Movimento anti-ESG afeta volume de emissões, mas especialistas veem nova onda em green bonds
O recente afastamento das companhias em relação à temática ESG, impulsionado pelos Estados Unidos, gerou impacto no volume de emissões de green bonds. Apesar dos desafios, o segmento mostra resiliência e especialistas apontam o surgimento de uma nova onda para esses títulos sustentáveis: a entrada de companhias menores nesse mercado, indicando um futuro promissor para o financiamento de projetos verdes.
No Brasil, tanto para emissões locais quanto internacionais, o mercado de títulos rotulados (verde, azul ou social) está em torno de R$ 100 bilhões anuais, representando 15% do total das emissões. O país, inclusive, está acima dos Estados Unidos (3%) no quesito representatividade desse mercado em relação às emissões totais de dívida, mas ainda fica abaixo da Europa, cuja representatividade é de 25%. Embora o potencial seja grande, o mercado foi impactado neste ano, segundo executivos, sem citar números.
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“Estamos sentindo claramente o reflexo das críticas ao setor, do backlash do ESG. Isso pega porque, uma empresa, mesmo as que já têm bons controles, boas práticas, pode se perguntar se vale a pena fazer uma comunicação por meio de uma emissão. É uma pergunta que escutamos, que ficou muito forte em janeiro, fevereiro. Acho que agora já está precificada”, pontua Frederic de Mariz, diretor de Sustentabilidade do UBS BB para América Latina, dizendo que isso afetou as emissões.
O questionamento da tese, no entanto, não foi um movimento necessariamente ruim, na visão do executivo do UBS BB, visto que gerou uma reflexão muito mais madura sobre custo-benefício dos green bonds. Este ano, em que há o apelo da COP 30 incentivando empresas a entrar nesse mercado, elas buscam teses reais para apresentar. “Toda essa reflexão, essas críticas, nos obrigam a ser mais sofisticados”, diz de Mariz.
Para Janine Rodrigues, gerente de Finanças Sustentáveis do Itaú BBA, não há dúvidas de que a COP 30, que será sediada no Brasil, tem colocado a agenda climática em evidência e gerado bastante engajamento por parte dos clientes da casa. “Esse movimento também é resultado de fatores mais estruturais e de longo prazo como exigência e incentivo de stakeholders por práticas mais sustentáveis, a evolução das taxonomias e frameworks locais e globais, e a crescente sofisticação dos investidores em relação ao tema de finanças sustentáveis”, opina.
Os especialistas citam uma certa maturidade também das mega conferências. Temas muito fortes na pauta são natureza, em que ainda há dificuldade em quantificar numa emissão financeira, e mudanças climáticas, tanto de risco físico (danos ou perdas devido a eventos climáticos extremos), quanto de transição (potenciais prejuízos financeiros e de reputação que podem surgir como resultado da transição para uma economia de baixo carbono).
As principais teses das emissões de green bonds ainda giram em torno de infraestrutura e energia renovável (tanto geração quanto transmissão), e papel e celulose com manejo sustentável de florestas, temas bem alinhados com as necessidades de transição da economia brasileira. O agronegócio, por ser um motor de crescimento no Brasil, também está presente com rastreabilidade e boas práticas.

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“Tivemos algumas empresas do setor de varejo, posso até mencionar a Natura, que fez uma emissão muito bem colocada no ano passado, que tinha um foco em Amazônia, e isso chamou atenção no bom sentido. Mais uma operação relacionada à redução de emissão carbono é interessante, mas não é tão diferenciada. Sentimos que esse setor evolui com muita velocidade, e o que era muito inovador há dois anos, agora já virou padrão para todo mundo”, afirma de Mariz.
Ainda que as grandes empresas continuem liderando em volume, os executivos têm visto que emissores pequenos e médios também têm buscado acesso a este mercado. “No Itaú, esta atuação já vem rendendo frutos com um aumento de quase 3x no número de emissões rotuladas de empresas de pequeno e médio faturamento de 2023 para 2024.”, diz Janine.
Há essa “nova onda” no segmento de green bonds, visto que muitas megaempresas já fizeram suas emissões com rótulo verde e comunicaram maturidade no tema ao mercado. O movimento de contração do volume em 2025, inclusive, já era esperado. “A nossa aposta, nossa esperança, é que a segunda onda seja de empresas menores. Óbvio que elas têm desafios, de processos, de coleta de dados, de rastreabilidade, demora um pouco mais. Mas tenho visto umas emissões novas, conversas muito boas, e é interessante que vemos um nível de engajamento no topo”, pontua de Mariz, do UBS BB.
Perfil do investidor e perspectivas
No exterior, investidores institucionais com mandatos ESG, como gestoras europeias, fundos de pensão e multilaterais, são os principais compradores. Muitos têm mandatos específicos que priorizam esse tipo de ativo. “No Brasil, a base ainda é formada majoritariamente por investidores institucionais, mas existe interesse de private banking e mesmo de varejo qualificado, à medida que a temática ESG ganha mais espaço no mercado e na regulação, como, por exemplo, as diretrizes da CVM e Anbima para fundos com rotulagem ESG”, conta Janine, do BBA.
Lá fora, há mais demanda por green bonds do que pelos tradicionais, ou seja, quem faz o driver é o investidor e isso se traduz num pequeno benefício de preço para emissores. Já localmente, a pauta é puxada pelos executivos e conselhos das empresas. Aqui, como há menos players e é um mercado de competição com a Selic e questões macroeconômicas, é mais complicado ver vantagem para um green bond em comparação com outros.
Mas os green bonds não recebem olhar do mercado apenas pela questão ética e sustentável. Os executivos afirmam que este é um bom negócio. Na seara de custos, a empresa precisa contratar a revisão de uma terceira parte para o seu framework, ou seja, uma documentação antes e depois da emissão (segunda opinião ou certificações), custo considerado “irrisório”.
“Ele é compensado por benefícios como acesso a investidores mais engajados, maior visibilidade no mercado e, em alguns casos, menor custo de captação através do chamado greenium (prêmio pago pelo investidor para esse tipo de papel). A remuneração desses títulos no Brasil costuma ser comparável à de títulos convencionais, mas pontualmente as emissões sustentáveis podem atrair mais demanda e favorecer a precificação”, conta a executiva do Itaú BBA.
Os especialistas destacam que o contexto macroeconômico de juros ainda elevados é menos favorável ao mercado de dívida. Entretanto, para os clientes que seguem ativos no mercado, é possível observar que existe bastante apetite para emissões sustentáveis tanto pelo alinhamento estratégico com agendas climáticas e de ESG, mas também como forma de diferenciar suas captações. O otimismo com esse mercado segue, visto que as crises climáticas e sociais continuam e o mercado de capitais é uma ferramenta muito poderosa para ajudar a achar soluções para os temas.


