Moody’s elenca desafios e benefícios de investir em data centers no Brasil
Se por um lado o setor de data centers apresenta uma perspectiva de crescimento promissora no Brasil, devido à alta demanda por serviços digitais e vantagem de uma matriz energética diversificada, por outro, há desafios significativos – sendo um deles o custo de capital, resume um relatório divulgado nesta terça-feira (01) pela Moody’s Local. A análise destaca, ainda, que episódios recentes de interferências políticas em redes sociais são mais um tema de atenção no que diz respeito à alta (ou não) do apetite por investimentos no país. O segmento tem atraído a atenção de fundos de private equity e venture capital.
“Essas interferências podem resultar em maior escrutínio e regulamentações mais severas, aumentando os custos de conformidade para as empresas de tecnologia”, avalia o texto assinado pelos analistas Naomi Gozzi e Diego Kashiwakura, da Moody’s. O relatório pondera, ainda, que as elevadas tarifas de importação e a desvalorização da moeda frente ao dólar também acendem sinal de alerta, pois elevam os custos de instalação e manutenção dos data centers.
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Mas, ao mesmo tempo, dizem os analistas, a previsibilidade das receitas dos contratos de médio a longo prazos garante um fluxo de caixa operacional futuro para fazer frente a tais obrigações.
Vale reforçar que o setor vive um momento de expansão acelerada no mundo a partir do maior uso de tecnologia. É crescente a adoção do armazenamento de dados em nuvem e dos produtos e serviços de inteligência artificial (IA), o que resulta em um aumento de demanda por capacidade de data centers – instalações dedicadas a abrigar sistemas de computação, armazenamento, telecomunicações e outros componentes.
Hoje o segmento é concentrado nos EUA (45%) e na Europa (15%), mas, nesses países, enfrenta dificuldades relacionadas ao fornecimento de energia e água – fatores fundamentais se considerado o consumo de energia demandado por essas estruturas. As regulamentações sobre eficiência energética e emissões de carbono são aspectos cruciais para o setor. Por isso, e pela alta demanda por armazenamento de dados, o segmento deverá expandir-se para países que ofereçam boa infraestrutura, fornecimento confiável, custos atrativos e fontes de energia preferencialmente renováveis – e o Brasil pode ser um desses ambientes.

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Por aqui, há uma concentração de data centers no estado de São Paulo devido à robusta infraestrutura e proximidade das grandes empresas e instituições financeiras, com destaque para a região metropolitana de São Paulo e o município de Campinas.
O segmento vem ganhando a atenção de investidores institucionais e de fundos de private equity e venture capital, pelos fatores já descritos: demanda e matriz energética. A agência de risco lembra que o capital privado tem desempenhado um papel crucial na viabilização dos projetos de investimento, fornecendo os recursos financeiros, ou parte deles, para cobrir os custos de expansão e inovação. A maior parte dos desenvolvedores de data centers possuem participação de fundos privados no Brasil.
Demanda e energia
No que diz respeito à demanda, pesquisa realizada pela Microsoft no Brasil indica que 74% das micro, pequenas e médias empresas da amostra utilizavam IA em 2023, ante 61% em 2022. A Ipsos e o Google indicam que 54% dos brasileiros utilizaram IA generativa em 2024, frente a uma média global de 48%. Ademais, pouco mais de 90% das empresas de grande porte no país já possuem alguma IA habilitada.
“Acreditamos que a demanda por maior processamento de dados deverá crescer com o uso do 5G e do armazenamento em nuvem, incluindo a "nuvem IA" para a inferência de modelos treinados de IA”, dizem os analistas.
Sobre o consumo de energia para alimentar os data centers, o Brasil se destaca porque sua matriz energética é diversificada, é há significativa participação de fontes renováveis e abundância de recursos hídricos. “No entanto, é importante ponderarmos os obstáculos enfrentados para que o país possa aproveitar plenamente seu potencial energético, bem como a exposição aos riscos de gestão da água, considerando o crescimento populacional, o aumento do consumo industrial e as mudanças climáticas”, diz o texto.
Instabilidade política
Os analistas rememoram que, em dezembro de 2024, o Senado Federal avançou na regulamentação do uso da inteligência artificial (IA) com a aprovação do Projeto de Lei 2.338/2023 (“Marco Legal da IA”). O intuito é garantir segurança jurídica e ética no uso da tecnologia. É um pacote que traz a criação do Sistema Nacional de Regulação e Governança de Inteligência Artificial e a remuneração de artistas pelo uso de conteúdos protegidos por direitos autorais em treinamentos de sistemas de IA.
Mas o país ainda vive instabilidades, a exemplo de episódios recentes de bloqueio de redes sociais com determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), que destacam, na visão dos analistas, “a complexidade e as incertezas que envolvem o desenvolvimento da governança digital no país, com potenciais repercussões diretas sobre o desenvolvimento e a competitividade do Brasil no campo dos investimentos tecnológicos”.
