Gestores de crédito seguem cautelosos com efeito de juro alto e desaceleração nas empresas
Juros altos e desaceleração econômica tendem a piorar a qualidade de crédito das empresas, mas, neste momento, o cenário projetado pela Moody’s é de estabilidade. Relatório da agência de classificação de risco afirma que a qualidade dos perfis de crédito das empresas brasileiras não financeiras e dos grupos de infraestrutura continuará estável até 2026, apesar da expectativa de desaceleração do crescimento econômico. A tendência é de crescimento menor do Ebitda – 1% para produtores de commodities e 4% nas empresas com foco nacional. Em que pese os custos maiores com despesas financeiras, destaca a Moody’s e analistas de crédito ouvidos pela Capital Aberto, o fato de as empresas terem se preparado para este cenário desde 2024 ou – em alguns casos – estarem melhorando agora o perfil da dívida, amortece efeitos do cenário.
O relatório da agência Moody’s, ao destacar perspectiva estável para a qualidade de crédito das empresas, mesmo com o crescimento do PIB recuando para cerca de 2% neste ano e em 2026, joga luz sobre alguns desafios importantes. A recomposição dos aumentos dos preços para suportar a alta dos custos será mais difícil para empresas focadas no consumo doméstico. As despesas com juros altos continuam a limitar o lucro líquido e a geração de caixa, o que leva as empresas brasileiras a moderarem o crescimento, reduzir os custos de juros e a estender os vencimentos de dívida para melhorar a geração de fluxo de caixa e evitar riscos de refinanciamento.
Entenda cada etapa da montagem de FIDCs, da teoria à execução no curso Estruturação de FIDCs
Na visão dos analistas de crédito da Valora Investimentos e do BNP Paribas, as companhias fizeram seu dever de casa e estão mais preparadas para o momento. “Desde agosto do ano passado, quando houve uma deterioração das condições macro com o tema fiscal piorando câmbio e juros, as empresas começaram a se preparar, reduzindo despesa, segurando Capex e melhorando o perfil da dívida”, comenta Fernando Marinho, gestor da Valora Investimentos.
Henri Rysman, gestor e responsável pela área de Crédito Privado e especialista em ESG da BNP Paribas Asset Management Brasil, tem visão semelhante. “Elas recompraram as dívidas mais caras, alongaram o prazo médio das dívidas, conseguindo, na média, um custo médio menor entre 50 e 75 bases points. Conseguem, agora, enfrentar o cenário desafiador de uma maneira mais preparada.” E acrescenta: “claro que a Selic a 15% é um desafio, já com piora de alguns indicadores, porém, ainda em patamar confortável”. Na visão do executivo do BNP Paribas, a eleição de 2026 já está no radar e força empresas que ainda não se prepararam a buscar uma melhora no perfil da dívida. “Hoje, temos quase R$ 94 bi em emissões sendo preparadas, sendo que, em agosto, as emissões foram de R$ 42 bi. As empresas estão tentando correr para fazer essas emissões ainda neste ano e o prazo médio dessas emissões também tem aumentado.”

PUBLICIDADE
No relatório sobre qualidade do crédito privado, a Moody’s afirma que as empresas com concentrações de “dívida de curto prazo maiores terão como objetivo administrar os passivos antes da eleição presidencial de outubro de 2026”. O tema sucessão presidencial, para Marinho, da Valora, precisa ser “devidamente endereçado” para evitar uma piora no mercado, destacando a percepção de risco macro, que não é boa. “A gente tem um cenário macro, olhando para frente, ainda duro, num contexto de carrego de juros a 15% comendo o resultado das companhias e, claramente, de um certo esgotamento da economia de absorver repasse de preço. Para evitar uma piora, tem que endereçar o tema eleição com um candidato ortodoxo, como Tarcísio de Freitas ou um de centro-esquerda com compromisso fiscal”, explica o gestor, acrescentando que isto abriria espaço para cortar juro e acomodar o câmbio.
Oportunidades de gestão
No relatório da Moody’s, o setor de infraestrutura ganha destaque positivo por “oferecer oportunidades de investimento em vários setores, diante da crescente transparência regulatória para as operadoras e aprimoramento da escolha do consumidor”. O relatório cita as PPPs, que trarão cerca de R$ 364 bilhões em investimentos em projetos federais e estaduais brasileiros em 2025-2029, incluindo rodovias, portos, aeroportos, ferrovias, sistemas de metrô e saneamento, de acordo com a Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB).
No BNP Paribas, casa com perfil de investimento high grade, segmentos de infraestrutura como energia, rodovias e saneamento são os preferidos. “É um momento para, de fato, preferir esses setores mais regulados, que apresentam um fluxo de caixa mais robusto, que são justamente os setores que a gente gosta, como energia, de forte previsibilidade de geração de caixa, concessão de rodovias e saneamento. Têm nível de spread menor, mas também risco mais baixo”, explica Rysman, acrescentando que, nos fundos de crédito do BNP, as carteiras estão com duration menor, maior liquidez para aproveitar oportunidades e um mix entre papeis de bancos e corporativos.
Na Valora, para uma gestão de risco em um cenário que inspira cuidado e acompanhamento das operações, a compra de papeis high yield não tem sido uma opção. “Desde agosto do ano passado, eu olhei mais de 30 operações de high yield e não fizemos nenhuma”, conta Marinho, destacando que as melhores oportunidades hoje estão no mercado secundário. “Tem muita empresa que emitiu a CDI+1%, mais 2%, nesse ambiente mais investment grade, e no secundário sai a CDI+4%, mais 6%”, explica. “A gente vem surfando esse ambiente estressado reduzindo o risco de duration, aumentando caixa e reduzindo o risco de crédito na margem, sem qualquer deal de high yield, mas olhando as oportunidades.”


