Gestores multimercados veem oportunidade em meio ao caos

Após anos de sofrimento devido ao ambiente macroeconômico, os fundos multimercados agora passam por uma fase de melhoria de desempenho, ainda que o AuM (ativos sob gestão) da categoria se mantenha reduzido diante dos resgates em massa. Gestores falaram, nesta sexta (25), sobre a resiliência do segmento durante painel da Expert XP, realizada na capital paulista. Muitos dizem ver oportunidades diante do redirecionamento de fluxos de capital para outros mercados além dos EUA devido à questão tarifária e dólar com menos força.
Fabiano Rios, sócio-fundador e CIO da Absolute, lembra que 2025 começou com uma leitura diferente do cenário: haveria uma desvalorização do dólar e seria um bom momento para estar “na ponta contrária”. “Essa intenção de desvalorização do dólar existe. Eles [governo] acham que é importante para essa reindustrialização dos EUA, mas do lado fiscal, e não é só o Brasil que tem esse desafio, me parece que jogaram a toalha”, diz, comentando que embora o excepcionalismo não deixe de existir, o capital vai ser redistribuído, o que já vem acontecendo.
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Rios vê os EUA crescendo de maneira mais equilibrada em relação ao resto do mundo e um real mais próximo dos R$ 5 do que dos R$ 6 ou R$ 7 previstos anteriormente, o que, em consequência, traz mais capital estrangeiro para o país. “Isso, para quem é rápido para entender aonde vai esse dinheiro e a que velocidade, é um momento de oportunidade”, opina.
Com essa dinâmica de redirecionamento global, André Raduan, sócio e gestor da Genoa Capital, aponta a China como um dos países que o mercado não está olhando “com tanto carinho”, mas que tem feito a lição de casa sobre o fiscal e fechou um acordo razoável com os EUA.

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“Com a questão das tarifas, os EUA sofrem um impacto inflacionário e o resto do mundo desinflacionário. Estamos olhando posições aplicadas em juros em algumas geografias, UK, México, mesmo em Europa agora, para pegar esse rebalanceamento global, que era todo para os EUA, e agora, tanto na parte macroeconômica como na de mercado de capitais, está se redistribuindo”, diz.
Para os executivos, há, inclusive, uma janela de oportunidade nessa redistribuição, tanto local quanto externamente. Walter Maciel, da AZ Quest, conta que o Brasil se aproveitou de uma “insignificância”, visto a calmaria temporária que sofreu nos últimos meses, e se tornou destino de alocação em meio à redistribuição global de capital.
“É aquele rato que começa a rugir e de repente o leão fala que está incomodando. O que podemos fazer agora é torcer para que, pelo menos num curto prazo, a gente faça movimentos diplomáticos e tente reduzir a pressão”, diz, se referindo ao episódio das tarifas entre Brasil e EUA após as falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião dos BRICs.
Ainda para Maciel, o risco fiscal segue como o principal problema do país, mas o executivo vê uma “luz no fim do túnel”, considerando a taxa de rejeição do atual governo e a possibilidade de alternância do poder. “O investidor andou muito desacreditado no segmento, mas multimercados têm a capacidade de comprar qualquer ativo. Acho que o produto vai se beneficiar muito mais do que qualquer outra categoria de juros reais mais baixos”, opina, dizendo que o risco fiscal é um dos tópicos que influencia os juros altos.
Hoje, grande parte dos países se encontra próxima do juro neutro, ao passo que o Brasil ainda está distante do indicador. Para o executivo da Absolute, se o mercado enxergar alguma mudança no fiscal, haverá um espaço para fechamento da curva de juros, o que levaria outros ativos, mas principalmente a bolsa, a subir.
“No primeiro momento, o câmbio, no meio dessa onda global, é o melhor risco-retorno. Mas, em algum momento, e acho que não está longe, os juros têm potencial grande para fechar, a curva já precifica alguma coisa”, opina Rios.
Durante o painel, foi citado o desempenho dos multimercados, cuja rentabilidade melhorou no primeiro semestre do ano, após anos de difíceis para a categoria. A discussão agora é como voltar a passar confiança ao mercado. “Cabe aos gestores provarem que conseguem, em qualquer tipo de cenário, entregar resultado. Mas não tenha dúvida que se tivermos um cenário de juros reais mais baixos, fica muito mais fácil pegar esse movimento”, diz o sócio da AZ Quest.
O que ficou de aprendizado nos últimos dois anos de desafios para a indústria de multimercados, disse Rios, da Absolute, foi seguir e acreditar na própria tese. “Tivemos governos e decisões muito equivocados nos últimos 20 anos, mas estamos aqui”. Os executivos ainda veem um semestre difícil, dada a instabilidade econômica e as políticas dos EUA, mas enxergam eventos, como a eleição presidencial no Brasil, podendo afetar positivamente o cenário mais à frente.


