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Em meio ao caos, fundos multimercados apostam em inflação e juros no Brasil e nos EUA

Amanda Meneses

Vagner Alves, gestor da Kinea

Após anos sofrendo com saídas dos investidores e, por muitas vezes, com um desempenho aquém do esperado, devido ao ciclo da indústria e às incertezas políticas e econômicas internas e externas, os fundos multimercados agora reajustam estratégia, especialmente diante da ascensão de Donald Trump à presidência dos EUA. A tese do excepcionalismo americano não é unanimidade no segmento, mas é certo que as posições em inflação implícita aqui e em juros no Brasil e nos EUA mudaram desde o tom mais duro de Trump. Por ora, as posições dos gestores de multimercados estão divididas e não há uma tendência clara. 

No cenário doméstico, o mercado financeiro elevou a projeção da inflação para 2025, com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estimado em 5,68%, acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central (BC), de 4,5%. Isto reflete preocupações com a persistência inflacionária e reforça a expectativa de que a Selic atinja 15% até o final de 2025. Já no contexto internacional, os Estados Unidos enfrentam desafios inflacionários significativos. A vitória eleitoral de Donald Trump gerou incertezas sobre a trajetória de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed), aponta Angelo Belitardo Neto, analista da Hike Capital.


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As tarifas recentemente anunciadas pelo republicano e as subsequentes negociações ilustram os desafios e as oportunidades que tais políticas podem criar no curto prazo, impactando diretamente as estratégias das gestoras de fundos multimercados, que buscam ajustar suas posições para mitigar riscos. “No geral, gestores e analistas tendem a se inclinar a manter ou aumentar exposições em ativos americanos, apostando na força relativa da economia dos EUA frente a outras economias globais”, opina Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Em relação à aposta em alta de inflação e juros, tanto no Brasil quanto nos EUA, boa parte do mercado segue ajustando suas estratégias para proteger os portfólios contra potenciais impactos negativos de aumentos nas taxas de juros, ou prolongamento dessas taxas, comenta Lima. “Isso pode incluir aumentar a alocação em títulos atrelados à inflação ou em setores menos sensíveis a mudanças na taxa de juros, como tecnologia ou saúde, que tendem a ter um desempenho melhor em cenários de aumento de custos de capital”, diz.

Diante desse panorama, as gestoras de fundos multimercados estão adotando estratégias diversificadas. A tendência é que elas aumentem posições aplicadas em juros nos EUA e no Brasil, enquanto outras reduzem exposições compradas no real e posições vendidas em moedas de países emergentes, ressalta o analista da Hike Capital. “Por exemplo, a Kapitalo Investimentos elevou suas posições aplicadas em juros nos EUA e no Brasil, ao mesmo tempo em que reduziu posições compradas no real e posições vendidas no peso colombiano”, conta Belitardo Neto.

Gestoras como a Kinea, que mantém posição tomada nas taxas em Treasuries de 2 e 5 anos, têm apostado numa alta dos juros nos EUA e focado também na tese de excepcionalismo norte-americano. A Kinea acredita num aumento da inflação lá fora, com o núcleo batendo 2,85% ao final do ano, devido às políticas tarifárias de Trump, que prometem acender pressões inflacionárias. 

Estimando essa alta da inflação, a Kinea é tomada em juros nos EUA. “Se olhar a curva nos EUA, até 2 anos, tem mais ou menos 1%, um pouco mais, de corte na curva. É precificado. Achamos isso um pouco exagerado. Por isso gostamos de ficar tomados nessas posições mais curtas. Acreditamos que o FED não vai ter espaço para cortar tão cedo”, conta Vagner Alves, gestor da Kinea. Já em equities, além de questões temáticas e estruturais, como eletrificação nos Estados Unidos e o setor aeroespacial, a casa tem apostado em tecnologia.

No último mês, as posições dos fundos multimercados da casa sofreram basicamente em dois temas, primeiro, na parte de equities no exterior, devido a uma correção nas bolsas, principalmente nos EUA, em setores mais ligados à tecnologia, e, segundamente, em posições long dólar, devido a um período com movimento de dólar mais fraco, mas a Kinea ainda acredita na força da economia dos EUA. “A gente acredita que o excepcionalismo norte-americano vai continuar. A nossa tese segue a mesma, não achamos que a atividade americana vai desacelerar tanto assim. Achamos que vai crescer mais do que o resto do mundo e, ao mesmo tempo, a história das tarifas vai acabar gerando uma inflação mais elevada lá”, comenta Alves.

A Kinea ainda aposta na tese de dólar forte, mas em menor escala. “Não achamos que vai ter um alívio relevante na inflação nos EUA e a tese do dólar forte permanece no posicionamento, só que hoje, dado o movimento, num tamanho menor. Assim como o posicionamento em equity também está em tamanho menor do que estava pela performance do fundo em fevereiro”, diz o gestor.

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A Kinea é tomada em juros nos Estados Unidos, no Japão e no Chile e aplicada em juros em outros três países: Suécia, República Tcheca e Reino Unido. Nas moedas, é comprada em dólar, principalmente, e vendida no renminbi, no real, na Coroa Sueca, e em Libra. Já teve uma posição maior vendida em euro, que ao longo do mês não deu certo, e foi reduzida, mas ainda vê um diferencial de crescimento da Europa em relação aos Estados Unidos diminuir.

