FIDCs avançam 18% em doze meses, e mercado aguarda efeito de MP
Terceiro lugar em ritmo de captação em maio, depois dos FIPs e dos fundos de índices (ETF), os Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs) não devem perder o brilho, mesmo com as novas regras de tributação desenhadas pelo governo federal, na visão de especialistas desse universo ouvidos pela Capital Aberto. Em maio, esses fundos somaram R$ 630 bilhões em patrimônio líquido (PL), um avanço de 18% em doze meses, de acordo com dados mais recentes da Anbima. O montante é suficiente para manter a dianteira em relação aos fundos de ações – virada que ocorreu nos primeiros meses de 2025.
Apesar da preocupação de gestores, evidenciada no início desta semana com a divulgação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre IOF, o risco de perda de ritmo para estes fundos é "zero", na avaliação de Bruno Amadei, sócio da Cultinvest Asset Management. O gestor, com longa trajetória no mercado financeiro e passagens em BMG e Citi, participou nesta quarta-feira (11) de um evento promovido pela Liberum Ratings, focada em FIDCs, na capital paulista.
Nesta amanhã, após a publicação da MP sobre a tributação dos títulos isentos e outras aplicações financeiras, como os próprios fundos, e a incidência de IOF sobre alguns produtos, o mercado passou a mensurar os primeiros impactos para a indústria. Embora seja um imposto que afeta todo o mercado de crédito, os FIDCs ainda mantêm uma vantagem, devido à alíquota menor de IOF. “Proporcionalmente, FIDC foi um dos menos afetados. Tiveram outros até piores, então, comparativamente, este instrumento mantém uma vantagem”, opina João Peixoto Neto, CEO da Ouro Preto.
O executivo aponta que o mercado será prejudicado, principalmente porque a medida é paliativa e não vai resolver o problema de caixa do governo. Ele lembra, ainda, que o aumento da carga tributária elevará os custos do crédito para o tomador. “Mas, sendo bem objetivo, não acho que isso vai afetar a expansão dos FIDCs. Pelo contrário, talvez até traga mais investidores”, concluiu.
O texto foi atualizado às 11h, após publicação da MP na noite de ontem.
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“O IOF é a espinha dorsal tributária do FIDC”, disse Amadei. Esse tipo de fundo sempre foi isento do imposto e agora incidirá a menor alíquota, de 0,38%, sobre o valor de aquisição primária de cotas, segundo a edição extra do Diário Oficial. Ademais, a MP do governo sugere que o investidor passe a pagar 17,5% de Imposto de Renda (IR) sobre aplicações financeiras, o que inclui investidores desses fundos. Mas como ele hoje desembolsa 15% de IR, na visão de Amadei e do sócio da Liberum Ratings, Décio Bapttista, a alta de 2,5 pontos não é suficiente para afetar o apetite do investidor por esse tipo de fundo. “Bom não é. Mas não tira o brilho dos FIDCs”, concordou Bapttista.

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A MP proposta pelo governo no último domingo (e publicada ontem oficialmente), vale lembrar, deu passos atrás em relação ao projeto que mudou a cobrança do IOF divulgado há duas semanas. Uma parte reduz a cobrança de IOF que havia sido proposta sobre as operações de risco sacado nos bancos. Mas se a proposta original poderia turbinar os FIDCs que lidam com antecipação de recebíveis, porque esse tipo de fundo não tem incidência de IOF, a atual – com aumento de cobrança de IR do investidor – tampouco os prejudica, disseram as fontes.
A antecipação de recebíveis é apenas um dos tipos de crédito que é adquirido pelos FIDCs, complementa Eduardo Solamone, diretor de RI da Sol Agora, pertencente à gestora canadense Brookfield. “Estamos diante de uma mudança estrutural no mercado de capitais brasileiro”, comenta. Passa a ser fonte importante de financiamento da economia, continua.
Em anos recentes, os FIDCs avançaram rápido em meio a um processo de desbancarização que ganha espaço. No início deste ano, com a alta do PL, esses fundos ultrapassaram os de ações, que somaram R$ 606 bilhões em maio deste ano, um recuo de 8% em 12 meses, segundo dados da Anbima.
Solamone, da Sol Agora, acredita que a maior parte dos recursos resgatados de fundos de Multimercados e Ações neste ano destinaram-se aos FIDCs. Segundo ele, houve uma combinação de fatores. A primeira diz respeito à própria classe de multimercados e ações que, em sua maioria, sofreu com performances ruins nos últimos anos. “Gerou pressão de resgates e diminuição de exposição”, explica.
Em segundo lugar, os recursos migraram para os FIDCs pelo perfil desses fundos, imunes à tributação de come-cotas e com maior estabilidade de retornos e menor volatilidade em um cenário de altas taxas de juros, opina o executivo. Fundos de renda fixa e previdência absorveram parte da migração de recursos nos últimos doze meses, continua Solamone.
Riscos: lupa na cota júnior
Dados da Liberum Ratings, com base em um universo de FIDCs que soma PL de R$ 13 bilhões, mostram que a rentabilidade média de cotas seniores foi de 37,11% entre os meses de março de 2023 e de 2025, superior à do CDI (26,35%) e do Ibovespa (32,57%) no mesmo período. Se observadas cotas subordinadas, com maior risco, a rentabilidade foi de 64% em dois anos – o dobro da bolsa e duas vezes e meia a do CDI.
O produto da moda, embora com três níveis de cotas (sênior e subordinadas júnior e mezanino) contudo, tem risco. Bapttista, da Liberum Ratings, diz que a estrutura do fundo precisa ser observada com lupa antes mesmo do tipo de ativo que ele abriga.
“Se as premissas forem erradas, acabou. Foi o que nós vimos na crise do subprime no mercado americano. Se uma daquelas premissas falhasse, o modelo despencava. E foi exatamente o que ocorreu”, comenta. Após o paralelo, ele deu um exemplo mais assertivo. “Não é porque [o FIDC] é [de] um precatório, que é ruim. Depende da estrutura”, disse. “Já vi fundo de precatório pagando como reloginho”, continua.
Outro ponto citado antes de escolher o FIDC para a alocação é observar o desempenho da júnior. Ela é a mais arriscada porque banca as perdas antes de todo mundo, e precisa estar “extrapolando o ganho”. Isso mostra que a estrutura é saudável, continua Bapttista.
Amadei, da Cultinvest, diz que parte da pesquisa deve ser feita junto a quem estruturou ou distribuiu. “Fundamental observar se aquele indivíduo, que estruturou ou está distribuindo, sabe te dizer exatamente quais são os fatores de risco e qual é o risco que ele projetou nas simulações. Isso ele deve ter feito em cima de alguns cenários de estresse, observados movimentos de taxa de juros, câmbio, inflação”, cita. “Precisa precificar esse risco”.


