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Mercado deve ampliar uso de IA em relatórios financeiros e gerenciais

Amanda Meneses

Com a crescente popularidade das ferramentas de Inteligência Artificial (IA) e massivos investimentos por parte das empresas de tecnologia, o mercado de capitais passou a olhar para o tema não somente como alvo de alocações, mas como instrumento de economia de recursos e mão-de-obra com aplicação em diversas áreas. Inclusive, pensando nisso, a consultoria KPMG criou um guia para nortear os entes do mercado na aplicação das ferramentas na produção de relatórios financeiros, voltado para governança, riscos e controles internos. Ainda segundo a instituição, as empresas estão investindo fortemente nessas ferramentas.

De acordo com pesquisa recente da KPMG Brasil, o Brasil atingiu o patamar de 45% no treinamento e na alfabetização IA dentro das empresas, índice que supera potências como Alemanha (20%), Japão (21%), França (24%), Reino Unido (27%) e até os Estados Unidos (28%) nesse quesito, ficando atrás apenas da China, que lidera com 64%.

“Hoje, as empresas estão investindo fortemente em ferramentas que incluem robôs de automação de processos (RPA), algoritmos de machine learning para análise preditiva, plataformas de processamento de linguagem natural para extração de dados de documentos e sistemas de geração automática de relatórios. Além disso, soluções de data analytics, como Power BI e Alteryx (ferramentas de análise de dados), têm sido amplamente utilizadas para organizar e visualizar grandes volumes de dados”, conta Rodrigo Gonzalez, sócio da KPMG no Brasil.


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Considerando o ambiente de trabalho, a pesquisa indica que 86% das empresas brasileiras estão usando IA no dia a dia. Os dados constam na pesquisa “Trust, attitudes and use of AI: 2025 - global study and country insights” (Confiança, atitudes e uso de inteligência artificial: um estudo global 2025), feita pela KPMG e conduzida de forma independente pela Universidade de Melbourne, da Austrália, com dados globais e recortes de vários países, incluindo o Brasil. Ela contou com respostas de 48.000 pessoas de 47 países. 

Segundo as estatísticas, o movimento de adoção de IA e automação é crescente tanto globalmente quanto no Brasil. Entre os respondentes brasileiros da pesquisa da KPMG, há indústrias utilizando IA para análise de contratos e detecção de riscos financeiros, bancos automatizando conciliações e análises de crédito, e empresas de varejo implementando RPA para processamento de notas fiscais e lançamentos contábeis, apenas para mencionar alguns exemplos. 

O executivo da consultoria pontua ainda que os benefícios indicados pelos respondentes incluem a aceleração significativa na elaboração de relatórios; redução de erros humanos; maior precisão das informações e uma capacidade ampliada de gerar insights estratégicos em tempo real. “Isso permite que as equipes financeiras dediquem mais tempo à análise e à tomada de decisão, em vez de tarefas operacionais repetitivas. Também foram citados ganhos relevantes em conformidade regulatória, com monitoramento automatizado de regras e requisitos”, conta Gonzalez. 

A KPMG não abriu o nome das empresas participantes devido a políticas internas e empresas de capital aberto brasileiras procuradas pela reportagem não quiseram se manifestar sobre o tema. No entanto, elas não são as únicas a investirem nessas tecnologias. Gestoras de investimentos e corretoras já têm incluído essas ferramentas em alguns de seus processos.

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“Utilizamos automações na captura e tratamento dos dados, IA para análise dos dados e confecção dos textos seguindo o nosso padrão de análise. Isso tudo para elaboração de relatórios gerenciais e lâmina mensal”, conta Luis Ravasi, COO da inVista Real Estate, complementando que ainda não priorizam a atuação da IA em análise de contratos e detecção de riscos financeiros ou processamento de notas fiscais e lançamentos contábeis, pois o serviço é realizado por terceiros.

Luis Ravasi, COO da inVista Real Estate
Luis Ravasi, COO da inVista Real Estate

A asset, inclusive, tem investido em tecnologia, segundo o executivo. “A inVista tem no seu DNA ser uma Asset Tec e vem trilhando um caminho para se tornar referência em eficiência operacional na aplicação prática de IA no mercado de capitais. Foi um dos motivos da minha vinda e estamos investindo bastante em tecnologia em todas as áreas da empresa, tais como Gestão, Comercial, Operações e Risco & Compliance”, esclarece Ravasi, que está há pouco mais de um ano na casa.

Investimento e risco

A pesquisa da KPMG revela ganhos expressivos e mensuráveis obtidos pelas empresas com o uso de IA e automação de processos. Segundo a consultoria, empresas consideradas como “líderes” na implementação de IA relatam que processos que antes demandavam dias agora são concluídos em horas ou minutos, especialmente na elaboração de relatórios e análises financeiras. 

“Há uma redução significativa na necessidade de mão-de-obra para tarefas operacionais, permitindo que profissionais se concentrem em atividades de maior valor agregado”, afirma Gonzalez. “Em termos de investimento, as organizações estão destinando cerca de 8,5% do orçamento de TI para IA, com previsão de aumento para 13,5% nos próximos três anos, refletindo um retorno sobre o investimento acima das expectativas em mais da metade dos casos”.

O ganho de eficiência foi observado pela própria InVista, que tem economizado tempo e agilidade em algumas esteiras. “Um exemplo é a elaboração dos Relatórios Gerenciais, nos quais ganhamos alguns dias úteis”, conta Ravasi.

A perspectiva da KPMG para o tema é extremamente positiva. Conforme respostas de empresas participantes na pesquisa sobre o tema, é previsto que nos próximos três anos uma parcela significativa das companhias de capital aberto já esteja utilizando IA de forma seletiva ou ampla em seus processos financeiros e relatórios. Entre as companhias consideradas “líderes” do setor em termos de implementação de IA, esse percentual pode chegar a 95%. 

Contudo, a adoção de automação e uso de IA também traz riscos e desafios relevantes que precisam de atenção por parte das empresas. Gonzalez cita a segurança e privacidade dos dados como riscos a serem observados, além da transparência dos algoritmos, que podem apresentar vieses ou tomar decisões sem explicação clara, dificultando a validação dos resultados. O executivo ainda menciona os riscos de fraude, especialmente com o uso de ferramentas avançadas que podem ser exploradas para manipulação de dados ou ocultação de irregularidades, e o desafio de manter a conformidade regulatória diante de um cenário tecnológico em rápida evolução.

Este, inclusive, é um tema tratado no guia da consultoria. Além de citar ferramentas inteligentes e casos de uso para facilitar o entendimento e aplicação por parte dos entes do mercado em seus relatórios financeiros, o documento traz uma discussão sobre os riscos e tópicos a serem analisados pelas empresas, afirmando que a avaliação deve ser “top-down” (ampla e geral), trazendo políticas e procedimentos sobre uso responsável e ético da IA e recomendações.