Tarifa recíproca dos EUA pode afetar etanol, mas ações de usinas listadas descolam da política

Poucos dias após o anúncio da Casa Branca sobre a política de tarifas recíprocas a países do governo de Donald Trump, o qual ocorreu na última quinta (13) – e poderá afetar o etanol brasileiro –, as ações das principais usinas negociadas na B3 ainda não viram refletido em seu preço um possível impacto da política na visão de especialistas. Ao contrário, nesta terça (17), uma baixa da curva de juros futuros (barateando um pouco a dívida da alavancada Raízen) e a notícia de oferta pela compra do controle da multinacional Adecoagro pela Tether acabaram puxando as ações do setor ao longo do dia.
Analistas consultados pela Capital Aberto, contudo, avaliam que há espaço para que as prováveis tarifas dos EUA tragam alguma volatilidade aos papéis de usinas futuramente. A administração Trump promete a conclusão de estudos de impacto setoriais até abril. Ontem, as ações da Raízen, maior produtora brasileira controlada pela Cosan, fecharam a R$ 1,84, alta de 4% em comparação ao fechamento de sexta (14). São Martinho e Jalles Machado, nesta ordem, marcaram R$ 23,19 e R$ 4,69, com avanços de 6% e 8%, nesta ordem, cálculo com base em dados da consultoria Elos Ayta.
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Mas, sendo os dois países os destaques em produção de etanol no mundo, por que a notícia desfavorável ao Brasil parece não ter causado tanto efeito? Por ora, ao menos, há ainda um entendimento no mercado brasileiro de que os EUA apresentaram um “chamado a negociar” bilateral aos países. Além disso, há leitura de que o impacto não seria tão significativo para o etanol, mesmo que o mercado americano seja um importante destino para o produto.
O complexo sucroalcooleiro (onde entra o etanol) é o quinto da lista exportadora do agro brasileiro para os EUA, encabeçada por produtos florestais e café, indicam dados do Ministério da Agricultura. Se observado apenas o combustível, relatório do UBS BB destaca que os EUA foram o segundo destino para o produto em 2024, e ficaram com 16% (ou 305 mil metros cúbicos) do volume embarcado pelos brasileiros. Isso representa 1% da produção nacional. O maior comprador foi a Coreia do Sul, com 41% do total exportado (ou 771 mil metros cúbicos). Ademais, os EUA são superavitários quando considerada a balança comercial total com o Brasil, o que pode trazer fôlego para negociações.
Em uma primeira leitura a respeito, os analistas que assinaram o relatório do UBS BB enxergam “impactos limitados” da política tarifária para os produtores brasileiros. “Por outro lado, se as tarifas de importação de etanol do Brasil fossem suspensas, poderíamos ver alguma entrada de produto, mas com impacto [também] limitado nos preços domésticos”, escreveram os analistas do banco, Matheus Enfeldt, Tasso Vanconcellos e Victor Modanese.

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Ainda assim, na sexta-feira passada (14) – dia seguinte ao anúncio feito pelo governo americano –, as ações da Raízen chegaram a recuar cerca de 3% ao final do pregão, disse João Abdouni, analista da Levante Inside Corp. Não é evidente se essa baixa já precificou o efeito da política americana, visto que a companhia passa por um momento turbulento – e outros fatores têm mais peso agora –, disse. A companhia acabou de divulgar um prejuízo de R$ 2,6 bilhões no terceiro trimestre da safra 2024/2025 e reforçou plano para redução de custos e recuperação de caixa. No final do ano passado, os controladores iniciaram um movimento de mudança na gestão.
“O movimento [impacto de tarifas americanas às exportações brasileiras de etanol], ainda que em menor dosagem, deve acontecer, pois o documento divulgado cita diretamente o produto brasileiro. Deve afetar, ainda que marginalmente, as vendas da Raízen”, continua Abdouni. A controlada da Cosan já vem sofrendo impactos por diferentes problemas. Além da alavancagem (de 3 vezes a relação dívida líquida/Ebitda, com dívida que ronda R$ 38 bilhões), há ainda as queimadas do Centro-Sul afetando a atividade. Mesmo que o impacto possa ser pequeno, o anúncio da tarifação é mais uma notícia negativa no contexto, avaliam analistas.
“A política de tarifas poderá impactar as ações [das principais usinas brasileiras], mas acredito que ninguém está incorporando uma possibilidade de redução de receitas ou de margens neste momento”, reforça Marco Saravalle, sócio e CIO da MSX Invest. “Não acredito que o mercado seja volátil a isso no curto prazo”. Para ele, os papeis agora sofrem maior impacto relacionado a volume de produção e preço.
Saravalle acrescenta que o debate que envolve o comércio exterior de etanol entre os dois países “deve ir muito além” de tarifação. O mercado americano tem potencial para os brasileiros e o comércio poderia ser “muito maior”, já que as usinas do Brasil são “eficientes, rentáveis e trazem impacto mais positivo para o clima em comparação à produção nos EUA”. “Por essa razão, o debate do tema não se restringe a reciprocidade de tarifas”, continua o CIO da MSX Invest.
Ainda na visão dos especialistas, a Raízen tem lição de casa para fazer e, a princípio, está mostrando potencial para se recuperar. “Grande parte disso passa por estrutura de capital e, consequentemente, a taxa de juros também tem sido decisiva para o desempenho das ações em bolsa”, continua Saravalle.
Lobby nos EUA
O comunicado oficial americano sobre “comércio justo” e que busca estabelecer tarifas recíprocas de comercialização entre os EUA e os outros países do mundo destacou o etanol brasileiro. Logo no topo, entre os exemplos do comércio injusto para a administração Trump, o texto destaca que a tarifa dos EUA sobre o etanol é de “apenas 2,5%” e que o Brasil cobra, por sua vez, 18%.
“Como resultado, em 2024, os EUA importaram mais de US$ 200 milhões em etanol do Brasil, enquanto os EUA exportaram apenas US$ 52 milhões em etanol para o Brasil”, diz o texto oficial. O documento do governo americano deixa transparecer, ainda, que pode cobrar tarifas de outros produtos do agro. “A tarifa média dos EUA aplicada à Nação Mais Favorecida (NMF) sobre produtos agrícolas é de 5%”.
A Casa Branca publicou também em seu site uma série de comentários de associações produtoras locais que evidenciam a força do lobby internamente. “Por quase uma década, gastamos tempo e recursos preciosos lutando contra um regime tarifário injusto e injustificado imposto pelo governo brasileiro às importações de etanol dos EUA”, diz nota da Renewable Fuels Association (RFA) replicada pelo site do governo americano.
O memorando sobre “comércio justo” foi enviado pela Casa Branca a outros órgãos governamentais, para que investiguem os impactos do “comércio não recíproco”. O secretário de comércio dos EUA, Howard Lutnick, disse as avaliações devem estar prontas antes de 1º de abril, rememora o relatório do UBS BB.


