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Gestores ampliam posição defensiva nos EUA e miram ativos em Europa e China

Érica Polo

Norberto Zaiet, CEO da Picea Value Investors, family office baseado em Nova York

As perdas em Wall Street nesta semana, mesmo com uma correção nesta quarta-feira (12), refletem a falta de confiança do mercado investidor diante de um Donald Trump que parece brincar de gato e rato com seus parceiros comerciais. O movimento evidencia gestores ampliando posição defensiva, reduzindo riscos, a qual ganhou fôlego ao longo de fevereiro. Neste momento, alocar em bolsa nos EUA tem muito menos a ver com os fundamentos de cada negócio do que com o risco e o custo de proteção das operações, que ganharam relevância.

“Não é mais sobre o fundamento das ações, virou uma coisa muito de fluxo. E aí a gente veio direcionando um pouco o canhão para outras geografias também, como forma de mitigar o risco dos portfólios”, comenta João Piccioni, CIO da Empiricus Gestão. “Nos mandatos multimercados, nós alocamos uma posição maior em Europa”, cita.


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Segundo gestores, o fluxo de recursos se moveu seja para a renda fixa americana ou rumo a outras geografias. EUA segue, claro, nos portfólios, mas gestores brasileiros que operam mundo afora fizeram movimentos rumo a bolsas europeias, euro, ETFs na China e passaram a observar os títulos públicos europeus com mais atenção – como os da Alemanha. Grécia, Colômbia, China, Brasil e até a Argentina, de Javier Milei, entraram na lista como opções a depender da casa – e do produto recomendado.  

“Ninguém estava muito preparado para o atual momento americano, o horizonte era azul na virada do ano. O mercado está surpreso”, resume Norberto Zaiet, CEO da Picea Value Investors, family office baseado em Nova York. O Wall Street Journal veiculou que o Goldman Sachs elevou a probabilidade de recessão de 15% para 20%, e o JPMorgan Chase ampliou o risco de 30%, projetado no início do ano, para 40%. Os gestores locais ainda não acreditam numa recessão americana, apesar do ambiente, disse Zaiet.

Em fevereiro, os principais indicadores americanos recuaram: Nasdaq caiu 2,76% (20.884); S&P, - 1,42% (5.954); e Dow Jones, - 1,58% (43.840). Nesse meio, os ETFs ativos, bastante alavancados, sofreram. As bolsas tiveram forte queda nos últimos dias, com o índice S&P 500 recuando mais de 8% em relação ao pico atingido há menos de três semanas. Somente na segunda (10), o Nasdaq despencou 4%, a maior queda diária desde 2022. Nesta quarta (12), contudo, Nasdaq e S&P corrigiram quedas, por conta de uma inflação mais contida em relação às expectativas. Enquanto isso, apenas em fevereiro, o Euro Stoxx 50 subiu 3,34% (5.463), indica relatório mais recente elaborado pelo Mirabaud Family Office. Apenas em março, até o dia 11, o euro ganhou 4,35% em relação ao dólar, cotado a US$ 1,087, segundo a consultoria Elos Ayta.

As incertezas levam a um redirecionamento automático do fluxo de capital, até porque os outros mercados ficaram para trás recentemente. “O redirecionamento para outras bolsas existe”, diz Renato Nobile, fundador da Buena Vista Capital. “Porém, se você pensar no médio prazo, o impacto, tanto para a economia real quanto para bolsas mundo afora, é negativo”, continua. O movimento de elevação das tarifas gera troco dos outros países, consequentemente uma pressão inflacionária e menor crescimento global. “Isso retira dinheiro das bolsas rumo a ativos mais seguros.”

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Piccioni, da Empiricus, acrescenta que, até o ano passado, havia oportunidade de investir em títulos públicos praticamente nos EUA. Contudo agora surgem opções para os gestores, como o título alemão. O papel tem sido considerado como uma possibilidade de alocação para a casa, ainda em estudo, e pode se tornar um ativo na cesta de diversificação do momento, junto com as bolsas europeia e chinesa, além do euro. Na China, as escolhas recaíram sobre ETFs com exposição ao setor tecnológico.  

