Em cenário volátil, gestão de riscos ao acionista desponta entre companhias abertas

A volatilidade do cenário econômico levou o gerenciamento de riscos aos acionistas ao topo do ranking de atenção em um universo de 278 companhias abertas. O fator é apontado como prioridade por 98% dessas empresas, conforme um estudo da KPMG que acaba de sair do forno. Empatados, os próximos da lista são os riscos regulatórios e os financeiros/e de caixa, citados por 97% delas.
Fernanda Allegretti, sócia diretora de mercados da KPMG no Brasil, lembra que os riscos aos acionistas têm aparecido entre os principais do estudo em anos recentes. Na edição 2025, se destacaram por pouco (apenas 1 ponto percentual), mas, em dez anos, é a primeira vez que o tema ocupa o topo da lista, segundo mostra o material da consultoria.
De acordo com o estudo, os dados podem refletir a preocupação dos boards em relação à volatilidade do mercado brasileiro, à redução de investimentos, ao equilíbrio de seus caixas e às pressões regulatórias nacionais e internacionais.
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“Está muito conectado ao cenário econômico, que pode impactar os resultados esperados por esses acionistas”, diz a executiva. “Entendemos que a divulgação dos riscos aos acionistas como principal também está relacionada à necessidade de proteger a empresa diante de possíveis questionamentos dos acionistas e do mercado”, continua.
Diante de anúncios surpresa para quem navega na economia brasileira – a exemplo da alta recente do IOF –, a destreza de comunicação com o meio é um viés que ganha ainda mais força. Para André Vasconcellos, diretor de Relações com Investidores (RI) da Fictor Alimentos, o dado evidenciado pelo estudo, mais do que estatístico, “é simbólico”. “Representa uma mudança de mentalidade”, opina. Ele ocupa, ainda, uma diretoria técnica no Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI).
O RI, por exemplo, não é só a voz da companhia para o mercado, mas uma espécie de radar do investidor dentro da empresa. “Superamos o tempo em que o investidor era tratado como observador externo. Hoje ele é reconhecido como parte essencial da estratégia de longo prazo”, avalia, ainda Vasconcellos.
Essa é uma relação essencial. Quando a companhia trata o investidor como um especulador, acaba recebendo o mesmo tratamento. Já se é considerado como um sócio de longo prazo, a relação amadurece. “Se o investidor entende, ele confia. Se confia, ele permanece. E se permanece, contribui para a sustentação do valor”, continua. Risco zero não existe, mas a percepção de controle sim, e é ela que “segura o múltiplo”.

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A 10ª edição do Estudo sobre Gerenciamento de Riscos 2025, elaborada pelo ACI Institute, da KPMG, analisou os reportes feitos aos formulários de referência que são entregues à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), esclarece Fernanda Allegretti. Condições políticas, econômicas e de mercado (95%) e o risco de inadimplência (85%) aparecem em seguida aos já citados.
Ao longo de dez anos em que foram publicados os levantamentos, a consultoria observou um “crescimento significativo” na adoção, pelas empresas, de uma área de gerenciamento de riscos. Atualmente, 82% delas informam possuir uma área dedicada ao tema. Em 2021 essa fatia era de 73% – em 2014, de 42%.
O crescimento pode ser atribuído à crescente regulação, especialmente para o segmento Novo Mercado da B3, diz a consultoria. Além disso, o aumento de rigor do arcabouço regulatório e suas consequências sobre o dever de diligência dos administradores, bem como a preocupação cada vez maior dos acionistas e dos demais stakeholders com o assunto também contam, diz a consultoria.
Leandro Almeida, coordenador executivo da Comissão de Mercado de Capitais da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), conta que as companhias abertas têm apostado em estratégias cada vez mais sofisticadas para tocar o negócio num ambiente econômico cuja competitividade cresce, incluindo a gestão de riscos.
Os dados evidenciam o aumento da preocupação relacionada ao tema, embora no que tange à sofisticação, cada uma delas avance conforme seu modelo e tamanho. Ademais, as empresas têm diferentes culturas e maneiras de se organizar, reforça Almeida.
‘Riscos ao acionista’: o que engloba
O pacote de ‘riscos ao acionista’ é amplo. Envolve, no mínimo, seis frentes de atuação. Entre elas está gerenciar potenciais efeitos de volatilidade e falta de liquidez das ações da companhia (ou do mercado de capitais); diluição da participação acionária; não pagamento de dividendos; restrição aos direitos dos acionistas (ou dificuldades que podem enfrentar para exercê-los); fechamento de capital; tributos.
A simetria de informações ainda é um desafio no Brasil, desse modo, os riscos aos acionistas muitas vezes crescem por uma combinação entre governança frágil, comunicação opaca e decisões concentradas, diz Vasconcellos, do IBRI. “Se o investidor não entende a tese ou não confia na liderança, ele sai”, continua.
Riscos não são elimináveis, mas inerentes ao ambiente. O que se pode e deve fazer é gerir a percepção do risco por de abordagem multidimensional que começa pela base, que é estruturar a governança. Esse tema não é mais um diferencial, é necessário, dizem as fontes.
É que, em outras palavras, companhias com estruturas frágeis, decisões concentradas ou conselhos inoperantes pagam mais caro pelo capital.
O trabalho para a gestão de riscos não está em uma única área ou instância da companhia. Fatores de risco devem ser tratados de maneira integrada. Segundo a KPMG, tem sido cada vez mais frequente o conselho de administração monitorar o gerenciamento de riscos com o suporte do comitê de auditoria, de um comitê de riscos ou, ainda, distribuindo o monitoramento da gestão dos principais riscos com os seus comitês de assessoramento.
Isso resulta em um “guidance realista”, contribui com a entrega disciplinada de metas e coerência entre o que se diz e o que se faz – fatores que consolidam a confiança dos acionistas. Afora isso, quando há desvios é preciso explicá-los com honestidade e apresentar planos corretivos. Olho no risco precisa estar na cultura. Não é tema delegado apenas ao jurídico ou ao compliance, reforça Vasconcellos.
