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Estímulos chineses se somam a Trump e reforçam apetite de gestores de recursos pelo país

Amanda Meneses

Eduardo Grübler, gestor Multimercados da AMW
Eduardo Grübler, gestor Multimercados da AMW

A China surpreendeu positivamente o mercado ao anunciar uma série de medidas para fomentar sua economia. Dessa vez, no entanto, além da injeção de capital em determinados setores, como visto outros momentos, o país assume uma postura de reformulação econômica e mudança de pensamento em relação ao consumo interno, que será o foco das iniciativas. O anúncio vem, inclusive, em meio a uma fuga de investidores dos Estados Unidos diante das incertezas e do vai e vem do mercado gerado por Trump, o que deve favorecer um movimento de investimentos na China. Os aportes devem mirar especialmente as techs, mas em menor volume e velocidade do que ocorreu recentemente, visto que esse movimento foi impulsionado por uma série de acontecimentos pontuais e simultâneos.

A China anunciou no domingo (16) um plano de ação para estimular o consumo interno do país. Não sendo chamado de “pacote de estímulos” pelo governo, o conjunto de medidas contempla iniciativas como desenvolver outros setores de serviços, incentivar os bancos a prover crédito aos consumidores, aumentar o programa de subsídios ao consumo e estímulos ao setor imobiliário. Outras ações como estímulo ao mercado de ações chinês também foram citadas, mas sem detalhes.

“Ainda faltam mais informações, mas a cobertura é que eles nem estão chamando de pacote. É um conjunto de iniciativas. Tem iniciativa para crédito ao consumidor, para moradia, para salário. É a primeira sinalização de incentivar o crescimento do mercado interno para ser a próxima alavanca no crescimento econômico chinês”, comenta Hudson Bessa, economista e especialista em Mercado Financeiro da FIPECAFI. 


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O especialista cita que isso mostra uma mudança de mentalidade do governo do país, muito conhecido por ser um grande produtor voltado para o mercado externo, mas que agora se volta ao interno. “É uma economia que cresceu olhando para fora. Esse modelo da China é muito alavancado no setor imobiliário e com uma indústria bancária que financia o que o governo quer que financie. Portanto, financia muita coisa de crédito duvidoso, que também é uma bombinha-relógio”, aponta Bessa, dizendo que o modelo exportador do país foi se esgotando ao longo do tempo e, com esses setores prestes a “estourar”, vem fazendo frequentes pacotes de estímulo à economia. 

O país já lançou algumas medidas desde a crise instaurada em seu setor imobiliário, que iniciou em 2021. A diferença, desta vez, é que, além das típicas injeções de capital em setores específicos como os citados, o governo tem mostrado mais preocupação com questões estruturais do país, olhando questões como salário, proteção social e aposentadoria. Ademais, o próprio governo tem evitado o termo “pacote”. “Uma parte é ‘mais do mesmo’, desenvolver outros setores de serviços, prover crédito. Parte do programa é esse, que é o que a China sempre faz. É crédito e estímulo à oferta. A parte nova é começar a estudar um programa de suporte de renda mais profundo, que vai envolver benefícios sociais, regras melhores de salário mínimo, algum tipo de suporte de renda para as pessoas do meio rural, coisas nesse sentido”, aponta André Diniz, economista-chefe da Kinea.

Segundo o economista, isso é importante porque começa a sinalizar que o governo está virando a forma de pensar a economia. “Tem um impacto de curto prazo importante? Acho que não, que é um impacto muito limitado no curto prazo. Mas se a direção começar a ser essa, no médio prazo começa a trabalhar isso e a transacionar a economia da China”, diz.

Além de mirar problemas estruturais do país, as medidas vieram em boa hora devido à guerra comercial iniciada por Trump, o que especialistas acreditam ter sido um dos pivôs da iniciativa chinesa. Embora as injeções de capital e a sinalização de mudança de postura da China sejam positivas, os impactos maiores devem vir com o tempo. Mas isso foi o bastante para o mercado reagir positivamente. No dia seguinte ao anúncio (17), as bolsas asiáticas operaram com viés positivo e impulsionaram alguns ativos, incluindo os brasileiros. Otimismo gerado tanto pela falta de boas notícias no mercado ultimamente quanto pela possibilidade de uma aliança entre a China e outros locais, como a Europa, diante das tarifas de Trump, segundo Bessa, da FIPECAFI.

“Já vemos mudanças estruturais importantes no mercado chinês desde o segundo semestre do ano passado, com um direcionamento claro para melhoria no acesso para o mercado financeiro tanto pelos investidores domésticos quanto para o estrangeiro que quer se expor na região”, disse Eduardo Grübler, gestor Multimercados da AMW, asset da Warren Investimentos.

“De fato, vimos uma boa dinâmica recente nos mercados internacionais, os investidores voltando a colocar dinheiro em China, em parte por conta das questões associadas à menor pressão do governo mesmo em relação às big techs chinesas, meio que trouxe um alívio para os investidores em geral”, pontua João Piccioni, CIO da Empiricus Gestão, ressaltando que esse foi o maior pivô do otimismo no último mês, mas que o pacote de estímulo, de certa forma, também guarda um pouco de otimismo.

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Impactos ao Brasil

Se a China crescer em mercado interno, talvez haja uma necessidade maior de produzir para esse público, fazendo com que ela importe mais esses produtos do Brasil, o que pode favorecer commodities brasileiras, lembra Bessa, da FIPECAFI. 

