Institucionais reforçam compra de debêntures via fundo e reduzem estratégia buy and hold

O último ano foi o melhor da série histórica para os títulos queridinhos do crédito, as debêntures. Apesar da bonança de novas emissões e na negociação no mercado secundário, houve uma redução na fatia de participação direta por parte dos investidores institucionais. Boa parte das subscrições ficou a cargo dos fundos de investimentos, com 51,3% do total das debêntures corporativas. Na direção contrária, a participação dos institucionais caiu de 10,6%, em 2023, para 6,2% em 2024, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Em relação às incentivadas também houve redução quando se observa esse perfil: o percentual em 2024, dos institucionais, foi de 4,7%, contra 8,7% em 2023.
A explicação pode ser encontrada em 2023, ano atípico com problemas no mercado de crédito. Com uma saída maciça de investidores, avessos ao risco maior, a participação relativa dos institucionais aumentou. No ano passado, houve um movimento de “normalização” do mercado. Além disso, os institucionais reforçaram a colocação de recursos via fundos de investimento, e não diretamente nas debêntures.
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Ainda que em valores nominais os investidores institucionais tenham aumentado sua alocação nas debêntures em 2024, somando R$ 27,1 bilhões, contra R$ 23,7 bilhões em 2023, em porcentagem, essa participação diminuiu. O motivo, segundo Marcel Andrade, head de Investment Solutions da SulAmérica Investimentos, é que os investidores institucionais passaram a alocar mais via fundos de investimento, e não diretamente.
Parte significativa da alocação em crédito privado era feita na forma que o mercado costuma chamar de buy and hold, ou seja, os ativos eram comprados e levados até o vencimento. “Porém, o desenvolvimento e amadurecimento do mercado de crédito privado local nos últimos anos deixou mais evidente o valor gerado pelas negociações no mercado secundário, que passaram a trazer ganhos importantes para a carteira dos investidores”, comenta Andrade.

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Esse movimento, complementa o executivo da SulAmérica, é mais amplamente realizado por meio de gestores especializados que acompanham o mercado diariamente e têm relacionamento próximo com corretoras e bancos de investimento. “Portanto, a terceirização da alocação por meio de fundos de investimento em gestores com grande expertise no mercado cresceu, dando ainda mais dinamismo e agregando valor para os investidores institucionais”, diz.
Na categoria da Anbima "demais investidores institucionais" entram, por exemplo, tesourarias não coordenadoras das ofertas, seguradoras e entidades como fundos de pensão. Boa parte dessa diminuição da participação na subscrição em debêntures veio das entidades de previdência privada e, em parte, de demais instituições financeiras e “outros”. O motivo, segundo Cristiano Cury, coordenador da comissão de renda fixa da Anbima, é que em 2023, com eventos de Americanas e Light, o mercado ficou mais fechado e em 2024 começou a normalizar.
“Em termos de volume, 2024 foi até maior que 2023, porque o mercado cresceu 100%. Mas em termos de representatividade, não. Em 2023 foi maior a participação de institucionais. Ano passado, foi um ano muito forte. Acaba que o mercado é ligado também com os fundos de investimento, principais tomadores de papel”, explica Cury.
Historicamente, a participação de institucionais em debêntures costuma ficar entre 5% e 6% do total, segundo o executivo da Anbima. Em 2023, esse percentual foi para 10,6%. Já em 2024, desceu para 6,2%. O fator que puxou a queda da subscrição, especialmente a menor participação das entidades de previdência privada, os fundos de pensão, foi o juro alto. Apesar de também gerar demanda no crédito, há uma competição entre títulos como debêntures e NTN-Bs.
“Falando principalmente de fundo de pensão, basicamente são dois fatores, 85% é o juro alto e outros 15% é outro motivo. Quando ele tem uma oportunidade de comprar uma NTN-B a IPCA+7,5% como ele tem hoje, se ele comprar uma NTN-B35, ele está comprando a IPCA+7,70%. Ou seja, está batendo com folga a meta atuarial dele”, comenta Cury.
Os outros 15%, segundo o executivo, referem-se a uma cautela na alocação, uma vez que, se houver algum problema, principalmente com governança, quem responde é o dirigente da fundação. Mas o grande ponto, segundo o executivo da Anbima, é o custo de oportunidade no título público. “Não vejo motivo, incentivo para essa diversificação”, diz, Cury.
Para o executivo da Anbima, não há muito motivo pelo qual essa classe de investidores volte a entrar no crédito fortemente, “infelizmente, porque é um cara que tem um passivo longo, e poderia ser um bolso importante para financiamento de longo prazo”, comenta. “Vemos alguns movimentos pontuais, mas via gestores. Às vezes, um ou outro, fazendo processo seletivo de fundos de crédito, contratando gestores, porque, de alguma maneira, ele blinda esses 15%. Não é ele direto comprando o papel, mas comprando o fundo gerido por uma entidade grande, regulada”.


