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Impacto das tarifas de Trump no Ibovespa pode ser só passageiro, dizem analistas

Amanda Meneses

A imposição dos Estados Unidos de novas tarifas sobre importações, dessa vez voltada especificamente aos produtos brasileiros e com a alíquota de 50%, trouxe um novo choque ao mercado e interrompeu a trajetória de alta do Ibovespa. Até o dia 9 de julho, antes do anúncio das tarifas impostas ao Brasil, o principal índice da Bolsa brasileira acumulava alta de 14,30% no ano, segundo a Elos Ayta Consultoria. Após o comunicado, o índice passou a registrar perdas, acumuladas em 0,94% até o dia 11. Apesar da queda, a visão de especialistas é que, ainda que haja um movimento negativo no curto prazo, há margem para que o índice se recupere ao longo do ano.

“Entendo que a curto prazo a gente pode ver uma pressão ainda sobre Bolsa. Vemos algum reflexo já em dólar, em juros. No geral, desde o anúncio, vemos um reflexo do investidor tentando fugir um pouco desse risco”, comenta Felipe Paletta, estrategista da EQI Research, pontuando que há uma dúvida sobre o que pode acontecer com o fluxo estrangeiro que migrou para mercados emergentes no primeiro semestre. Paletta cita, entre algumas das companhias a serem mais afetadas a princípio, Embraer e Suzano, além do frigorífico Minerva, devido ao envio relevante para os EUA.

Embora Donald Trump seja considerado instável e em outras ocasiões já tenha recuado de medidas tarifárias, diferentemente do que houve em abril, desta vez, a ameaça foi dirigida diretamente ao Brasil, o que gerou a reação mais negativa dos investidores. “Isso, teoricamente, foi uma surpresa para o mercado. Na época das primeiras medidas de tarifas, muitos falaram que o Brasil poderia se beneficiar desse movimento, e agora temos o país no cerne de toda a tempestade”, lembra Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos, ponderando que o mercado sempre passa por uma curva de aprendizado, como houve após a primeira rodada do tarifaço.


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No entanto, a economia brasileira é muito fechada, na visão de especialistas, e há uma dúvida sobre o quanto representa os efeitos das tarifas em relação à economia brasileira e as empresas. “Pelo que percebi, tudo tem suas limitações. É marginalmente negativo, e nada impede que as empresas, com essa visão de longo prazo, possam se readequar. Partindo desse ponto, tem um impacto limitado”, opina Villegass. Inclusive, é possível que ainda haja uma negociação entre os países, outro fator a ser levado em conta nas previsões e que abre espaço para um evento de recuperação do Ibovespa.

O índice vinha de uma trajetória positiva no ano, puxado especialmente pelo investimento estrangeiro, visto a redução de exposição a ações norte-americanas e a busca por alternativas em Bolsas mais baratas, como a brasileira. As bolsas americanas, no entanto, já voltaram a máximas históricas e, haja vista a chegada da temporada de balanços corporativos por lá, o capital voltou a migrar para os EUA. “Não que ele tenha saído completamente, óbvio, mas essa parcela que saiu, na minha opinião, tem voltado para lá. A guerra tarifária pode ter sido, entre aspas, a desculpa”, opina o estrategista da Genial.

Ainda que esse investidor analise a economia dos países e questões como o controle das contas públicas, o que faz a pauta é o preço. Mesmo diante das questões fiscais no Brasil, o patamar atrativo do Ibovespa favoreceu o movimento. Ademais, houve uma percepção de que pautas que desagradassem o mercado não seriam aprovadas com tanta facilidade, o que acalmou os ânimos dos investidores.

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“Acredito que houve uma percepção de redução desse risco de o governo conseguir passar pautas adiante muito rápido, que teriam impactos materiais na forma como as empresas se financiam e na forma como, hoje, o mercado brasileiro, que já vinha caminhando no sentido de se sofisticar, de depender menos do capital, do investimento governamental, poderia retroceder”, diz o executivo da EQI, citando episódios como a possível tributação dos fundos imobiliários (FIIs).

Recuperação à vista?

Na visão da Hike Capital, o Ibovespa deve seguir em uma trajetória positiva, e “ainda é o começo do rali da Bolsa Brasil”. Segundo Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, algumas ações ainda apresentarão um comportamento negativo, especialmente as ações de empresas de commodities, com exceção da proteína animal, e as ações de empresas em reestruturação, especialmente as companhias aéreas e varejistas de eletrodomésticos. 

No segmento de commodities, mesmo com as tarifas, Belitardo cita que a proteína animal tem apresentado demanda bastante resiliente, com pouca elasticidade frente a mudanças no preço e por isso a casa segue bastante otimista em relação ao preço e demanda pela commodity.

“Há empresas relevantes na Bolsa que estão com resultados sólidos, como as empresas de construção civil, educação, transportes, bancos e energia. Isso ainda deve impulsionar o Ibovespa de forma positiva”, diz. Para a Hike, existe um espaço de recuperação. A casa, inclusive, projeta o índice em 150 mil pontos ao final de 2025.

Apesar das preocupações a curto prazo, e dos especialistas verem a possibilidade de uma pressão ao longo desses primeiros dias após o choque tarifário, a visão é que há espaço para patamares positivos. 

“Ainda temos uma expectativa muito boa em relação à Bolsa brasileira. Continuamos acreditando que ela está barata. Nossas projeções, antes do anúncio das tarifas, para o ano que vem, é de Ibovespa a 170 mil pontos. Mantemos essa expectativa para 2026. No entanto, claro, vamos precisar absorver com calma o que vai acontecer”, opina Paletta, da EQI.

A visão também é positiva na Genial, no entanto, a concretização do cenário depende de fatores externos. No primeiro semestre, boa parte do desempenho positivo do índice foi explicada pela precificação da expectativa de queda de juros nos EUA e de desaceleração da economia americana, o que segue como fator importante para o Ibovespa.

“O que faz o estrangeiro se decidir em relação ao Brasil é matemática, não é ideologia, direita e esquerda. Se está gastando mais, isso pressiona juros. Se pressiona juros, é mais negativo para ações. Mas como ele viu o cenário e que estava sobrando dinheiro, já tinha uma Bolsa barata, expectativa de juros lá fora, isso contribuiu bastante”, pontua Villegas, dizendo que agora há uma pausa desse movimento, na verdade, o contrário tem ocorrido. 

Para ele, esse é um momento de pausa para o mercado analisar a temporada de balanços lá fora e os possíveis próximos passos do Federal Reserve. No âmbito fiscal, o investidor já entende que não haverá mudanças, ao menos no curto prazo, e há especulação sobre alternância de governo, mas não é um fator decisivo nas alocações. 

“O que ajuda o Brasil é, quanto mais rápido tiver esse espaço de queda de juros nos Estados Unidos, melhor para a gente. O que realmente muda é isso. Se vai ter realmente um enfraquecimento da economia americana, permitindo um dólar mais baixo e uma taxa de juros mais baixa. Se isso continuar, vejo espaço para a recuperação do mercado brasileiro”, aponta o estrategista da Genial.