Tensão relacionada ao Pix pode resvalar em BDRs de Visa e Mastercard?
Elemento recente de tensão entre Brasil e EUA, o Pix (mais que isso, sua nova versão parcelada) desperta atenção para o futuro do negócio de gigantes americanas de cartão de crédito no país: Visa e Mastercard. Ambas, com BDRs negociados na bolsa brasileira, verão seu negócio efetivamente desafiado a partir de setembro, quando as operações do Pix em versão parcelada devem ter início, segundo programa o Banco Central do Brasil (BC).
A novidade aliada à pressão americana sobre esses meios de pagamento, que acaba tendo efeito não só no Brasil mas mundo afora, aumenta a atenção de gestores para os eventuais desdobramentos do cenário a esse tipo de papel – bastante procurado por investidores.
Aprenda a identificar conflitos e compreenda como eles afetam decisões, reputações e resultados no curso “Conflito de Interesses”
A operação do Pix Parcelado será similar à de cartões de crédito, pois o usuário (lojistas ou pessoas físicas) poderá dividir a compra. Isso vai resvalar na atividade, e nos papeis, das gigantes americanas? Por enquanto, a leitura de analistas de finanças consultados é a de que o impacto existirá, mas por ora é limitado.
É que se por um lado o Brasil é apenas um entre os tantos mercados de exposição das duas gigantes, por outro, o serviço entregue pelo BC pode contribuir para movimentar o segmento das bandeiras de forma estrutural mundo afora. “A funcionalidade de crédito do Pix ameaça o modelo, mesmo que o país represente uma fatia menor da receita global dessas empresas”, opina Gustavo Harada, head de alocação da Blackbird. Impacto de maior escala virá caso outros países sigam caminho similar.
A Visa incluiu em seus relatórios anuais que diferentes redes no modelo do Pix foram lançadas em anos recentes, em pelo menos 80 países. Mas ao menos por enquanto a leitura é a de que os papeis negociados na B3 não devem sofrer, exceto em momentos pontuais.
“Há uma competição. Mas esses métodos de pagamento ainda são muito restritos aos [mercados internos] países”, acrescenta Enzo Pacheco, analista de renda variável da Empiricus Research. “Nada impede que no dia que sair uma notícia a respeito do Pix [parcelado], o papel tenha uma performance muito ruim. Mas eu não acho que isso vai impactar profundamente os fundamentos das companhias”, continua.
O analista da Empiricus considera “mais preocupante” para as ações e BDRs de Visa e Master qualquer novidade sobre o sistema do Federal Reserve (Fed), o chamado FedNow (uma espécie de Pix americano). Ele lembra que há cerca de dois anos, quando a autoridade americana divulgou informações sobre o sistema, as ações dessas companhias “sofreram muito”.
Mas, como empresas desse porte não dormem em serviço, só o anúncio de lançamentos com o perfil é suficiente para tirá-las de uma espécie de comodismo. “Com certeza essas empresas vão fazer aquisições”, comenta Humberto Aillon, especialista em fusão e aquisições na Fipecafi. “[No Brasil] A aceleração do Pix tem trazido desafios para a Master e Visa. Mas [o cartão de crédito] ainda representa um percentual elevado, com penetração acima de 25% dos pagamentos”, pondera.
Muitos investidores gostam desses papeis e os têm procurado para manter posições defensivas, já que o setor está aquecido e as múltis tem fluxo de caixa consistente. Há até quem aposte na valorização dos BDRs das gigantes, entre 20% e 25% num horizonte até 15 meses.

PUBLICIDADE
Além da capacidade de movimentação, o Brasil é apenas um dos mercados dessas companhias. “Elas têm exposição global, e, portanto, receitas diversificadas”, reitera Harada, da Blackbird. A América Latina representa perto de 9% para ambas – 8,9% no caso da Visa e 8,3% para a Master, segundo a Fipecafi.
