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Trump 2.0 gera dia a dia atípico em gestoras, mas colapso pode trazer oportunidades

Érica Polo

O mercado de investimentos está obrigatoriamente ‘mais ativo’ depois da turbulência causada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, com a divulgação das tarifas na quarta-feira passada (02). A incerteza segue chacoalhando os mercados mundo afora – e, na esteira, o dia a dia dos gestores. Nesta segunda-feira (07), Larry Fink, CEO da BlackRock, disse à Bloomberg que a gestora está conduzindo “o maior número de conversas com clientes desde março de 2020”. A rotina já vinha movimentada desde a posse do republicano, em 20 de janeiro, mas chegou a um momento atípico, disseram profissionais do mercado à Capital Aberto. Não se vivia um cenário incerto como o atual desde março de 2020 – início da pandemia de Covid-19. Houve quem tenha feito paralelo com a época dos desdobramentos da crise do subprime, em 2008, e um pouco mais para trás na linha do tempo, com a da ‘bolha.com’, dos anos 2000.

Até que fique mais claro onde o governo americano pretende chegar, as decisões têm sido cautelosas, disseram gestores brasileiros. As leituras variam entre ser hora de ficar ‘mais perto de casa’, em ‘posições menores’, manter Treasuries, aumentar aposta em ouro (e metais), e há quem olhe com mais atenção para títulos europeus (sobretudo alemães), enquanto a Europa planeja ampliar investimentos para reforçar a segurança do continente. Vale reforçar que os títulos americanos estão bastante voláteis, e os vencimentos de longo prazo chegaram às máximas da sessão de ontem após Trump anunciar tarifas de 104% para a China.


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Não necessariamente ações de companhias mais sólidas deveriam perder relevância, apesar do esfarelamento recente em Wall Street. John Plassard, especialista em investimentos do grupo suíço Mirabaud, opina que a volatilidade atual das bolsas, em meio à guerra tarifária, é mais comum do que parece. “Trata-se de um fenômeno [volatilidade] que se repete quase todos os anos – e que, se analisado com perspectiva histórica, pode até representar uma oportunidade”, disse.

Plassard cita a resiliência do S&P 500, que caiu apenas 2,5% nos últimos 12 meses, enquanto subiu 24% nos últimos dois anos. “Quem tenta prever o timing do mercado corre o risco de ficar de fora dos dias mais rentáveis, os quais ocorrem com frequência justamente nos momentos de maior tensão”, comentou, em nota. O Mirabaud, com bilhões de francos sob gestão no mundo, elenca family office e gestora entre as suas atividades.

Quando se olha para o cenário macro, tanto em 2000 como em 2008, a economia americana descolou da europeia. “Isso é raríssimo de acontecer”, disse João Piccioni, CIO da Empiricus Gestão. Ele cita o GPDNow, prévia da atividade econômica americana divulgada pelo Federal Reserve (Fed) em Atlanta, o qual indicou recuo de 2,8% no primeiro trimestre de 2025. “Mas é preciso ver como vai fechar o dado oficial do PIB dos EUA no primeiro trimestre, ao final de abril”, disse.

João Piccioni, CIO da Empiricus gestão
João Piccioni, CIO da Empiricus gestão

“Por outro lado, vemos uma certa aceleração de dados econômicos na Europa”, continua Puccioni. O cenário global, incluindo o dos EUA, ainda é incerto para cravar se o capítulo seguinte será o que foi visto em épocas anteriores, quando a economia americana derrapou e, em seguida, também outros países do mundo.

“O governo americano quer ressuscitar a manufatura nos EUA, mas a gente não tem certeza exata de onde essa administração quer chegar. Então, como ela está acertando o plano enquanto em voo, e logicamente o investidor não está na cabine de comando, é um passageiro, nesse sentido se tenta voar mais perto de casa nesse momento, até que o cenário esteja mais claro”, comenta Ruy Alves, sócio e co-gestor de multimercados da Kinea.

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O momento é de grande mudança para a organização das cadeias globais, o que afeta preços. “O mundo se beneficiou enormemente do comércio internacional nas últimas décadas, e não só desde que a China entrou na Organização Mundial do Comércio [em 2001], mas desde os anos 1980. Estamos revisitando o processo que gerou a estrutura atual de valor do mundo desenvolvido, e vai levar algum tempo até que as cadeias de produção se organizem”, comenta, ainda, Alves, da Kinea. “Ninguém sabe quanto tempo vai levar, mas vai surtir efeito em PIB, talvez na casa de 1,5% dos EUA, 0,6% na Europa e 2% na China”.

