Data Center atrai fundos e debate sobre marco regulatório avança no país
O avanço da inteligência artificial (IA) pede mais centros de dados com infraestrutura avançada e, na esteira disso, a demanda por energia (e água, para resfriar os equipamentos) cresce muito. A proporção é a seguinte: uma pesquisa no ChatGPT, por exemplo, usa dez vezes mais energia do que a feita no Google Search. A expansão do uso dessas ferramentas no mundo está redesenhando a geografia da localização dos data centers, com capacidade para atrair US$ 1 trilhão em investimentos globais até 2030 – e o Brasil ocupa uma posição de destaque por, entre outras características, sua matriz energética renovável.
Oferta de energia e água não contribui para a expansão do negócio nas regiões onde hoje se concentram as estruturas, como os países europeus. As mudanças na própria tecnologia também contribuem para a movimentação setorial, já que a localização do prestador de serviços não é um limitador: eventualmente, um centro de dados no Brasil pode atender a Europa ou outras regiões.
“No passado, os data centers eram muito localizados: instala-se um data center no Brasil para atender o Brasil, um no Reino Unido para atender a Europa, e assim por diante. Com a inteligência artificial essa característica se alterou um pouco”, comenta Rodrigo Abreu, CEO da Omnia, nova companhia (ou plataforma, como a empresa se identifica) do Patria Investimentos.
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Abreu, que já liderou operadoras do porte de Oi e TIM, além de companhias como Cisco e Nortel, vai comandar a recém-lançada plataforma do Patria, que tem como foco desenvolver, construir e operar centros de dados no Brasil, México e Chile. Os projetos da companhia terão aporte mínimo de US$ 1 bilhão, o suficiente para levantar um data center de 100 megawatts (MW).
A plataforma chega ao universo de negócios de Ascenty, Scala e Elea, algumas das empresas que disputam espaço no mercado brasileiro com foco em atender as gigantes de tecnologia. Elas têm ampliado a captação de recursos via debêntures: nos últimos 12 meses, as emissões somaram perto de R$ 5 bilhões – quase os R$ 6 bilhões tomados entre 2021 e 2023, indica um estudo da Moody’s.
Contribuiu para o aumento de volume de emissões uma alteração recente em regramento. Em 2020, data center foi adicionado ao rol de emissões de debêntures incentivadas, conta Matheus Rossi, sócio da área de mercado de capitais do Bocater Advogados.
A maior parte dos centros de dados instalados no país tem participação de fundos privados. E há apetite de alocação. “Temos visto investidores de fundos imobiliários e de private equity olhando operações, tem muita coisa de infraestrutura nessa frente. Há muitos projetos que soube terem ocorrido diligências”, comenta Priscila Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap). Ela avalia como um setor proeminente do ponto de vista de interesse de alocação nos próximos anos.
O Brasil reúne atualmente 61 data centers. É quase a metade da infraestrutura localizada na América Latina, onde há 143 deles, em um segmento com faturamento bilionário no continente.
US$ 1 tri em cinco anos
Com menos disponibilidade de recursos naturais nos países que hoje concentram os centros de dados, o momento é de reorganização setorial – um processo esperado para os próximos cinco anos. Os aportes globais em infraestrutura poderão superar US$ 1 trilhão até 2030. A fatia da América Latina nesse bolo pode chegar a US$ 50 bilhões – sendo o Brasil um polo de atração.
É que o continente tem boa condição para atender essas demandas, dizem as fontes consultadas pela Capital Aberto. O impacto que poderá ocorrer em oferta de água, nas localidades de instalação dos centros de dados, é uma preocupação levantada pela opinião pública, o que leva projetos a traçarem soluções com esse foco. A América Latina, contudo, tem hoje o maior potencial de energia renovável do mundo – um ponto chave para as decisões de negócios.

