caso de Agrogalaxy, Patense, e algo mais recente, que vai ser declarado extra-concursal, CRAS Brasil. Ano passado, no momento da RJ da Agrogalaxy, houve uma venda desenfreada do CPTR11 no mercado, bem como de diversos outros fundos com os papeis da companhia na carteira, e um desconto grande em cima de todos os ativos da carteira do fundo. “O CPTR acabou entrando nesse movimento mais fragilizado. Gerou um desconto absolutamente desproporcional à qualidade de crédito da carteira”, diz o gestor do fundo.

A recuperação do produto este ano, para Smith, é puxada pela melhora das perspectivas do investidor, que fizeram a cota subir aos poucos. “O mercado conseguiu precificar depois que a poeira baixou”, pontua, complementando que do lado da gestão, a concretização das RJs de Agrogalaxy e Patense trazem um pouco mais de certeza no momento de precificar esses dois ativos. “A Agrogalaxy acabou de finalizar a recuperação judicia. Temos a expectativa de recuperar aqui entre 50% do par e 75% do par, e hoje a marcação do nosso administrador é 50% do par.”

Perspectivas para o setor

Para os gestores, há um movimento de melhora no segmento. A XP, por exemplo, acredita na retomada gradual de seu Fiagro-FII à medida que os investidores compreendem melhor os ciclos do agronegócio. “A recuperação das cotas é um indicativo claro dessa retomada”, opina o executivo da casa.

Há sinais construtivos, como volumes no primário voltando, compressão gradual de P/VP em alguns nomes, e yield muito competitivo para PF. “O JGPX11, por exemplo, com uma cota de R$ 70, tem um retorno líquido para o cotista equivalente a CDI + 18,7%, considerando o prazo médio de 1,6 ano”, aponta Julia, da JGP, ponderando que a ciclicidade e a heterogeneidade do agro permanecem no radar.

Para Smith, da Capitânia, o mercado precisa “dar tempo ao tempo” ao investidor pessoa física voltar a investir nos Fiagros. Há uma recuperação das cotas, mas “diria que para novas captações, tem uma janelinha de pelo menos uns dois anos para ter algum tipo de emissão, porque há descontos amplos em diversos ativos focados em pessoa física”, opina o gestor. 

O desconto médio dos fundos de agro ainda é muito atrativo, ainda que as cotas estejam se recuperando. Mas, do ponto de vista de gestão, novas oportunidades ficarão para 2027. “Até porque é ano eleitoral. A não ser que a gente comece a precificar a eleição, com muita certeza, no começo do ano. Acaba sendo um ano muito difícil para iniciativas novas”, complementa Smith.