Cury, Tenda e Direcional lideram retorno em nicho popular, e ano deve seguir robusto
Os números de incorporadoras na atual temporada de balanços começam a sair do forno. Entre elas, Cury e Tenda, que focam em imóveis populares, lideram em retorno. O mercado espera números robustos nos próximos meses, incluindo o ano que vem. Até julho de 2025, a Cury liderou quando se observa foco em imóveis para baixa renda, com retorno de 76,7% na bolsa, indica a consultoria Elos Ayta em levantamento feito a pedido da Capital Aberto.
O estudo mostra, ainda, que a Direcional é a seguinte no segmento de negócios beneficiado, basicamente, pelas regras do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) e por inflação de custo de construção controlada, elevando margens das companhias. A Tenda trouxe ganho de 72,9% e, a Direcional, de 63,7% entre janeiro e julho. A expectativa de especialistas consultados, para os próximos meses, é de continuidade de números robustos, mesmo com os juros básicos em 15% ao ano.
“O Minha Casa Minha Vida tem sido o principal sustentáculo da performance dessas construtoras em 2025. Após as reformulações feitas no fim de 2023 e consolidadas em 2024, o programa passou a: ampliar o teto de valor dos imóveis por faixa, aumentar o subsídio direto ao comprador, e reduzir taxas de financiamento para faixas 1 e 2”, rememora George Sales, especialista em mercado financeiro na Fipecafi.
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Com isso, segue Sales, construtoras como Cury, Tenda e Direcional, que atuam com foco claro nas faixas de renda de até R$ 8 mil, conseguiram manter suas margens operacionais e volume de lançamentos mesmo num cenário de Selic alta. “É o principal motivo. Mas a inflação de custo está super controlada, principalmente observando o INCC [Índice Nacional de Custo da Construção]”, complementa Yuhzô Breyer, gestor do fundo Trígono Dynamic.
A junção de fatores é fundamental para as companhias, já que há efeito positivo nas margens. Também ajuda o modelo operacional. Cury, Tenda e Direcional têm conseguido comercializar rapidamente seus projetos – em meses, ou um ano – após os lançamentos. Desse modo, ficam pouco expostas à variação do custo de matéria-prima, segue Breyer.
Esse modelo de negócio casa com a realidade de alto déficit habitacional do país – que soma mais de cinco milhões de moradias, com concentração nas faixas de renda mais baixas. Ou seja, esse retrato garante demanda estrutural, a qual independe de ciclos econômicos curtos.
O desempenho dessas companhias no ano chama a atenção, concordam as fontes consultadas. O retorno é impulsionado por resultados trimestrais positivos, guidance de lançamentos otimista e melhora nos indicadores operacionais, como vendas sobre oferta, opina o especialista da Fipecafi.
Caio Araujo, analista da Empiricus, pontua, contudo, um ponto relevante ao observar os ganhos dos papeis em 2025. Ele lembra que, ao final do ano passado, boa parte das ações do setor de incorporação (se não todo o segmento), esteve “bem pressionado”. “O ambiente macro deteriorado trouxe as cotações para baixo, fazendo com que o ponto de partida dessa comparação de performance seja muito baixo”, continua.

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Ainda assim, essas companhias têm destratos ‘relativamente controlados’, um nível de alavancagem satisfatório, além do incremento dos lucros e das margens neste ano, diz Araujo.
Num horizonte de próximos meses, incluindo já 2026, os analistas enxergam continuidade do cenário favorável para o segmento. Com o início do ciclo de cortes da Selic, o apetite de fundos imobiliários e investidores institucionais deve crescer, fortalecendo o setor de modo geral.
O segmento médio (renda um pouco superior), inclusive, pode voltar a ganhar fôlego, contemplando empresas como a MRV (além da Direcional), bem posicionadas para capturar a transição do cliente MCMV para o segmento médio, à medida que a taxa de financiamento tradicional cair, acredita Sales.
Risco permanente para o segmento é qualquer decisão sobre ajuste no FGTS, cita Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital. “Ou ainda se surgir alguma lei determinando que o fundo passe a não ser destinado só ao imobiliário. Isso poderia diminuir os recursos do MCMV”, comenta.
“Mas essas companhias [as líderes do nicho de populares] se sairiam bem mesmo assim. Elas têm expertise operacional para ocupar o lugar de empresas que hoje atendem parte do mercado fora do programa”, continua Utsch.
No segundo trimestre, a Cury obteve lucro líquido de R$ 237 milhões, 11% mais que no semestre imediatamente anterior. No dia 6, após a divulgação do resultado, os papeis da companhia escalaram pouco mais de 7%. Já a Tenda, divulgou em 7 de agosto um ‘recorde histórico’, segundo a companhia, no lucro líquido trimestral, de R$ 203,9 milhões no segundo trimestre, alta de quase 140% em comparação ao trimestre imediatamente anterior.
Diversificação de produto
Tendência considerada interessante por Breyer é o investimento em novos tipos de projetos. A Cury, cita, inovou entregando apartamentos com cara de classe média, ou seja, diferentes do que a população estava acostumada quando pensava no MCMV. “Se você visitar um estande da Cury hoje, vai se deparar com apartamento com varanda, piscina, academia e uma série de opcionalidades legais”, cita.
“Então é um condomínio de fato de classe média, inserido dentro do Minha Casa Minha Vida faixa 3, que é uma das maiores faixas do programa”, continua Breyer. Já Tenda e MRV, com forte atuação na faixa 1 do programa (renda menor), também estão implementando, aos poucos, melhorias com esse perfil. Mas em menor escala, já que os projetos têm outro custo devido ao cliente em potencial.
Em termos qualitativos, segue a Trígono, há uma espécie de consenso no mercado e quem desponta é a Cury. Mas para o gestor do fundo, a Tenda é o melhor risco-retorno. “É uma empresa que negocia múltiplos muito mais baixos que a Cury, e tem muito mais para crescer”, opina. Ele cita a Alea, controlada pela Tenda, que constrói casas em condomínios num modelo similar ao dos EUA. Boa parte do processo de construção do imóvel ocorre em uma fábrica e o custo é reduzido, além de ser um método mais ágil.
Na Empiricus, as preferidas setoriais são Direcional e Cury dado o nível de qualidade das operações e histórico de “excelência” especialmente nos últimos trimestres, avalia Araujo. A ‘top’ é Direcional devido ao potencial de distribuição de dividendos em curtíssimo prazo e “ligeiro” desconto em relação à Cury.


