Minoritários da JBS esperam ganho próximo a 30% até o final de 2026
A aprovação recente dos minoritários da JBS para a listagem na bolsa de Nova York (NYSE) catapultou um processo que ganha celeridade a partir desta semana. Na sexta-feira (6), encerra-se a negociação das ações da companhia na bolsa brasileira e a comercialização de BDRs terá início na segunda seguinte, 9 de junho. Já a estreia na NYSE é projetada para 12 de junho. Mesmo com os alertas que circulam no mercado sobre a nova estrutura de capital da companhia, a qual desagradou minoritários por entregar ‘superpoderes’ aos controladores, quem manteve posições na gigante prioriza o ganho econômico: entre os consultados, espera-se valorização próxima aos 30% até o final do próximo ano.
Como não houve fechamento de capital, mas migração de base acionária – a qual, nos termos do regulamento do Novo Mercado da B3, é aprovada pela maioria do float presente na Assembleia Geral Extraordinária, o que ocorreu – não há Oferta Pública de Aquisição (OPA) no calendário, esclareceu fonte próxima à companhia.
Antecipe conflitos e proteja seus acordos em fusões e aquisições
Alguns gestores dizem esperar ganho de "no máximo 30%" até dezembro de 2026, outros acreditam em "mínimo de 30%" em prazo similar, mas a referência relacionada à expectativa de ganho parece posta na mesa. Se a governança está em xeque, parte da confiança de investidores decorre do próprio sinal verde dado pela Securities and Exchange Commission (SEC), dos EUA, conhecida por sua rigidez regulatória.
O restante da expectativa está na conta dos planos que vêm sendo divulgados pelos executivos em conversas no mercado brasileiro. A JBS vai buscar os múltiplos da principal concorrente, a americana Tyson Foods. Se a companhia originada no Brasil está entre 5,5 e 6 vezes o Ebitda, a Tyson tem 8,5 vezes, citam gestores.
Em 2025, a notícia sobre a listagem nos EUA contribuiu para a valorização da companhia em quase 20% na bolsa brasileira, segundo a Elos Ayta. Nesta segunda (02), o valor de mercado da JBS se aproximou dos R$ 90 bilhões (R$ 89,1 bilhões).
Listar no mercado americano, por si só, integra a companhia aos índices (como o S&P) e pode elevar o múltiplo da companhia a 7 vezes o Ebitda, calcula a Western. É um processo, pois cada índice tem um prazo de integração. Esse é um dos objetivos de quem lista nos EUA já na largada porque traz liquidez, o que ajuda em reprecificação de múltiplo, comenta Bruno Damiani, analista de varejo da Western.
Gustavo Akamine, sócio da Constância Investimentos, rememora que, só de entrar nos índices, a empresa recebe fluxo passivo de ETFs e fundos globais que investem nessas cestas de ativos, ou seja, na carteira recomendada pelo índice. “É uma vitrine diferente. Ela entra na cobertura de bancos e começa a ser recomendada para outros bolsos”, continua.
Embora reduza a distância entre JBS e Tyson, só a listagem não as equipara. Para avançar mais, a empresa de origem brasileira tem na mesa uma estratégia de ampliar seus negócios em processados (itens com maior valor agregado), disseram os analistas.
A estrutura apresentada pela companhia aos minoritários “não é a ideal”, segundo a Western – que está entre os que votaram favoravelmente à listagem nos EUA durante assembleia, dado o potencial econômico para o negócio no horizonte. Na Western (e não só lá), posições em JBS vão diminuir por uma questão de regulamentação de mercado, já que os institucionais, por exemplo, não podem alocar em BDRs.

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“Vamos nos desfazer de posições porque alguns fundos de pensão não permitem ter BDR”, exemplifica Damiani. “Mas nos mandatos que pudermos mantê-los, ficaremos expostos à companhia”.
Como fica o controle
Eduardo Silva, presidente do Instituto Empresa, vê a estrutura desenhada com preocupação do ponto de vista dos minoritários. Embora a listagem de uma empresa brasileira na NYSE deva ser “saudada”, continua ele, a estrutura adotada pela JBS levanta “sérias preocupações” quanto ao equilíbrio de poderes dentro da companhia. Há dois tipos de ações, lembra.
“As de classe A, aberta a qualquer investidor, e as de classe B, dos controladores. As primeiras dão o poder político de um voto; as últimas de 10 votos”, disse Silva. “Ou seja: os Batistas [Joesley e Wesley Batista, controladores] passaram a ter superpoderes, não sendo apenas mais acionistas em posição de destaque. Tanto assim que, já tendo uma concentração enorme de capital para padrões americanos (48%), terão 85% dos votos”, diz Silva. “Quem tem 85% dos votos não precisa pedir nada para ninguém”.
Sendo assim, continua Silva, não haverá qualquer decisão que precisará ser construída em consenso com os demais acionistas. Foi essa estruturação que levou as empresas de proxy advisory, Glass Lewis e ISS, recomendarem a rejeição da listagem dupla nestes termos.
O fato relevante divulgado pela JBS informa que poderá haver migração de ações de classe A (listadas a partir de agora na NYSE) para as de classe B.
“A JBS teve problemas no passado [de governança]. Mas a aprovação que a empresa obteve junto à SEC é uma conquista. O órgão americano é muito duro em questões de corrupção, fraude ou qualquer conduta errada”, opina Duda Rocha, sócio fundador da Occam, gestora com uma pequena posição na companhia.
Rocha lembra que algumas empresas brasileiras que negociam papéis fora (neste caso, ADRs) já tiveram problemas relacionados à governança e foram multadas pela SEC, mas não pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Estratégia usual
A polêmica em torno da força de voto dos controladores não é um precedente da JBS. Outras companhias globais (a exemplo da Coca-Cola e da Meta) optam pelo modelo. “Não é algo novo”, lembra Rocha, da Occam. São empresas que tendem a ter um prêmio por sua atuação global, acrescenta.
Fazendo paralelo com o futebol, ele diz que é como mudar de liga: é um jogador que deixou de disputar o Campeonato Brasileiro para jogar na Premier ou Champions League. Com um nível global, essas empresas remuneram salários maiores, sua valorização é maior, a visualização também. Elas caminham em um ambiente de investidores com outros tamanhos de bolsos – e as regras diferem. O novo ambiente inclui a estrutura de estratégia de controle.
Como cultura importa, e dá o tom sobre como cada companhia opera, é a partir da listagem nos EUA que o modus operandi da JBS será testado, reforçam agentes.
Akamine, da Constância, diz ainda que é preciso levar em conta o histórico da empresa em relação ao trato com o investidor. Até a atual polêmica sobre a estrutura na dupla listagem, envolvendo o ‘supercontrole’, a companhia não foi hostil perante os minoritários. “A partir de agora é ver como ela vai desempenhar por lá, se vai continuar cumprindo com o plano e o prometido”, diz.
Aquisição por aumento de capital ou alavancagem?
Gestores afirmam que a companhia tem um balanço saudável e gera “bastante caixa”. Os executivos da empresa têm indicado em conversas com o mercado que a estratégia é ampliar a presença no segmento de processados, o que pode ocorrer por meio de aquisições ou fusões via endividamento, ou aumento de capital.
Caso a empresa opte por aumento de capital, a estrutura proposta diluiria os minoritários, mas não os controladores na visão de alguns deles. “Geraria desalinhamento”, segue Damiani, da Western. “Essa é a razão de não considerarmos a estrutura ideal para os minoritários”.