“A Alemanha quer revitalizar toda sua parte de defesa e de infraestrutura. As taxas de juros na Alemanha, tradicionalmente, ao longo desses últimos anos, sempre foram mais baixas do que as dos demais países do bloco. Mas é o país mais forte, que nunca gasta dinheiro à toa, enfim, mais tecnológico, mais industrial, entre outras características que observamos”, disse o gestor da Empiricus. O título paga 2,80%, que se torna interessante aliado à valorização do euro.    

A Global X tem recomendado ETFs em China, Grécia, Colômbia, Brasil e inclusive Argentina. Em caso de recessão americana, o enfraquecimento do dólar é historicamente benéfico para os emergentes, comenta Flávio Vegas, especialista em produtos da Global X. “A Argentina passou de uma ideia contrária no ano passado para nossa principal aposta de momentum em 2025. O primeiro ano de Javier Milei lançou as bases para um crescimento sustentável”, opina.

Segundo ele, o ajuste fiscal no país foi o mais rápido e significativo em mais de três décadas, reduzindo o déficit de 4,9% do Produto Interno Bruto (PIB) para um superávit de 0,5%, eliminando o déficit pela primeira vez em 123 anos. Já Grécia e Colômbia são vistos como oportunidades únicas de valor em mercados emergentes. “Apesar de sua neutralidade geopolítica, do maior crescimento do PIB na Europa Ocidental, de um governo favorável ao mercado e de classificações de crédito com grau de investimento, o índice MSCI Grécia ainda negocia abaixo do valor contábil, oferecendo um sólido rendimento de dividendos de 7,48%. Já o índice MSCI Colômbia opera com múltiplos de 0,84 vezes o valor contábil e um rendimento de dividendos de 8,32%”, disse Vegas.

Em relação ao mercado chinês, ele vê vantagens competitivas em segmentos ligados à inteligência artificial, veículos elétricos e turismo, para citar alguns mais promissores. Vegas comenta que a China não quer mais ser apenas a fábrica de baixo custo do mundo, e o consumo doméstico pode se tornar o motor do crescimento econômico. “Sugerimos que os investidores sigam o conselho de Warren Buffett de ‘ser ganancioso quando os outros estão com medo’, e seguimos otimistas, embora de forma seletiva”, disse.

O consumo interno está alinhado com os interesses do governo chinês, que declarou em dezembro que a recuperação econômica por meio do consumo será uma prioridade, continua Vegas.

Para o especialista da Global X, o Brasil entra na lista. O gestor avalia que o pessimismo pode ter atingido o pico, abrindo espaço para uma recuperação no segundo semestre deste ano. Apesar do baixo desemprego, inflação controlada e PIB acima do esperado, a falta de disciplina fiscal tem pressionado o Banco Central, resultando em juros altos e migração de capital para títulos. “Isso pode representar uma oportunidade para adquirir empresas de qualidade a preços descontados”, disse.

Engasgos: tarifas e enxugamento rápido

Havia uma certa euforia com o modelo Trump 2.0 na virada do ano, devido à expectativa de um ambiente pró-negócios e setor privado, com reduzida regulamentação. A expectativa foi criada pelo próprio perfil do republicano após o primeiro mandato, quando ele costumeiramente olhava para o mercado de ações como um termômetro de sua popularidade. Os engasgos do mercado, contudo, ganharam força no mês passado com as idas e vidas da política tarifária – e o mercado financeiro, sabe-se, não gosta de incertezas.

Azedou à medida que as manchetes apresentavam os novos prazos para México e Canadá, setores da economia que entraram e saíram da listagem em poucos dias, e a condução do plano de governo americano (como a forma de enxugar a estrutura do governo federal). Assim, empresários e investidores passaram a buscar proteção em ativos mais seguros ou deixando dinheiro em caixa.

Os objetivos finais da administração de Trump, em si, são bem aceitos pelo mercado – no que diz respeito a negociar tarifas com parceiros comerciais, um movimento considerado natural quando conduzido com lógica; ou a enxugar a máquina, ampliando a força do setor privado. O ponto preocupante na visão do mercado local é a falta de clareza (ou lógica) para chegar a esses objetivos. “A sensação do empresário e do investidor é que ele não se sabe se poderá ser o próximo atingido”, finaliza Zaiet, da Picea Value Investors.