O dólar vem perdendo força em 2025, diante de outras moedas como euro e iene, e o cenário pode prosseguir no curto prazo. Ainda para Alves, é importante ficar de olho na taxa longa dos EUA. “O chinês pode decidir não reciclar de volta a poupança dele em dólares, acho razoável, tendo em vista que Trump fala em tarifas acima de 100% para o país”, continua o executivo da Kinea.

Parte dos fluxos de investimentos que saíram dos EUA em meio ao cenário do governo Trump 2.0 ainda não retornaram ao país, como é de costume ocorrer, porque o investidor está com um nível elevado de tensão para investir no mercado americano. “No curtíssimo prazo, a gente até viu algum fluxo voltando para os EUA, mas já começou a se dissipar um pouco. Vemos esse fluxo caminhar para a Europa e para emergentes, incluindo o Brasil”, continua o gestor da Empiricus.

Desde que Trump foi eleito, em janeiro, Wall Street perdeu US$ 10 trilhões, segundo a consultoria Elos Ayta – somente as ‘7 Magníficas’ desvalorizaram US$ 4,2 trilhões. Analistas internacionais fizeram um outro paralelo, com o primeiro governo de Trump, o qual também foi marcado por uma escalada tarifária. Mas o Trump 1.0 foi classificado como uma espécie de “tea party” se comparado ao atual momento, disse uma reportagem da Bloomberg nesta segunda. 

Fink, da BlackRock, disse à mesma agência de notícias no dia 07 que um declínio de 20% do mercado em três dias tem um “impacto significativo”, e que apesar do maior número de conversas com clientes, a BlackRock “está bem”.

Cenários para uma virada

A partir deste momento, de aversão a risco, o jogo poderá virar de duas maneiras, resume Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren. Uma delas se houver negociação entre os países para abrandar a estrutura tarifária entre EUA e outros mercados, “talvez surgindo uma política mais branda ou então uma postergação da implementação das medidas”. “Se isso ocorresse, haveria uma dinâmica positiva pelos ativos de risco”, disse Nobre.

Outra possibilidade é “ir a preço”, ou seja, o mercado ajustar-se paulatinamente. Neste caso, como a correção seria “muito acentuada”, chegaria um determinado momento que os players parariam de vender por uma questão de preço, de valuation, de retorno potencial. “Mas isso [o segundo cenário] seria ruim, onde só para quando o último apaga a luz”, continua Nobre.

“Eu acho que a gente ainda não está em condições de falar que esse segundo cenário já aconteceu, não estamos nesse momento de assimetria”, disse o gestor da Warren. Para ele, pelo contrário, o momento é de alto risco, mas o mundo ainda está “no começo desse imbróglio”. “A gente não sabe o que vem pela frente”, segue. Do ponto de vista do investidor, reforça, não é a hora de tomar medidas precipitadas.

Oportunidades em Wall Street

Apesar do colapso recente, adiciona Plassard, do Mirabaud, “o S&P 500 caiu apenas 2,5% nos últimos 12 meses e subiu 24% nos últimos dois anos, demonstrando resiliência”. “Já as "Magnificent 7" amargaram perdas de 11% somente em março e acumulam queda de 24% em 2025. Mas o movimento não representa uma rotação setorial, é uma reavaliação, um ajuste de expectativas”, continua o especialista.

Segundo ele, o pano de fundo envolve, ainda, fadiga com a GenAI, incertezas em relação a preços e uma concentração excessiva de capital em poucos ativos. “Investidores individuais e fundos de hedge vêm se afastando do setor de tecnologia em massa, o que intensificou a correção”, diz o especialista.

Sobre o risco de ficar de fora dos dias mais rentáveis em meio a tensões como a atual nas bolsas, Plassard cita um exemplo que considera clássico: mesmo investindo no pico da crise da ‘bolha’, em março de 2000, um investidor teria acumulado retorno de 438% até hoje. “Com aportes regulares, esse retorno poderia chegar a 10,7% ao ano”, conclui.