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Gerdau, JBS e Marfrig: papeis que driblam, parcialmente, o tarifaço de Trump

Érica Polo

Enquanto segue o imbróglio tarifário entre Brasil e EUA – ainda sem alterações até a manhã desta sexta-feira (25) –, ganham atenção as projeções sobre eventuais impactos da tarifa de 50% para companhias brasileiras exportadoras. Isso inclui os eventuais atores capazes de driblar, mesmo que parcialmente, a perda de competitividade pelo fato de estarem instalados por lá. Gerdau, JBS e Marfrig, por exemplo, são citadas em relatório recente da Moody’s Local, como companhias que detêm unidades em solo americano e poderiam se beneficiar diante do cenário – por essa razão, há gestores de olho no desempenho dos papeis. O documento da agência de rating faz uma leitura panorâmica dos efeitos, para o Brasil, da incidência do novo patamar tarifário, com início a partir de 1º de agosto.  

Embora os EUA sejam um parceiro comercial importante, com fatia de 12% das exportações brasileiras, o impacto direto seria limitado para a maioria das empresas com rating que operam no Brasil, conclui o trabalho, que discorre ainda sobre Suzano, Votorantim, PRIO, além de outras companhias. “A Gerdau se beneficiaria mais diretamente da tarifa mais alta devido à sua considerável produção nos EUA”, conforme a Moody’s, que cita cenário similar à JBS e Marfrig Global Foods.


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Desde o dia do anúncio (10 de julho), ao menos em termos relativos, diz Felipe Paletta, estrategista da EQI Research, as ações das três gigantes já citadas ajudaram ao menos a proteger parcialmente o portfólio do investidor. Enquanto o Ibovespa recuou 2,51% entre 9 e 22 de julho, Gerdau (GGBR4) subiu 0,71%; Marfrig, 1,95%; e JBS, 2,47% na B3, segundo a Elos Ayta.

Vale lembrar que JBS é listada em Nova York desde junho último, e os papeis negociados na B3 são BDRs. Em outro recorte, considerada a primeira semana após o anúncio (10 a 18 de julho), os papeis da JBS na bolsa brasileira ainda mantinham alta de 2,49%, indica a Quantum.

“BDRs de JBS levam em conta a variação da moeda. Metade da exposição é dólar, então isso reflete o movimento do câmbio, uma variável que pode ter bastante importância agora”, continua Paletta. O estrategista da EQI reitera que JBS, Gerdau e Marfrig são empresas que fogem “parcialmente dessa tarifação”.

“Mais de 50% do Ebitda, da geração de caixa operacional, da JBS, hoje, só para ter uma dimensão, é proveniente da operação nos EUA. Para Gerdau, é algo perto de 45% ou 50%”. São negócios que podem eventualmente se beneficiar do cenário, já que parte do fluxo de caixa poderá vir de clientes americanos antes atendidos por concorrentes tarifados.

Mas o analista afirma, contudo, que será preciso considerar um “contrabalançamento” das atividades dessas empresas no cenário em que o patamar de tarifas se mantenha. Ou seja, apesar da presença no mercado americano, essas companhias vão enfrentar um mercado interno brasileiro mais inflado, já que parte da mercadoria que as concorrentes destinariam para os EUA pode ficar por aqui e acabar afetando as margens na operação do Brasil.

Em carnes, os EUA responderam por média de 6% das exportações do Brasil entre 2022 e 2024 – enquanto a China respondeu por 67%. Segundo o trabalho da Moody’s, da lista das grandes brasileiras, a Minerva seria a mais exposta à alta de patamar tarifário.

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No caso da Gerdau, especificamente, a operação doméstica (Brasil) já está muito pressionada pela forte entrada de produto importado, disse Luiz Fernando Araujo, CEO da Finacap Investimentos. “O fechamento tácito do mercado americano pode implicar no redirecionamento de mais volume para o Brasil. Se esse processo se consolidar, certamente a empresa deverá redirecionar seus investimentos para mercados mais rentáveis, reduzindo a participação relativa do Brasil na receita total do grupo”, continua Araujo.

Uma das possibilidades para a Gerdau capturar melhor precificação em suas ações, dada essa exposição ao mercado americano, seria listar a unidade de negócio naquele país. “As siderúrgicas locais negociam a múltiplos muito superiores aos observados para a companhia atualmente”, diz a Finacap.

Segundo analistas, a Gerdau tem se posicionado bem para se beneficiar de preços estruturalmente mais altos do aço nos EUA em meio ao aumento das tarifas de importação no país. Além disso, há sinais de uma demanda mais forte da China, que também deve demandar mais da produção mundial.

Luiz Fernando Araujo, CEO da Finacap
Luiz Fernando Araujo, CEO da Finacap

Baixo a alto impacto

A empresa mais exposta é a Embraer, como já citado desde o anúncio feito por Trump, pois obtém mais da metade da receita no mercado americano. O trabalho da Moody’s Local faz um retrato da participação dos EUA na receita com exportações, e classifica as companhias como de baixo a alto impacto diante do cenário de tarifas de 50%.

JBS e Gerdau estão em um grupo classificado pela Moody’s como de ‘impacto moderado’, junto com Votorantim, Suzano e PRIO, para o qual a participação dos EUA na receita com exportações fica entre 10% e 29%. Já as empresas com baixo impacto, segundo a agência de rating, somam 15 (participação dos EUA na receita de exportações é menor que 10%). Entre elas, Marfrig e Adecoagro.

Siderúrgicas concorrentes da Gerdau, a CSN e a Usiminas entraram na lista de baixo impacto, já que são empresas sujeitas a uma tarifa de 50% imposta pelos EUA sobre as importações de aço desde 4 de junho. “Por isso, a nova tarifa de 50% sobre o Brasil não teria mais impacto adicional”, explica o texto.

Outros exportadores brasileiros além dos de aeronaves e aço, os de frutas são particularmente vulneráveis às tarifas, acrescenta a agência. Os bancos também acabarão vendo reflexos do tarifaço por conta dos volumes de financiamentos à exportação.  

Ainda na lista de ‘impacto moderado’, a Suzano (maior produtora global de celulose de fibra curta), corre riscos porque os EUA respondem por cerca de 17% da receita. Mas, a China continua sendo o principal mercado para a companhia, e há espaço para redirecionamento de volume embarcado para o mercado americano, avalia o trabalho da agência de rating.

“A celulose de fibra curta da Suzano preenche um nicho no mercado dos EUA que não é facilmente substituído pelo fornecimento doméstico ou canadense, amenizando os impactos tarifários de curto prazo”, concluem os analistas da Moody’s. Ainda no segmento, o trabalho cita que a Klabin gera menos de 10% de sua receita com exportações de celulose para os EUA.

Ainda segundo a agência, não está claro se a proposta de tarifa de 50% dos EUA se aplicaria ao setor de petróleo e gás do Brasil, que exporta cerca de 15% de seus produtos para o país. A Petrobras teria exposição direta limitada, mesmo diante desse patamar de tarifa, já que gera relativamente pouco de sua receita diretamente das vendas nos EUA hoje.

A PRIO gera cerca de 13% de suas vendas no mercado americano, mas sob essa nova condição, provavelmente redirecionaria parte de seu volume para outros mercados. Em etanol, o Brasil pode absorver qualquer excesso de oferta e o impacto, portanto, não seria significativo, diz a Moody’s. A holding Cosan, da Raízen, também tem pouca exposição. A Cosan obtém 6% de sua receita total da produção e distribuição de seus lubrificantes Moove nos EUA.