Grübler, da AMW, vê para os ativos brasileiros oportunidades além das clássicas, como as ações de empresas beneficiadas pela demanda gerada pelo imobiliário chinês. “Além de construção civil, sempre lembrada quando falamos de China, um maior reconhecimento do maior dos mercados emergentes traz mais atenção para os demais, como o Brasil, e possibilita um nível de normalização de múltiplos, o que seria muito positivo para nós, dado que por este tipo de métrica estamos muito defasados em relação aos mercados desenvolvidos”, opina. “Ou seja, vemos isso positivo para todos os ativos brasileiros, e não apenas um ou outro setor.”

Já Diniz, da Kinea, é mais cético em relação à extrapolação dos estímulos chineses para o Brasil, justamente por essa mudança de perfil da economia para o mercado interno. “Era óbvio que quando a China revivia a sua economia puxando a construção, isso tinha um transbordamento de demanda para o Brasil, que puxava Vale, siderúrgicas. Agora, o que a gente tem visto é um setor imobiliário em correção”, comenta, ponderando que pode ter algum transbordamento para o mercado de ações. “Mas a melhora da bolsa chinesa recente está muito mais concentrada no setor de tecnologia do que nessa parte relacionada ao setor imobiliário, à indústria.”

Piccioni, da Empiricus, também prefere ficar de fora e acredita que não vai haver um impulso forte como já visto em outros momentos nesses segmentos de imobiliário e de aço.

Nova alternativa

Para os especialistas, inclusive, a China tem se tornado cada vez mais um mercado viável em alternativa ao vai e vem dos EUA. A grande discussão agora é se toda essa incerteza econômica e institucional do país norte-americano vai mudar uma tendência que foi muito sólida na última década, que era “o mundo é fraco fora dos Estados Unidos”, lembra Diniz. 

Com a China, os investidores passaram a ver, especialmente, que há um setor de tecnologia que parece tão bom quanto o norte-americano e muito mais barato, o que está chamando atenção, algo comprovado pelo “evento DeepSeek”. A expectativa é de que os investimentos migrem, em parte, para o país, bem como para a Europa, mas em menor velocidade que no último mês, que foi marcado por muitos eventos, e não deve, obviamente, caracterizar uma migração completa para esses mercados em detrimento dos EUA. “Será que eu não deveria equilibrar um pouco mais o fluxo de capitais? Foi isso que aconteceu nos últimos meses. Isso vai ser perene na mesma velocidade? Acho que não. Os movimentos de mercado têm alguns momentos mais fortes e depois estabilizam em torno de tendências”, pondera o economista da Kinea, dizendo que o mercado pode olhar com “um pouco mais de carinho” para a China agora, especialmente para o setor tecnológico. 

A visão é compartilhada pela AMW, que acredita que o mercado está olhando mais para o resto do mundo, apesar da “grande exuberância do mercado americano desde 2008”. “O momento de volatilidade na política econômica vem se mostrando um gatilho importante para uma maior diversificação global, reduzindo os riscos de concentração que vinham se fazendo presentes”, disse o gestor. 

A Kinea e a AMW, inclusive, observam o mercado chinês há algum tempo e aumentaram posições recentemente. A AMW olha a China como movimento tático há alguns anos e, em setembro, montou posição estrutural no país, em boa parte no setor de tecnologia, onde vê uma reprecificação mais dinâmica. “E nossos próximos passos estão indo na direção de fortalecimento do consumo interno”, conta o gestor da casa, sem dar detalhes.

Já a Kinea, que também tem posições em tecnologia na China, acredita que esse setor, de fato, é bastante dinâmico, com muita disciplina das empresas e com um governo que coloca muito incentivo, o que não significa que seja otimista com a economia do país como um todo. “Então, gostamos de vender o yuan chinês. Achamos que é uma válvula de escape. Tem uma economia que ainda tem muita dificuldade de se sustentar, precisa de uma taxa de juros baixa porque está passando por uma reestruturação geral de dívida do setor privado e do setor público e que vai enfrentar provavelmente anos, meses de disputa comercial com os Estados Unidos, que não é só tarifa”, explica Diniz, lembrando que a bolsa chinesa também é difícil de operar, especialmente para quem está “de fora” do país. A casa veio aumentando suas posições na China especialmente este ano.

“Do nosso lado, montamos algumas posições em China já faz algum tempo. Discutimos muito isso, por exemplo, a posição em BYD, a grande empresa do ramo de veículos elétricos, mas também montamos algumas posições associadas, ligadas ao setor de consumo e quando olhamos para a China, é aquele consumo também focado em buscar o restante do mundo, exportadoras chinesas, empresas de comércio que acabam, de certa forma, sendo favorecidas pelo comércio global”, comenta Piccioni, da Empiricus. 

A gestora também esteve de olho em Pinduoduo, outro case que passou a fazer parte de seus portfólios. “Quando olhamos para o mercado chinês é um mercado que tem sido negociado com um desconto bastante grande em relação aos demais mercados globais e isso, de certa forma, traz um conforto, um conforto de valuation”, complementa, dizendo que, sob a ótica de investimentos, é uma oportunidade e os investidores estão se sentindo um pouco mais seguros sobre essa ótica de que o presidente do país, Xi Jinping, vai estar mais pareado com os investidores de forma geral.