Wall Street vive frenesi criativo para adaptar-se à era Trump, mas gestoras brasileiras adotam cautela

As políticas tarifárias do presidente americano Donald Trump têm deixado os gestores mais “nervosos” em Wall Street, com uma sensação de “inevitabilidade do risco”. Observada a renda variável, o contexto de grau elevado de incertezas já resultou em um rol de novas carteiras de ações estruturadas por gestoras americanas. Elas contêm papéis variados, com o fim de equilibrar os ganhos diante da guerra comercial construída pelo republicano, contou uma reportagem do Financial Times (FT) no início de fevereiro. Diante do cenário, e em um momento que os brasileiros têm mais apetite pelas bolsas americanas (incluindo os superconservadores fundos de pensão), a Faria Lima age, ainda, com cautela. O momento é de observar quais das políticas econômicas anunciadas serão, de fato, regra, disseram gestores consultados pela Capital Aberto.
Gestores americanos vêm elaborando carteiras de ações com maior sensibilidade aos planos de Trump, disse o FT. Elas listam, por exemplo, companhias exportadoras, como automobilísticas e empresas de bens de consumo. Isso possibilita aos clientes dessas gestoras americanas a apostarem no impacto de uma guerra comercial, em diferentes ações. Observa-se, inclusive, um indicador do UBS batizado ‘Trump Tariff Losers’ – papéis da Harley-Davidson e Gap integram a cesta – o qual rastreia o desempenho ações dos EUA expostas negativamente a essas tarifas.
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Toda essa efervescência, contudo, ainda não bateu nos indicadores que mensuram a volatilidade – medida pelo VIX para as ações nos EUA. “Os indicadores ainda estão relativamente bem comportados”, afirma Rodrigo Sgavioli, head de alocação da XP. A bolsa americana andou bem em janeiro, depois de sofrer um pouco no começo do ano. “Mas o apetite do investidor continuou bastante elevado. Em dólares, vimos tanto Nasdaq quanto S&P atingirem novas máximas”, ressalta João Piccioni, CIO da Empiricus Gestão.
O mercado, ademais, ainda está bastante preocupado com a questão dos juros de longo prazo nos EUA que, de certa forma, “bate” em todo o ambiente econômico. “O que me parece que, de fato, aumentou nos mercados é o grau de incerteza. E incerteza é algo que você não consegue mensurar”, complementa o head da XP, sobre as bolsas. Para ele, é preciso tomar um pouco de cuidado com as reações “exageradas” a fatos que ainda são “efêmeros”.
As incertezas resultam de um plano de tarifas que vem sendo implementado sem clareza e lógica e, por isso, não mensurável ainda. Há aleatoriedade nas definições do governo americano, com tarifas impostas primeiro a alguns países (China, Canadá e México), depois a setores (aço e alumínio), voltando a países (as tarifas de reciprocidade, no último dia 13) – e com a possibilidade de renegociações no cenário, a exemplo do adiamento em um mês da aplicação das tarifas a México e Canadá. Essa dinâmica torna “muito difícil” mensurar, neste momento, os reais impactos das decisões do governo americano.
Enquanto esses anúncios não se tornarem efetivos como “riscos mensuráveis”, para os quais é possível atribuir probabilidades e, inclusive, prêmios de risco, talvez o cenário ainda seja de um mercado “bastante inquieto”.
Volatilidade pode gerar boas oportunidades temáticas, em especial para estratégias que capturam estes movimentos de curto prazo, como Long&Short, pondera Rodrigo Santoro, head de renda variável da Bradesco Asset. “Como discutimos sobre a dificuldade de visibilidade do cenário atual e seus impactos, a estratégia das carteiras globais está direcionada para aguardar uma confirmação mais clara das medidas econômicas adotadas pelos EUA para se posicionar.”

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Os gestores consultados observam ainda que, neste momento, qualquer reação de empresários ou dos mercados aos primeiros anúncios tarifários podem ser exageradas. Falta convicção, entre muitos deles, sobre a real implementação da política econômica de Trump. As tarifas de reciprocidade, por exemplo, são um modo de sentar com os países para negociar.
“As empresas americanas são as maiores e mais lucrativas do mundo e, com isso, têm uma capacidade enorme de investimento e de se reinventar”, avalia Flávio Vegas, especialista em produtos da Global X. Vegas ressalta que, apesar da turbulência recente que resulta da troca de governo, a bolsa americana sempre “subiu” à parte do governo da vez. “Portanto, se torna uma alocação muito segura em longo prazo”, disse o especialista.
Ganhos mais claros: financeiro e tecnologia
Apesar da temperatura em Wall Street, as expectativas ainda são positivas para o mercado de ações no curto prazo, devido à confiança na economia americana e as promessas de desregulamentação de grandes setores, como financeiro e tecnologia. Esses dois segmentos, além da cadeia de petróleo, prometem bons ganhos por enquanto.
“Temos foco nos setores mais representativos, como tecnologia, que, entendemos, deve continuar atrativo, e o setor financeiro”, exemplifica Fabio Zaclis, gestor de fundos macro e renda fixa da Daycoval Asset. A gestora tem um produto que aloca diretamente em companhias americanas – 130 empresas dos EUA e 20 de outros países.
Na visão do Santander, as grandes empresas de tecnologia contam com modelos de negócio qualitativamente superiores e que, por possuírem vantagens de escala, efeitos de rede e, portanto, custos marginais decrescentes, conseguem obter retornos sobre o capital investido acima do custo de capital.
“Talvez mais importante, esse grupo de empresas possui oportunidades significativas de reinvestimento em grandes segmentos, como cloud computing, semicondutores, publicidade digital, entre outros”, disse Guilherme Bellizzi, estrategista de BDRs do Santander. O desenvolvimento das tecnologias de inteligência artificial generativa ainda está em estágios embrionários e os investidores ainda subestimam suas implicações de longo prazo.
Piccioni, da Empiricus, também avalia favoravelmente o ecossistema ligado aos data centers e à transição da era da internet para a da inteligência artificial. “As big techs provavelmente não vão ser as empresas que trarão maiores retornos para os acionistas neste ano. Provavelmente vamos ver uma segunda camada desse setor de tecnologia e energia andando melhor e surpreendendo o mercado.”
Bolsas na China, Europa e emergentes
Paralelamente ao agito que se observa nos EUA, outras bolsas têm despontado como interesse. Em análises recentes, o Bank of America (BofA) evidenciou postura que se inclina favoravelmente para ações internacionais, particularmente àquelas na Europa, China e mercados emergentes nos próximos anos. O banco cita avaliações cambiais atraentes e riscos geopolíticos reduzidos como alguns impulsionadores.
“Permanecemos seletivamente otimistas em relação a segmentos do mercado acionário chinês, especificamente no setor de consumo. Vemos o consumo na China claramente alinhado aos interesses do Partido Comunista Chinês (PCC). Em dezembro, ouvimos autoridades afirmarem que a mudança do foco da política econômica para o consumo, a fim de impulsionar a recuperação econômica, seria uma prioridade”, disse Vegas, da Global X. “A China não quer mais ser a fábrica de baixo custo do mundo”, continua. Segundo ele, os gastos governamentais não podem durar para sempre e o consumo doméstico pode ser o motor do crescimento econômico chinês no futuro. “Dentro do setor de consumo discricionário, encontramos exposição a áreas em que a China tem vantagens competitivas, como internet e inteligência artificial, veículos elétricos, turismo, hotelaria e mais”, finaliza Vegas.