Mas há os poréns. “Há investidores com essa questão do Pix no radar”, complementa a Blackbird. “Vamos manter isso em foco porque [as mudanças estruturais do mercado e a investigação americana] pode gerar alguns ruídos, questão de alguns riscos regulatórios mais para frente”, continua.
Em curtíssimo prazo, a atual posição americana – os EUA abriram investigação no último dia 15 sobre ‘possíveis práticas desleais’ do Brasil e incluíram os ‘serviços de comércio digital e pagamento eletrônico’ à lista – pode gerar alguma percepção de risco regulatório no mercado global a esse tipo de iniciativa.
Balanço dos papeis
Na semana passada, os BDRs de Visa fecharam com alta de 0,73% (entre 14 e 18 de julho), a R$ 98,49 na sexta (18), enquanto Mastercard subiu 0,42%, encerrando a mesma semana a R$ 100,27. São dados Investing. Já observado o recorte no acumulado de 2025, contudo, segundo a Elos Ayta, os papeis recuaram. Enquanto Visa caiu 1% entre janeiro e a última sexta-feira 18 de julho, Mastercard recuou quase 5% (4,98%).
Os papeis podem sofrer mais oscilações na próxima semana, quando o mercado estará de olho na próxima divulgação de resultados: os de Visa em 29 de julho e, de Master, em 31, informam os respectivos calendários corporativos.
Ambas foram citadas como “bem consolidadas” em resultados recentes e diversificação de negócios e mercados. Harada, da Blackbird, afirma que o setor é um dos ‘top picks’ na visão da casa. Mas há uma preferência por Visa. “O yield é um pouco mais atrativo”, diz. A leitura é similar na Fipecafi.
“Acho que o mais interessante é Visa, especialmente pela capilaridade de negócios e a visão de aquisição de empresas, o que fortalece a estratégia da companhia”, disse Aillon. “Mesmo com o cenário competitivo com o Pix que, com certeza, vai impactar negativamente as receitas com crédito parcelado no cartão”, continua o especialista da Fipecafi.
A Visa somou receita líquida de US$ 9,6 bilhões no segundo trimestre deste ano. Mesmo diante da pressão do Pix, os analistas enxergam espaço para que os resultados da Visa cresçam. “Especialmente pelo share ser de menos de 10% no total de receitas”, diz Aillon, da Fipecafi.
A companhia está mapeando o mercado e deve buscar M&As de empresas com foco em Pix, como uma forma de mitigar essa perda de receitas. “A minha visão pessoal é que a BDR da Visa deve continuar crescendo, tanto que diversos analistas de mercado recomendam compra da ação e, minha expectativa, é que o BDR supere R$ 125, um ‘upside’ acima de 25% no papel”, projeta Aillon.
Para a Mastercard, com espaço para avanço, a projeção é de BDR acima de R$ 120, ‘upside’ que supera um pouco 20% no papel, continua. A receita no primeiro trimestre de 2025, o mais recente dado, somou US$ 7,3 bilhões. A valorização projetada considera um horizonte de 12 a 15 meses.
Contexto: tensão comercial
Em 15 de julho, em meio à escalada de tensão entre Brasil e EUA, o presidente americano Donald Trump incluiu os ‘serviços de comércio digital e pagamento eletrônico’ numa lista de ‘possíveis práticas desleais’ brasileiras para investigação pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês).
O documento não cita o Pix especificamente, mas é o único sistema do governo para esse fim. Vale lembrar que o episódio vem na esteira da alta de tarifas que os EUA impuseram ao Brasil, de 10% anunciados em abril para 50% no último 9 de julho, válidas a partir de 1º de agosto.
O desentendimento entre Trump e o governo brasileiro ocorreu após reunião dos Brics no Rio de Janeiro, quando os países anunciaram dar andamento a um projeto que incentivaria investimentos e comércio entre os países participantes sem o uso do dólar como moeda comum.
