Captações recuam no ano, mas ritmo ainda é alto, dizem gestores
As captações via mercado de capitais totalizaram R$ 246,4 bilhões até maio, com queda de 10,5% na comparação com o mesmo intervalo de 2024. Se observado apenas o recorte de maio, o recuo é maior – e chama a atenção: foram menos 43%, com um volume de R$ 43,6 bilhões. O retrato é o mais recente, divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Executivos do meio ponderam, no entanto, que a comparação com o último ano (atípico positivamente para o mercado, especialmente em crédito privado) deve ser cuidadosa.
Para eles, inclusive, 2025 está surpreendendo, visto que as emissões não se acomodaram como o esperado. Ao cenário, somou-se recentemente a possível aprovação da Medida Provisória (MP) do governo federal, sobre a taxação de isentos e incidência de IOF em alguns investimentos, pode elevar a tração nas captações com o fim de o mercado aproveitar o último ano de isenção.
O fluxo neste ano não deve “bater” o de 2024, mas na visão de alguns agentes, ao menos no curto prazo, o cenário deve ser positivo para captação. Há mais de uma causa para isso. Pelo menos R$ 90 bilhões em emissões estão engatilhadas e podem sair nos próximos meses – volume considerado relevante no mercado. É que há a volta do fluxo comprador e algumas empresas, vendo o spread baixo, estão repensando refinanciamento de dívidas.
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Vale lembrar que em fluxo, no geral, 2024 foi o ano do crédito privado, porque houve recordes tanto de captação da indústria de fundos quanto nas emissões, seja de debêntures (corporativas ou isentas), ou por meio de instrumentos como Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRIs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), o que dificulta a comparação.
“Quando chegamos num patamar desses, é difícil continuar nesse ritmo. Muitas empresas já fizeram o dever de casa de refinanciar as dívidas mais caras, fazendo novas emissões com prazo mais longo. Grande parte desse trabalho já foi feito”, pontua Henri Rysman, gestor e responsável pela área de Crédito Privado e especialista em ESG da BNP Paribas Asset Management Brasil.
Além da acomodação comum após um ano forte e empresas com dívidas já alongadas, há a estratégia de preservação de caixa. “Falando um pouco de setores que são bem intensivos de capital, o que temos escutado de algumas empresas é que, dado todo o cenário que vivemos hoje no Brasil, essa é a estratégia. Ou seja, se houver a possibilidade de postergar determinado investimento para manter um pouco mais de caixa, será feito”, aponta Luiz Christ, gestor de crédito privado da Principal Asset Management no Brasil.
Contudo, o movimento ainda positivo no mercado surpreende, principalmente no caso das debêntures, cuja captação caiu apenas 3,2% na comparação anual, somando R$ 155,5 bilhões em 2025. Segundo o executivo do BNP, na verdade, a maioria das casas esperava uma queda em torno de 30% nas emissões contra o ano passado, justamente pelo efeito de “trabalho já concluído”.
“Obviamente, não estamos no mesmo patamar do início de 2024, quando tivemos meses com mais de R$ 30 bilhões entrando nos fundos de crédito, mas vejo um volume até relevante. Os vencimentos desses papéis incentivam apetite para as emissões”, diz Rysman, do BNP, lembrando que há divergência entre os fatores e o cenário para os diversos títulos de crédito.
No ano, as emissões de diferentes produtos tiveram queda praticamente generalizada, com exceção às Notas Comerciais, Fiagros e bonds, que viram aumentos de 41,5%, 30,9% e 18,7%, respectivamente, na comparação anual.
“O aumento das notas comerciais não deixa de ser um pouco do reflexo da mudança do CMN. Havia muita captação de empresas que não estavam diretamente no setor imobiliário e no agro, e se beneficiavam, e com a restrição, essas empresas que captavam por CRI e CRA agora passaram a captar por nota comercial”, esclarece Nathalia Machado, sócia fundadora da Canal Securitizadora.
Ela reitera que, nos Fiagros, alguns veículos já existentes conseguiram captar neste ano, após o afastamento do investidor diante dos casos de Recuperação Judicial de agricultores e alguns problemas setoriais recentes, mas que a dificuldade nas rodadas, que ainda persiste de alguma forma, afetou a emissão dos papeis no último ano e neste.

