Gestores colocam eleições na mesa, mas impacto nos preços ainda demora
A proximidade com o ano eleitoral (2026), que tende a reforçar o debate sobre políticas econômicas de espectros opostos, já está na mesa de gestores e investidores, mas não a ponto de ‘fazer preço’ dos ativos. Episódios de sobe e desce da bolsa, associados a pesquisas de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, são reações pontuais, na visão de gestores de fundos de ações consultados pela Capital Aberto. Ainda que a eleição presidencial esteja distante, e não haja consenso sobre quando o processo começará a impactar nos mercados, gestores concordam sobre alguns pontos: volatilidade em 2026 somada a juro alto poderá adiar o início da recuperação da bolsa em termos de captação de recursos.
Pesquisa recente do Bank of America (BofA) com gestores de fundos da América Latina aponta que os investidores começarão a fazer alocações, de olho nas eleições, a partir do quarto trimestre de 2025. Segundo o levantamento, os gestores apontaram que seguem otimistas, com expectativa de 83% dos entrevistados, para o Ibovespa ao final deste ano, em um nível superior aos 140 mil pontos, acima dos 66% do levantamento de junho. O banco faz uma ressalva ao afirmar que a maioria respondeu a pesquisa antes do anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de tarifas de 50% ao Brasil. Já relatório do Bradesco BBI apontou que corte de juros e o ciclo eleitoral de 2026 começarão a ser precificados ao longo do segundo semestre de 2025, dando sinais de que os primeiros movimentos já devem acontecer.
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O principal ponto, na visão dos gestores ouvidos pela Capital Aberto, de o processo eleitoral estar na mesa, mas não no preço dos ativos, é a pouca clareza de quem disputará a presidência. “O tema já está sendo considerado por gestores e investidores, mas ainda é cedo para ter clareza sobre quais serão os candidatos. No momento, o principal ponto é como será conduzida a política fiscal e quais serão seus impactos”, comenta Arley Matos da Silva Junior, estrategista de investimentos do Santander, acrescentando que o consenso é que, com o nível atual de juros, os preços dos ativos estão descontados, se referindo ao mercado de ações, normalmente o que mais sofre com a volatilidade fruto do processo eleitoral.

Para o head de renda variável do ASA, Marcelo Nantes de Souza, mesmo com “as discussões já na mesa”, é precoce qualquer avaliação que impacte nos preços dos ativos. “Eu sou um cara mais tardio. Creio que antes de julho do ano da eleição (2026) será difícil ter uma opinião do que vai acontecer. É cedo para qualquer convicção, mas tem alguns gestores que já começam a fazer algum tipo de aposta”, comenta o executivo, lembrando episódios recentes de pesquisa de popularidade do presidente Lula que teriam influenciado a bolsa. “Tenho que admitir que em alguns dias parecia que o mercado, quando saía resultado das pesquisas, parecia que estava se posicionando numa determinada direção, reagindo ao resultado. Eu ainda acho que é muito pouco para repercutir no mercado.”

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A análise de Ricardo Campos, CEO da Reach Capital, vai na mesma direção, relembrando os episódios de pesquisas recentes sobre a popularidade do presidente Lula, mas acrescentando fatores externos à cena política que colaboraram. “A Bolsa teve uma boa performance até junho, enquanto a popularidade do Lula vinha caindo, depois melhorou e a bolsa caiu, mas claro há outros fatores no jogo como o desempenho da bolsa americana, super mal entre abril e junho, receio de desorganização das cadeias globais, guerra tarifária etc.”, comenta Campos.
Preocupação do mercado relacionada à continuidade do atual governo, se ocorrer, elenca alguns fatores, diz o CEO da Reach, como a idade avançada do atual mandatário, possível aumento de gastos – “como ocorreu em outros mandatos do Lula” –, e a falta de um plano “bem estruturado” para aumentar o crescimento. “Se o governo gasta muito e o juro é elevado, o empresário até aumenta preço se a demanda permitir, mas não constrói fabrica. A dúvida é sempre fluxo futuro e taxa de juros que vai trazer este fluxo a valor presente. Isto impacta na perspectiva para o mercado de ações, em específico, para o valor das empresas.”
Ricardo Campos também não vê, ainda, a perspectiva eleitoral fazendo preço, mas pondera que há “muitos tipos de gestores de ações”. Na Reach Capital, comenta o CEO, a proposta é juntar cenário micro e macro e olhar os fundamentos das companhias que ingressam no portfólios dos fundos. Sem ainda clareza sobre o cenário eleitoral, na visão de Campos, o que parece certo é a tendência de o investidor evitar o mercado de ações em 2026. “Os gestores de fundos de ações foram destruídos nos últimos anos, mesmo agora com os retornos melhores nos produtos, ainda assim com Selic a 15% o investidor não se estimula a voltar. E muitas vezes em ano de eleição, com volatilidade maior, ele evita entrar no mercado de ações.”
A perda de recursos pelos fundos de ações, citada por Campos, vem desde 2023, quando o PL do produto, segundo dados da Anbima, estava em R$ 663 bilhões (dezembro). No mesmo período do ano seguinte, o PL caiu a R$ 573 bilhões. O dado mais atual, de julho, mostra ainda perda de recursos com saída líquida de R$ 4,9 bilhões, o 14º mês consecutivo no vermelho.
Os executivos de Santander e do ASA também não parecem muito otimistas com a volta do interesse do investidor aos fundos de ações. O período eleitoral, e sua volatilidade característica, é apenas um dos elementos. “O ano de 2026 deve ser marcado por maiores gastos do governo, comum em ano de eleição, e início dos cortes na Selic, o que deveria ser positivo para ações. Mas com juro ainda em dois dígitos e a eleição, que piora o quadro, o incentivo para o investidor olhar para a renda variável é pequeno”, comenta Souza, do ASA, ponderando que se os juros fecharem mais rápido esta realidade pode mudar.
Arley Matos, do Santander, reconhece que o tema eleições provoca volatilidade, mas não deve ser o único ponto de análise de gestores e investidores. “Os gestores avaliam o contexto macro, local e internacional: quais empresas têm boas perspectivas de valorização e como as condições econômicas podem impactar as expectativas de retorno, entre outros fatores, para estruturar uma carteira. No momento, tarifas, câmbio, juros e questões fiscais têm sido os elementos mais relevantes em termos de volatilidade”, afirma.
Para o executivo, a eleição deve começar a gerar mais volatilidade cerca de um ano antes do pleito e de forma gradual – a partir de outubro. “Existem algumas estratégias de diversificação que buscam proteger o portfólio nesse momento, seja por meio da seleção de ativos, seja pela utilização de instrumentos derivativos, como opções. No geral, em momentos de incerteza, investidores e gestores preferem ter posições em empresas que chamamos de ‘boas pagadoras de dividendos’.”