Já a Armor Capital, gestora independente especializada em fundos multimercados, tem operado zerada na tese do excepcionalismo americano em bolsa e mexeu na posição dos fundos desde que Trump adotou uma postura mais dura. “Vemos um ambiente em que essa guerra tarifária está trazendo um risco de atividade econômica mais baixa nos EUA. Possivelmente esse dado de confiança vai bater nos dados de atividade, mercado de trabalho, em vários setores da economia”, acredita Paula Moreno, co-CIO da Armor Capital.

Paula Moreno, co-CIO da Armor Capital

A Armor vê um núcleo de inflação dos EUA em 2,8%, mas acredita em três cortes de juros no segundo semestre do ano. Para a asset, o choque na inflação devido às tarifas deve ser pontual e, apesar de não ser seu cenário base, cogita uma recessão no país. “É um ambiente em que você precisa estar aplicado em juros. Entramos esse ano, lá fora, aplicado em juro americano. Aproveitamos a abertura de taxa em janeiro, que o título de 10 anos chegou a 4,70%, e aplicamos”, conta Paula. A co-CIO diz que, ao todo, cerca de metade do risco dos fundos da casa estão em juros neste momento. A posição nos EUA, no entanto, já foi realizada.

No início do ano, a Armor estava em uma posição mais tática em dólar em seus multimercados, visto que o mercado estava muito comprado na moeda devido ao Trump, e que houve um movimento exagerado no final de 2024 em câmbio. A casa, que estava comprada em real devido à sazonalidade positiva do início do ano para a moeda brasileira por conta da exportação de grãos, mudou de posição após o republicano endurecer o tom sobre as tarifas. “A partir desse momento, ficamos um pouco mais defensivos na carteira, reflexo dessa posição aplicada em juros. Nos EUA, a gente veio aplicado nos 10 anos, só que fechou muito. Hoje, o juros nos Estados Unidos está 4,20% e a gente zerou”

A gestora, inclusive, também está zerada em posição em bolsa nos EUA. “A gente até veio levemente vendido no início do ano para proteger um pouco das outras posições aqui do Brasil. Hoje, estamos zerados”, diz Paula.

Cautela “em casa”

No Brasil, a Kinea tem operado em modo mais tático nos multimercados. É vendida no real crendo numa desaceleração, ainda que mais lenta, da economia, fora o peso do cenário político. A casa vê o IPCA em 6,30% no final deste ano e um câmbio a R$ 6, o que vai dificultar o trabalho do Banco Central e manter os juros em patamares mais altos. Com isso, no Brasil, a Kinea tem posição comprada em inflação implícita, expectativa de inflação futura embutida nas taxas de juros dos títulos de mercado com vencimento, para abril. Inclusive, aumentou marginalmente essa alocação, que carrega desde o ano passado

“Temos uma atividade desacelerando bem lentamente, inflação rodando acima do esperado, com expectativas de inflação desancoradas, então o BC vai subir juros para 15%, 15% e pouco. Com isso, operamos de maneira tática nos juros e gostamos do vendido no real, porque achamos que o cenário político daqui para frente vai ficar bem conturbado”, diz Alves, citando os esforços do governo para a eleição de 2026 e que o mercado tem colocado na conta uma possível intervenção do poder público nos preços. 

Os multimercados da Armor, por sua vez, estão aplicados em NTN-Bs intermediárias, mais especificamente NTN-B 30, a asset também gosta de estar aplicada em juro nominal de 2 anos e vê uma inflação de cerca de 5,50% no Brasil este ano. “Pegando a inflação implícita para cerca de um ano e três meses, em meados do ano que vem, está por volta de 5,90%. A gente está trabalhando com uma inflação para esse ano por volta de 5,5%, então, o mercado de implícita já está convergindo para o nosso patamar”, diz Paula. “O que temos feito para os nossos fundos, quando o mercado começa a colocar muitas altas de juros aqui no Brasil, a gente também aproveita para aplicar em juros nominal no Brasil.” 

A casa também está comprada em dólar. A explicação é que, olhando ciclos de risco de recessão nos EUA nos últimos anos, as moedas de emergentes, principalmente as que têm uma correlação forte com exportação como o Brasil, performam mal. “Temos como hedge uma posição comprada, dólar contra o real, dólar contra o peso mexicano, dólar contra a moeda chinesa. E gostamos de estar comprados em euro. Preferimos moedas de desenvolvidos”, diz a co-CIO da Armor.

Já na bolsa brasileira, a gestora ressalta a correção que ocorreu este ano por causa de um movimento de rotação do mercado e que ainda pode ter espaço para corrigir um pouco mais. “Já tínhamos essa visão, e achamos que a bolsa brasileira começa a ter valor. Sempre foi descontada, mas está mais. Nesse movimento de rotação, achamos que essa região de 123 mil pontos é uma região para adicionar um pouquinho de risco aqui”, diz Paula.

A Kinea, por sua vez, “pela desaceleração econômica e altas taxas de juros, com efeitos nas contas públicas brasileiras, dentro de um cenário político incerto, permanecemos vendidos na bolsa brasileira, embora em menor tamanho no momento, e taticamente vendidos na moeda”, mas tem posições em nomes como Embraer, Suzano, Weg, Sabesp, Marcopolo e Mercado Livre, segundo a carta do gestor.