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O executivo da Principal Asset concorda que o movimento dos Fiagros, com R$ 1,7 bilhão em ofertas no ano, explicita a digestão por parte do investidor de que não há uma contaminação generalizada do setor agro. E acrescenta que, no crédito em geral, há um fluxo de captação dos fundos (que possuem crédito como estratégia relevante) muito por conta do CDI – já que a remuneração é representada por CDI mais um spread de crédito, e o indicador já está em níveis elevados, o que atrai o investidor. No entanto, o movimento de recuperação ainda é tímido para os Fiagros.
Já entre os produtos de crédito com queda neste ano estão os CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), que corresponderam a um montante de R$ 18,3 bilhões, e os CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), somando R$ 12,1 bilhões, e reduções de, nesta ordem, 32,5% e 29,0%. Até mesmo os queridinhos do mercado, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), apresentaram uma ligeira diminuição de 8% na comparação anual, com captação de R$ 30,4 bilhões.
“Quando pegamos as mudanças recentes, tanto a do ano passado quanto a deste ano [do CMN], é natural que a gente vá conseguir acompanhar ao longo do tempo esse reflexo no volume das captações”, opina Nathalia, da Canal. Embora não tenha ocorrido um impacto direto nas operações em curso na securitizadora, ela viu o mercado se ajustando, ainda mais em um momento de Selic bastante alta. “Querendo ou não, acaba dificultando o acesso à captação, ao mercado de crédito.”
Gestão dos fundos e perspectivas
A visão para o BNP e a Principal Asset é similar: há uma dificuldade maior na gestão dos fundos de crédito, visto a menor oferta de papeis no mercado e o preço dos títulos. Rysman, do BNP, destaca as emissões mais longas e com menos garantias, o desequilíbrio entre oferta e demanda e o piso do spread ao mesmo nível do 4º trimestre de 2024, quando houve um fechamento.
“É um momento bom para emissor, mas de seletividade para o investidor”, disse. Com isso, a casa tem feito uma redução de prazo médio das carteiras e prioriza títulos bancários e não corporativos.
O executivo do BNP lembra, no entanto, que há R$ 90 bilhões em emissões no pipeline para sair nos próximos meses, um volume muito relevante, uma vez que há a volta do fluxo comprador e algumas empresas, vendo o spread baixo, estão repensando refinanciamento.
“Na verdade, muitas emissões já estão sendo preparadas, considerando esse novo apetite”, aponta Rysman, lembrando que, com o fluxo voltando aos fundos e com o apetite dos investidores de volta, o volume de emissões no mercado primário agora realmente “tem tudo para acelerar”. Ademais, é preciso considerar o fluxo que deve vir em antecipação à taxação da MP 1303/2025, gerando uma corrida tanto de emissores quanto dos fundos para aproveitar a isenção.
Já a Principal tem optado por uma estratégia diferente. O que está justificando grande parte da performance da maioria dos fundos do mercado é o nível de carrego dos papéis, o quanto vão render depois de um dia, que continua em um nível atrativo, mas a dificuldade em gerenciar portfólios existe.
“Por conta dessa valorização generalizada dos papéis, dos preços, em questão de alocação, está mais difícil”, diz Christ, apontando que tem sido mais difícil encontrar boas oportunidades nos universos de debêntures, por exemplo, ou de letras financeiras. Com isso, a casa tem priorizado a alocação em FIDCs, sem um segmento específico, visto que ainda possuem nível de rentabilidade bem atrativo frente ao risco de crédito.
Para o executivo da Principal, o fluxo este ano “não vai bater” o de 2024, mas, pelo menos no curto prazo, a captação permanece positiva, ainda que em menor volume que no ano passado, recorde para diversos instrumentos. Sobre os impactos da MP, a visão é de cautela, visto que o projeto parece perder força diante do parlamento, mas, se ela for aprovada, o mercado deve aproveitar a “janela de oportunidade”.
Na Canal, a visão é semelhante. “Percebi, nessas últimas semanas, que o mercado veio se antecipando para estruturar novas operações. Mandamos muita proposta, estamos com bastante coisa aqui no pipeline, mas essa questão de aumento do imposto de renda para 5% nas operações é algo que não sabemos se vai ser aprovado”, pontua Amanda Martins Ribeiro, co-fundadora da Canal Securitizadora, dizendo que, como o mercado vem aumentando a cada ano, a perspectiva ainda é otimista, mesmo sem a MP.
A visão de Rysman, do BNP, é que, para produtos como debêntures (corporativas e incentivadas), LCIs e LCAs, o fluxo ainda deve ser positivo, mas para CRI e CRA o otimismo não é o mesmo, dadas as reduções de lastro do CMN.


