Operação entre assets e seguradoras ganha novo perfil, mas no Brasil há pouca margem para o movimento
Embora dados agregados e específicos sobre combinação de negócios entre gestoras de investimento e seguradoras não sejam consolidados, é perceptível um movimento surgido há alguns anos, tanto no exterior quanto no Brasil, de braços de gestão surgindo em empresas seguradoras, assim como gestoras criando seu próprio canal de seguros. No exterior, a Janus Henderson deu lugar a um novo tipo de operação, que não inclui uma fusão, aquisição ou a criação de um canal específico para operar no segmento, mas sim gerir ativos de uma seguradora por meio de uma parceria estratégica.
No exterior, o movimento de criar um braço de gestão foi precedido por grandes nomes como Allianz Global Investors, que surgiu do grupo Allianz, uma das maiores seguradoras do mundo, Axa Investment, ligada ao grupo AXA de seguros, e MetLife Investment Management, braço de gestão da seguradora MetLife.
Já nas últimas semanas, a Janus Henderson, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, anunciou uma transação única e diferenciada no segmento de seguros. Em vez de criar um “braço próprio” ou adquirir uma seguradora, optou por uma parceria estratégica com uma casa já conhecida. A asset anunciou que administrará US$ 45 bilhões da Guardian, se tornando gestora de ativos de renda fixa pública da seguradora, que incluirá empresas com grau de investimento e crédito securitizado. A transação também significa que a Guardian fornecerá até US$ 400 milhões de capital semente para a inovação de produtos de renda fixa da Janus Henderson.
“A Guardian e seus acionistas se beneficiarão da abordagem de investimento da Janus Henderson, líder em gestão de ativos e pioneira mundial em ETFs ativos de renda fixa. Ao combinar a experiência da Guardian com as estratégias de investimento, recursos e capacidades líderes de mercado da Janus, a Guardian poderá oferecer estratégias inovadoras de investimento e gestão de patrimônio que beneficiarão clientes e segurados nos próximos anos”, disse a Janus Henderson, em resposta à Capital Aberto.
O acordo estratégico também respalda a execução da visão da Janus Henderson de ampliar seus pontos fortes em Renda Fixa, Soluções de Múltiplos Ativos e Portfólios Modelo, ao mesmo tempo em que expande consideravelmente sua presença no mercado institucional e no espaço de seguros, segundo a gestora. Já sobre o porquê da parceria em vez de uma aquisição ou criação de um braço em seguros, a Janus não quis comentar, bem como sobre outros potenciais investimentos nessa área.
No Brasil o cenário é outro. No exterior, especialmente nos Estados Unidos, é um pouco diferente, visto que há uma segregação entre os mercados e há um número maior de seguradoras independentes. “Aqui você tem muitas seguradoras, principalmente de vida, que pertencem a esses grupos financeiros, aos bancos. Por exemplo, as maiores seguradoras de vida no Brasil hoje são a Bradesco Seguros e a BB Seguridade. Quando tem essas maiores seguradoras com bancassurance muito forte, muitas têm a própria asset dentro da estrutura. Não que não possam surgir oportunidades”, conta Alexandre Chang, diretor da Fitch Ratings.
“Por exemplo, a Icatu, maior seguradora de vida independente, na parte de previdência, faz muitas parcerias com assets, e às vezes com assets pequenas ou boutiques de investimentos, de criar um produto também de prateleira para essas casas”, diz o executivo, contando que isso é benéfico para ambas as envolvidas, porque a seguradora acaba acessando essas assets no quesito estratégias de investimentos, e para as assets também é positivo, pois criam um produto de prateleira de previdência que pode ser interessante para seus clientes ou complementar o que já possuem “in house”. “Isso porque a Icatu é uma seguradora independente, mas também possui uma própria asset também.”

PUBLICIDADE
Aqui, o movimento de sinergia entre seguradoras e assets foi visto e realizado por grandes nomes que geraram suas próprias gestoras de ativos, como MAG Seguros com a criação da MAG Investimentos, SulAmérica Seguros criando a SulAmérica Investimentos, com Porto Seguros e Porto Asset e, mais recentemente, com a iniciativa da gestora Galapagos ao conseguir a autorização da Susep para atuar como Sociedade Seguradora e emitir LRS.
“Isso é uma tendência não só do Brasil como globalmente. As seguradoras, pelo modelo de negócio que têm, e dependendo do tipo de ramo e produto que vendem, acabam administrando uma quantidade de ativos bem grande. Isso já leva, por natureza, os grandes grupos seguradores a terem grandes assets, grandes gestoras de recurso”, comenta Fernando Mattar, sócio da KPMG.
A depender do ramo, como a previdência, seguro de vida, há muitos produtos que estão conectados com planos de investimento das pessoas e o que também liga a todos os negócios, a parte de seguros e a parte de gestão de ativos, dando sentido movimento a esse movimento, segundo o executivo da KPMG. “O Brasil talvez estivesse até um pouquinho atrasado nessa onda”.
Embora o movimento tenha se intensificado com o passar dos anos, agora, há pouca margem para ele, visto que boa parte dos mercados de seguros e gestão de ativos é ocupada pelos bancos e muito dessas operações já ocorreu.
As maiores seguradoras no país, geralmente, já possuem uma gestora devido a sua reserva técnica. “Alguém tem que gerir isso e faz muito sentido. Em vez de pagar alguém, é melhor ter uma em casa, como Porto Seguro, Mapfre, têm as gestoras de recursos delas”, aponta Pedro Gomes, diretor da Fitch. O movimento entre seguradoras com gestoras no Brasil já acontece visto que as grandes e médias seguradoras já possuem sua própria gestora. “Pode acontecer alguma coisa isolada? Pode, mas não tem muito espaço para acontecer alguma coisa aqui”.
Para o Patria, que recentemente ampliou sua estratégia de Growth, investimento em empresas em estágio de crescimento acelerado, na área de seguros e consórcios, e vê o segmento como resiliente, embora nenhuma das operações envolva um braço propriamente de seguros ao Patria ou a terceirização de ativos relacionados a seguros, a hipótese de um negócio como o realizado pela Janus com a Guardian não é descartada pela asset.
“Digo que essa não é uma conversa que nunca tivemos, e, obviamente, acompanhamos o mercado como um todo, mas esse nosso movimento com o grupo Randoncorp não está relacionado a isso. O Pátria, obviamente, tem a sua própria estratégia de crescimento, de internacionalização, de buscar novos mercados, então é uma tendência que a gente acompanha, mas eu diria que não tem nada muito concreto, muito maduro ainda”, respondeu Pedro Faria, sócio e co-CEO de High Growth do Patria Investimentos sobre a possível compra de uma seguradora ou uma parceria para a gestão dos ativos de uma.
Segundo os executivos da Fitch, alguma operação estratégica como a que aconteceu entre Janus e Guardian pode ocorrer aqui, mas “não vemos um movimento, uma tendência de mercado”. Para a gestão dos próprios ativos da seguradora, geralmente empresa já possui a própria asset “in house”. Na questão de previdência, tratando da gestão dos ativos nesse tipo de fundo, as seguradoras já fazem algumas parcerias de produtos de prateleira com outras seguradoras estrangeiras.