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O Brasil, apenas, tem mais de 100 gigawatts de capacidade renovável mapeada. Abreu, da Omnia, destaca que entre os trunfos do país está o custo de energia, hoje competitivo em comparação aos mercados onde os centros de dados estão instalados. Ele diz ainda que, eventualmente, poderá tornar-se decrescente.
Uma estrutura de 100 MW consome energia equivalente à de uma cidade com 150 mil habitantes, e a construção leva de 18 a 24 meses. O primeiro projeto da Omnia poderá ser anunciado ainda no segundo semestre de 2025 (o executivo não informa a localização).
Os volumes de investimentos necessários nessas estruturas são altos pelo perfil: não se trata de levantar simples galpões. A infraestrutura precisa cumprir requisitos técnicos de construção com demandas específicas do ponto de vista de conexão à rede elétrica, seja por conta de localização, da necessidade de conectividade, tamanho de terreno, para citar algumas delas.
Além do alto consumo de energia, a necessidade diária de água num data center pode equivaler à de cerca de mil residências. É que a capacidade de um centro de dados geralmente é determinada pela eficiência com que ele resfria os servidores. Abreu, da Omnia, diz que os projetos da empresa focam gasto mínimo possível de água e terão circuitos fechados para reuso.
O texto utiliza dados setoriais retirados de estudos do Cescon Barrieu e do Santander.
Marco legal: tributos e política
Na visão de Mauricio Santos, sócio da área de infraestrutura do Cescon Barrieu, os ambientes tributário e político-jurídico no Brasil ainda trazem desafios para destravar maior volume de aportes.
O governo federal, contudo, tem se movido. Há frentes de atuação recentes em ao menos quatro ministérios: Fazenda, Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC), Casa Civil e Minas e Energia. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, rodou os EUA no início deste mês, onde anunciou a empresas do ramo um plano para atrair aportes ao Brasil.
O secretário da área de inovação do MDIC, Uallace Moreira Lima, por sua vez, disse recentemente a jornalistas que a ideia é atrair US$ 2 trilhões nos próximos dez anos. A Capital Aberto buscou a Fazenda e o MDIC, mas as Pastas não confirmaram o volume financeiro. Executivos do segmento, contudo, avaliam o número como uma possibilidade real.
Em outra frente, há poucos dias, o ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, conversou com jornalistas na China enquanto cumpria agenda em Pequim. Ele contou que o TikTok poderá investir em um centro de dados no Ceará.
Ademais, discussões para estruturar um marco legal ganharam força em maio. Nesta quarta (21), houve uma audiência pública no Senado para debater o Projeto de Lei 3.018, de 2024, que regulamenta parâmetros para a operação dessas infraestruturas. Há foco em segurança de dados, eficiência energética, sustentabilidade, soberania digital e estímulo à indústria nacional de tecnologia.
Segundo Renan Lima, presidente da ABDC (associação que representa data centers), haverá uma próxima audiência no dia 28 de maio. Por ora, o aspecto fiscal/tributário não entrou no guarda-chuva desse debate, mas proteção de dados (LGPD) já está na mesa.
“O tributário é um aspecto importante porque a carga para trazer os equipamentos é muito alta. E isso torna o processamento de dados, o investimento, não tão atrativo”, diz Santos, do Cescon Barrieu, rememorando que as iniciativas recentes da Fazenda vêm ao encontro de encontrar solução.
Outra preocupação, cita Santos, é a instabilidade relacionada ao ambiente jurídico. O gestor do data center garante a segurança ao cliente (as gigantes de tecnologia) e se obriga a cumprir, até por conta do projeto de lei, diz, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).
“Tem que cumprir. Mas uma das exceções de cumprir com as regras de privacidade da LGPD é se houver alguma decisão judicial [que peça a abertura dos dados]”, continua o advogado. “Temos visto no Brasil um judiciário extremamente volátil”, continua.
O ambiente, contudo, não afetou, ao menos por ora, a visão de grandes investidores, disse uma das fontes. Para Abreu, da Omnia, por exemplo, o país tem uma “neutralidade geopolítica” que contribui para atrair os empreendimentos.
