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Fundos de small caps têm maior dispersão nos retornos em relação ao índice da categoria

Jiane Carvalho

O desempenho do mercado de ações em 2025, refletindo tendência de corte dos juros americanos, que atraiu estrangeiros para a B3, e a antecipação de um afrouxamento da política monetária doméstica, até aqui é muito positivo. No ano, até 31 de agosto, o Ibovespa subiu 17,7%, enquanto o índice das small caps (SMLL) – grupo de empresas de menor capitalização e que mais sofrem com os juros altos – avançou 25,33%. A recuperação do mercado se reflete no desempenho dos fundos de ações, mas de forma desigual, dependendo das escolhas dos gestores e do modelo de gestão. A maior dispersão no desempenho, conforme indica estudo elaborado pela Quantum Finance, foi verificada nos fundos de small caps.

No levantamento realizado pela Quantum, com data de corte em 31 de julho, foram analisados fundos de ações de sete categorias diferentes, segundo a classificação da Anbima. Na média, os fundos com melhor retorno entre janeiro e julho foram os Ações Livre, com retorno de 11,86%, bem acima do Ibovespa, cujo desempenho na mesma comparação foi de 7,27%. Fundos de ações Valor/Crescimento e Sustentabilidade/Governança também entregaram retorno bem acima do Ibovespa, com retorno na média de 11,33% e 11,23%, respectivamente. Chama a atenção, pela discrepância em relação ao índice benchmark, os fundos de ações small caps, cujo retorno médio ficou em 4,54%, para um índice que avançou 26,35%.


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Na visão do estrategista da EQI Research Felipe Paletta, a dispersão nos retornos dos fundos de ações small caps, que derruba o desempenho agregado quando comparado ao índice, se explica pela dificuldade em alocar recursos neste grupo de empresas. “Uma consequência direta da baixa capitalização é que os fundos maiores alocam pouco nas companhias, dá trabalho analisar e mesmo quando investe de forma relevante, a participação na carteira será pequena. É um grupo de empresas com tendência de oscilar mais na bolsa”, explica Paletta. O estrategista acrescenta que dentro do índice small caps há muitas empresas mais ligadas a varejo e setor industrial, cujo impacto do juro alto é mais intenso. “A gente viu várias small caps se valorizarem bastante, mas os gestores dos fundos fazem escolhas em teses específicas e pode ser que essa tese ainda não tenha se materializado. O dado mostra o desafio de investir em small caps, de fazer o stock picking.”

Felipe Paletta, estrategista da EQI Research
Felipe Paletta, estrategista da EQI Research

A área de pesquisa da EQI acaba de rever suas indicações e incluiu o ETF Smal11, gerido pela BlackRock, na lista de ativos sugeridos, pela perspectiva de alta deste grupo de ações na B3. A recuperação do índice neste ano vem após perdas relevantes nos últimos anos. Só em 2024, o índice caiu 25,03%. Na projeção da EQI Research, o juro doméstico começa a ser reduzido no começo de 2026, favorecendo o mercado de ações. “O espaço para alta hoje é menor do que em dezembro passado, quando a bolsa negociava seis vezes o lucro, mas ainda assim importante. Estamos longe dos múltiplos históricos, de 10 vezes.” A projeção da casa é Ibovespa em 170 mil pontos para o ano que vem e o índice Small Caps se valorizando em torno de 28% a 30% a partir dos preços atuais.

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Na Trígono Capital, o fundo Flagship 60 Small Caps está no grupo de produtos com desempenho negativo no ano, que ajudaram a derrubar o desempenho agregado dos fundos, com recuo de 14,81% até 01 de setembro. Os motivos têm mais a ver com a filosofia da casa, com atuação mais ativista, do que com a seleção pontual das carteiras. “Não olhamos o índice, a gente não faz uma gestão top-down para esse produto. É 100% bottom-up. Quase um modelo de private equity em que olha longo prazo e faz um ativismo dentro da empresa”, explica Yuhzô Breyer, gestor de Renda Variável da Trígono Capital, acrescentando que a carteira gira pouco.

