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Fundos de pensão focam em critérios ESG e aguardam janela para investir em Fiagros 

Amanda Meneses

As Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs) têm adotado cada vez mais os critérios ESG em suas políticas de investimentos e nas negociações com outros entes de mercado. Apesar da propensão do momento econômico para alocação em títulos de renda fixa padrão, como as NTN-Bs, os fundos de pensão avaliam o aumento da alocação em títulos ESG e alguns estudam, inclusive, a entrada em Fiagros, após a resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) que permitiu esse tipo de alocação por parte das entidades, aguardando apenas a janela adequada para investir nos produtos.

Em março, o CMN aprovou a Resolução n.º 5.202 sobre as diretrizes de aplicação dos recursos das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs), permitindo que elas realizem investimentos em créditos de carbono e Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros). Até o momento, no entanto, os fundos de pensão ainda não iniciaram uma alocação nos produtos.

Procurada, a Vivest afirmou que “está constantemente avaliando as opções”, dizendo que, no caso do crédito de carbono, há interesse em entender e observar como será a evolução desse mercado no Brasil e que irá se preparar para avaliar as oportunidades conforme o apetite ao risco para esse tipo de investimento cresça internamente. “O racional é semelhante para Fiagro, embora nesse caso o cenário de curto prazo pareça desafiador. De qualquer forma, não pretendemos fazer esse tipo de investimento neste momento”, conta Luciana Puccetti, gerente Executiva de Renda Variável e Análise de Investimentos da Vivest.


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A entidade diz “acompanhar o setor com atenção”, mas entender que atualmente ainda há desafios importantes, como a oscilação nos preços das commodities e questões relacionadas ao crédito. “Por isso, preferimos manter uma postura mais cautelosa em relação a esse tipo de investimento. Continuamos avaliando o mercado e abertos a novas possibilidades, conforme o cenário evolua e se torne mais favorável”, complementa Luciana.

Na Previ, a visão é similar. Ainda que a entidade veja com bons olhos as novas possibilidades, especialmente por estarem alinhadas à sua agenda ASGI (Ambiental, Social, Governança e Integridade) e à transição para uma economia mais sustentável, a equipe técnica ainda está estudando os produtos disponíveis, avaliando riscos e oportunidades, e desenvolvendo critérios técnicos e regulatórios para eventuais alocações. 

“Embora ainda não exista um prazo definido para a entrada nesses mercados, o tema está sendo analisado no contexto da revisão da Política de Investimentos, que acontece pelo menos uma vez por ano”, diz Cláudio Gonçalves, diretor de Investimento da Previ.

A entidade, por ponderar tanto o potencial de contribuição para a diversificação da carteira quanto os riscos específicos associados a esse tipo de investimento, como riscos de crédito, concentração de carteira, liquidez e exposição a fatores climáticos e jurídicos, está avaliando “se a estrutura dos produtos disponíveis no mercado está alinhada com os princípios de segurança, rentabilidade e responsabilidade que norteiam sua atuação”. 

“Portanto, embora o investimento em Fiagros ou em qualquer outra modalidade recém-permitida possa fazer sentido no futuro, especialmente se houver avanços na maturidade dos produtos e na mitigação dos riscos envolvidos, neste momento, a Previ mantém uma postura de cautela, priorizando o aprofundamento técnico antes de qualquer decisão de alocação”, ressalta Gonçalves.

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Outras entidades também foram procuradas pela reportagem. A Funcef informou que acompanha com atenção as novas possibilidades abertas pela Resolução do CMN. Atualmente, a Funcef se encontra em fase de estudo e mapeamento de oportunidades.

Critérios ESG

Se para gestores de investimentos e companhias abertas a temática ESG esfriou este ano, impulsionados pelo discurso anti-ESG dos Estados Unidos, o mesmo não é verdade para fundos de pensão, que estão cada vez mais focados nessas práticas. 

A Previ, por exemplo, primeira entidade da América Latina a ser signatária dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI) da ONU, realiza investimentos com temática ASGI há mais de duas décadas, e ainda pretende ampliar a participação de ativos sustentáveis em seu portfólio. “Entre os ativos que compõem essa estratégia estão fundos de ações com mandatos sustentáveis e participações em empresas listadas no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3”, conta Gonçalves, diretor de investimentos do fundo de pensão. 

Além disso, a fundação também direciona recursos para investimentos com impacto ambiental e social positivo, como iniciativas de energia limpa lideradas pela Neoenergia e Vibra, e visa aumentar a alocação nesses produtos, pois além de “contribuírem para um futuro mais equilibrado, também oferecem maior resiliência e mitigação de riscos no longo prazo”. Fora os investimentos específicos, a EFPC ainda leva em conta esses critérios ESG na contratação de fornecedores e prestadores de serviços estratégicos.

Já a Vivest, que também possui critérios ESG previstos em sua política de investimento e já teve alocação em fundos e índices estrangeiros com foco no tema, no momento, não está investindo em produtos voltados exclusivamente para a temática. “Dado o patamar atual da taxa de juros, e a dificuldade em encontrar ativos que se mostrem resilientes nesse cenário, no curto prazo não há previsão de alocação em produtos com foco específico em ESG, mas sempre estamos considerando esses aspectos no processo de alocação”, diz Luciana. 

Segundo a executiva, no médio/longo prazo, a entidade deve realizar o movimento de alocação de forma gradual, “conforme seja possível visualizar a melhora da relação entre risco e retorno desses produtos e aumentarmos o entendimento e a confiança na perenidade desses ativos.” Ainda que essa alocação em títulos mais sustentáveis fique em segundo plano diante das atuais taxas de juros, as entidades têm adotado os critérios na escolha de parceiros e prestadores de serviços. A exemplo da Vivest, o processo de seleção de gestores terceiros está passando por uma reestruturação esse ano, e o fundo de pensão irá considerar aspectos ESG nesse processo, como a integração dos aspectos, a adoção dos compromissos tradicionais da agenda (PRI e CBS, por exemplo) e o papel atuante dos gestores nas investidas (via engajamento ou proxy voting). 

A Funcef, que no momento não possui alocações específicas em fundos ESG, também pretende realizar aportes em produtos voltados ao tema. As estratégias analisadas contemplam estudo de fundos de infraestrutura (FI-Infra), a avaliação de FIDCs e Fiagros com lastros ambientalmente responsáveis e o aprimoramento do modelo interno de avaliação ESG. Os critérios ASG também têm sido incorporados às decisões de investimento, tanto para os ativos investidos quanto no relacionamento com empresas sob cobertura, incluindo na seleção, contratação e acompanhamento de parceiros, gestores e prestadores de serviços terceirizados.

Alguns dos temas relevantes considerados no processo de contratação de terceiros pela Funcef envolvem risco reputacional, verificado por meio de ferramentas digitais e diligências reputacionais, conflitos de interesse e integridade corporativa, capacidade técnica, regularidade fiscal e conformidade com normas internas e regulatórias, e compromissos com práticas anticorrupção, direitos humanos e não utilização de mão de obra infantil.