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Inadimplência tem alta recorde e pode subir, mas apetite para alocação em crédito resiste

Érica Polo

O patamar de inadimplência no Brasil em pessoa jurídica (PJ) e física (PF) é dos mais altos em aproximadamente uma década e a expectativa de agentes econômicos é que o cenário piore antes da recuperação. Mas, no que diz respeito ao universo de fundos, não necessariamente esse retrato deve assustar investidores a ponto de afetar o interesse e, consequentemente, os rumos de fluxos de alocação para o crédito. Ao menos essa é a leitura feita por especialistas consultados pela Capital Aberto.

“Inadimplência está no radar, mas isso não tem sido o que tem guiado a decisão do investidor”, diz Lais Costa, analista da Empiricus. “Eu acho que hoje, a decisão de alocação tem um viés claro ainda para crédito, independentemente desse fator [inadimplência] ou da aceleração da economia, já que o investidor mira outros números e topa um risco maior”, continua.


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Entre eles, os ganhos da renda fixa, o dólar e ativos preponderantes sobretudo em véspera de ano eleitoral. A isenção de Imposto de Renda (IR) em ativos isentos, proposta pelo governo federal a ser votada pelo Congresso, também está pesando em decisões neste semestre. Se aprovada valerá a partir de 2026.

Há, evidentemente, os veículos mais ou menos expostos a setores impactados pela inadimplência resultante da atual fotografia econômica. “O que eu acho importante é observar aqueles setores mais cíclicos. Então, bens de consumo, varejo, ou seja, segmentos mais sensíveis à capacidade de compra e à inflação”, disse Marianne Moraes, gestora de crédito privado, FI-Infra e Fiagro da Inter Asset.

“Os FIDCs multicedentes e multisacados, que normalmente têm a sua carteira bem curta, mais direcionadas a atividades mais micro, vão ter um impacto e uma sensibilidade maior”, continua Marianne. Isso não quer dizer, contudo, que esse tipo de fundo perca a atratividade – pelo contrário, acredita a gestora da Inter Asset. Já os fundos voltados a fomentar emissores relacionados a serviços básicos ou infraestrutura, como energia elétrica, saneamento e concessão de rodovias, para citar alguns exemplos, são mais resilientes à inadimplência por integrarem o ciclo básico da economia.

Observado o tipo de veículo, o FDIC, apesar de ter uma sensibilidade maior à inadimplência, traz estruturas de proteção como a subordinação. “Quando eu olho para um fundo de crédito corporativo, em que a gente está falando de créditos high grade, há uma sensibilidade menor a essa inadimplência localizada. Há estrutura de capital, de financiamento, que foi equalizada ao longo dos últimos anos com o alongamento do perfil de dívida, com todo o trabalho que as empresas fizeram ao longo desses anos, de aproveitar o melhor desse crescimento do mercado de capitais”, continua Marianne.

Ainda segundo a executiva da asset do banco Inter, o nível de alavancagem dos grandes emissores de crédito privado teve um declínio recente e começa a se estabilizar. Isso só mudará dependendo do apetite por investimentos, fator agora não preponderante para muitas companhias. As empresas têm buscado crédito para caixa. Infraestrutura é um setor exceção, pelo perfil dos projetos.

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Lais, da Empiricus, reitera que inadimplência tem potencial para atingir toda a indústria de crédito. “Há o efeito sistêmico que acaba sendo desencadeado quando começam esses eventos”, disse. “Eu diria que o net é negativo tanto para fundos de crédito aberto, como FIDCs e outros”.

Com oportunidades pontuais em um tipo de setor ou fundo, as fontes não acreditam num aumento de volume em concessão de crédito de forma geral em médio prazo. Lais, da Empiricus, cita o aumento observado em áreas de investment banking, mas com foco no setor de infraestrutura – motivado pelas alterações de regras de IR em produtos incentivados a partir do ano que vem.

Devido ao retrato no país, inclusive, gestores de fundos têm elevado o nível de caixa preparando-se para eventos de inadimplência. O movimento tem sido observado pela Empiricus ao longo de 2025, evidenciado em pesquisas recentes feitas pela empresa, conta Lais.

“Vemos claramente um nível de caixa muito mais alto do que a média de cada um desses fundos”, disse. “Eu diria que, na verdade, está ocorrendo uma redução dos negócios. Por quê? Pelo alto nível de juros. São poucas empresas que conseguem pagar 15%”, continua a analista. Quem quis alongar e baratear dívida, já o fez.

Projeção para inadimplência

Caio Napoleão, economista da 4intelligence, projeta inadimplência de 3,5% para PJ até dezembro. A mais recente, atualizada nesta quarta (27) e informada pelo economista, apontou 3,3% - a média histórica é de 3,28%. O dado refere-se ao percentual da carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Em PF, o patamar é de 6,5% (média histórica de 5,6%) e a projeção é similar para o final de 2025.

Para 2026, os níveis projetados melhoram, alcançando 3% (PJ) e 5,5% (PF). “Para PJ ainda deve piorar antes de melhorar e PF pode ter atingido um topo, até começar a melhorar no final do primeiro trimestre do ano que vem, mais ou menos acompanhando a flexibilização do ciclo monetário”, disse Napoleão.

Camila Abdelmalack, economista da Serasa Experian, não crava um teto para PF. “Não me sinto confortável em dizer que chegou num teto para pessoa física, já que a partir daqui a tendência é da política monetária se tornar mais efetiva”, opina. A inadimplência da pessoa física gera um efeito cascata para o retrato da pessoa jurídica, acrescenta.

Leitura comum dos economistas é a de que o efeito da política monetária ainda vai alcançar as empresas do setor de serviços – que representam 70% do PIB – fator que explica, em parte, a “piora” que poderá ainda ocorrer no que diz respeito à inadimplência.

Napoleão, da 4intelligence, comenta que nem toda a alta recente é de razão conjuntural. “Teve uma mudança regulatória que começou a vigorar em janeiro, que mudou a maneira de classificar inadimplência, para fins de adequação aos padrões internacionais”, explica. “Antes, inadimplência era o atraso superior a 90 dias. Agora, se o banco não acredita que o devedor vai pagar, pode declarar inadimplente antes dos 90 dias de atraso e isso fez com que os níveis subissem bastante em janeiro”, continua.

De qualquer modo, é fato que a inadimplência, sobretudo de PF, continuou subindo após o salto de janeiro, diz o economista. “Então tem conjuntura aí também”, finaliza.