“A indústria de fundos small caps, por natureza, é pequena, então tem poucos players, e a decisão de ter um produto como este já infere uma escolha por descorrelação. São perfis menos correlacionados ao índice”, comenta Breyer ao explicar por que, na média, os fundos da categoria vão pior do que o índice. “Eles (gestores) gostam de escolher as ações que entendem que tem upside, retorno atrativo, vão comprar essas ações, independente do que está ou não está no índice.”

Na Trígono, há fundos de outras categorias, como Ações Livre, que no levantamento da Quantum ficaram bem acima do Ibovespa. É o Trígono Pathernon, de Ações Livre, com 11,5% de alta, e o Trígono Dynamic, com uma rentabilidade de 29% no ano. “O Dynamic tem uma filosofia diferente dos outros produtos da casa, principalmente com relação ao Flagship. É um produto que combina top-down com o bottom-up”, explica Breyer, gestor do fundo. Na carteira do Dynamic há companhias como Tenda (TEND3), Moura Dubeux (MDNE3) e Aura (AURA33). “Foram três empresas que deram um bom retorno, que mais performaram esse ano aqui na carteira. Já estavam na carteira desde o ano passado.”

O Dynamic tem como característica a rotatividade da carteira e entre 20 a 30 papeis, com pesos maiores ou menores dependendo do momento. Sobre perspectiva, Yuhzô Breyer está no grupo dos gestores que veem maior espaço para alta no grupo das small caps. “O índice veio de anos muito ruins. Da mesma forma que tem um exagero para baixo, no futuro, eu acredito que vai ter um exagero para cima. Claro que depende bastante da escolha de nomes porque várias empresas tiveram um momento tão ruim, que não volta tão cedo.”

Na Bradesco Asset, o fundo Bradesco Estratégia Small Caps está positivamente bem distante da alta do índice da categoria, com um retorno de 29%. “Na classe de gestão ativa de renda variável está sendo um ano muito bom, conseguimos criar valor para o cotista, acima do benchmark”, comenta Bruno Borges, gestor de Fundos de Ações da Bradesco Asset, destacando a dificuldade de escolhas no universo das small caps. “São as mais penalizadas pelo juro alto porque o custo da dívida sobe muito, além de terem maior dificuldade em repassar a inflação para os preços dos produtos, têm menor poder de barganha.”

Na carteira do fundo Estratégia Small Caps, dois setores se destacam: educação e construtoras, com papeis de SER Educacional (SEER3), Tenda (TEND3) e Cury (CURY3). “São empresas como a Cury, que subiu 100% no ano, e a Tenda, 90%. Na indústria small caps é assim, o retorno é muito expressivo para o bem ou para o mal”, comenta Borges. “O que a gente chama de stock picking, a seleção dos papeis, precisa ser interessante, com um nível de valuation atrativo. É um segmento mais arriscado, precisamos evitar excesso de euforia.” O portfólio do fundo da Bradesco tem entre 30 e 35 ações.

Na visão do gestor da Bradesco Asset, a dispersão elevada entre o retorno dos fundos de small caps em relação ao índice é fruto do grau de dificuldade maior na seleção. “É comum nessa indústria de small caps ter retorno muito discrepante. Algumas empresas em fase de crescimento, outras muito alavancadas. Altas fortes e quedas drásticas são mais comuns neste universo.” Sobre os fundos de gestão ativa, que foram muito bem no primeiro semestre, Bruno Borge diz que o foco é busca de valor acima do índice (Ibov.). “Em geral, agregaram muito valor. Até porque o Ibovespa foi penalizado pelo peso de ações de commoditiies que performaram mal. No geral, ainda tem muita oportunidade na bolsa. Lembrando que em 2026 temos duas grandes variáveis, o juro e a eleição que já entrou no dia a dia do  mercado.”