Cenário eleva demanda por LCI, mas captação pelos bancos pode ficar mais ‘tímida’
Diante do atual cenário de juros altos, a demanda por Letra de Crédito Imobiliário (LCI) ganhou velocidade em meses recentes, possivelmente com demanda acima de oferta, um quadro que deve seguir nos próximos meses. Gestores consultados pela Capital Aberto contam que a busca por esses títulos está muito alta – já pagando quase o ‘piso’ aceitável em alguns casos –, resultado de um cenário que combina o alto patamar de taxa de juros aliado à preferência por alocação em ativos com isenção tributária e o menor risco possível.
As letras, como LCI e LCA, vale lembrar, acabam caindo como luva não só por conta da isenção de Imposto de Renda, mas também devido à cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A demanda deve seguir elevada nos próximos meses, mas com um apetite mais “tímido” por parte dos bancos, que se movem conforme a necessidade por crédito do setor imobiliário.
Fernando Camargo Luiz, gestor da Trópico Investimentos, enxerga, agora, um momento atípico relacionado à demanda por esses títulos imobiliários. “Nos últimos cinco anos, só vimos compressão semelhante nas LCIs no choque de liquidez da pandemia (segundo trimestre de 2020)”, disse. Para ele, não se trata de “mero efeito sazonal”. “Em anos normais há um repique de procura em janeiro e fevereiro, mas algumas LCIs de grandes instituições jamais chegaram a menos que 92 % do CDI nesses períodos. Hoje estão sendo negociadas entre 90%, 91% do CDI no secundário, um patamar sem precedentes recente”, contou o gestor.
Em um grupo de conversa no Whatsapp, uma troca de mensagens entre gestores e clientes, do dia 28 de abril, um gestor disse que a demanda pelos títulos estaria “gigantesca” e que, por conta disso, a Caixa estaria sem lastro. Em nota, a Caixa informou à Capital Aberto que “possui lastro para emissão de LCI e segue captando recursos por meio deste instrumento”.
Ainda segundo Luiz, da Trópico, os valores estão chegando perto do ‘piso’ que remuneraria a alocação. Nas contas do gestor, alocar em LCI com esse retorno citado por ele compensa para quem, por exemplo, aplica em CDBs ou fundos que rendam menos ou igual a 105% CDI líquidos de taxa. “Abaixo de 88% do CDI geralmente deixa de compensar”, calcula.
Para investidores com um perfil mais conservador, que procuram rentabilidade um pouco acima do CDI e não querem ter dor de cabeça e correr muito risco, 90% a 95% do CDI acaba sendo uma remuneração atrativa para um título isento, reforça Luiz Christ, gestor de crédito da Principal.
Flávio Toffolo, superintendente sênior de produtos de tesouraria do Bradesco, vê a busca por LCIs, de fato, bastante aquecida, contudo, discorda quanto à atipicidade do momento. “No Bradesco a gente tem mais demanda do que disponibilidade de lastro”, comenta. “Mas a procura pelo título cresceu desde que os juros subiram, já há alguns anos”, disse.

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“Desde que a taxa de juros passou dos 10% ao ano que o fluxo veio de modo muito forte para a renda fixa novamente, e a preferência é sempre pelos títulos isentos”, continua o executivo do banco. Seja uma LCI – negociada em torno de 95% do CDI, média do mercado, comenta o executivo do banco –, um CRI ou CRA, ou ainda uma debênture de infraestrutura, todos isentos, estão com alta demanda.
Com a Selic a 14,75%, a preferência por alocação direta em ativos de renda fixa (neste ano se nota o volume resgatado junto aos fundos) e a curva de juros invertida, ou seja, mais risco no curto prazo do que no longo, explicam a demanda crescente por LCIs. “A oferta limitada de lastro contribui”, acrescenta Luiz, da Trópico.
Ademais, é preciso considerar fator estrutural que afetou o mercado de investimentos em anos recentes. Os investidores de varejo começaram a se aprofundar para conhecer os produtos existentes no mercado, disse Christ.
Forte demanda
A demanda por LCIs deve continuar forte, avaliam as fontes consultadas, embora seja necessário observar ainda como poderá caminhar o setor imobiliário no resto do ano. “O CDI vai seguir nesses patamares e a isenção tributária vai continuar, pois é uma característica do produto. Então, a perspectiva é de demanda alta”, comenta Christ, da Principal.
A disponibilidade dos títulos pelos bancos, contudo, pode ser mais tímida daqui para a frente, comenta Toffolo, do Bradesco. “Eu acho que a demanda sempre será muito maior do que a oferta nesses produtos, pela característica dos títulos.” Cada banco emite títulos conforme o apetite do mercado que precisa do crédito. Mesmo com juro alto, o segmento imobiliário continuou captando no primeiro trimestre do ano.
Dados da Anbima mostram a evolução do volume financeiro tanto de LCI como LCA nas carteiras há pelo menos meio ano. Em LCIs, no varejo tradicional, houve alta de 12% desde outubro do ano passado, alcançando R$ 152 milhões em março de 2025. Já varejo alta renda somava R$ 85 milhões em março (alta de 23,4% no mesmo período) e, no private, o volume financeiro de LCIs chegou a R$ 164,2 milhões, com evolução de 16% no mesmo período.
