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Papéis de aéreas reagem, mas horizonte macro pressiona custo das companhias

Érica Polo

Ygor Bastos, analista de aéreas da Genial Investimentos
Ygor Bastos, analista de aéreas da Genial Investimentos

Os papéis das aéreas brasileiras – Gol e Azul – reagiram neste início de ano, mas falta visibilidade para o horizonte de desempenho das operações nos próximos meses. Os acordos anunciados recentemente com o governo federal para reduzir dívidas tributárias, em patamares com descontos próximos a 40%, contribuíram para os ganhos nos papéis. Mas essas operações, ainda endividadas, terão de provar sua resiliência num cenário econômico mais desafiador.

Entre o primeiro pregão do ano e o fechamento da sexta passada (10), as ações da Azul ganharam 14%, e chegaram a R$ 4,14. Já a Gol valorizou 16% no mesmo período, para R$ 1,59. Os dados são da consultoria Elos Ayta. Nesta segunda-feira (13), os papéis recuaram um pouco, para R$ 4,11 e R$ 1,57, nessa ordem, mas ainda mantiveram altas superiores a 13% desde o início do ano. Como as ações estão a preços muito baixos, qualquer variação desperta atenções. E, ao menos por enquanto, o episódio de ganhos dos papéis parece trazer mais perguntas do que respostas.  


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“As notícias sobre a renegociação dos passivos e a possibilidade de fusão têm dado um fôlego extra [aos papéis das aéreas]. Mas a grande questão é: será que isso é um movimento estrutural?”, questiona o analista de aéreas da Genial Investimentos, Ygor Bastos.

Mais do que especulações em torno de uma possível fusão entre as duas aéreas, que circularam novamente neste início de ano, será preciso observar o efeito do cenário macroeconômico para as operações, dizem os analistas consultados pela Capital Aberto. Vale lembrar que as aéreas têm boa parte dos custos em dólar e a receita em reais.

“A questão de resolver o endividamento é ótima, a foto é boa. Mas o filme ainda é ruim”, comenta Enrico Cozzolino, sócio e head de análises da Levante Investimentos. O “filme” nada mais é que o desempenho setorial em médio e longo prazos. Cozzolino cita, como exemplo, que o querosene de aviação representa 40% do custo nessas empresas, e é dolarizado. “Tem uma questão macro muito importante. Não se trata de boa ou má gestão pura e simplesmente. Não é uma questão [apenas] micro”, segue o especialista da Levante.

O potencial aumento nos preços do combustível de aviação é um dos maiores desafios para o setor neste ano, segundo o relatório do Santander, assinado pelos analistas Lucas Barbosa, Lucas Esteves e Gabriel Tinem. A guerra entre Rússia e Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio, caso se intensifiquem, podem afetar os preços do petróleo. Um boletim da Ourominas, divulgado nesta segunda (13), lembra que os EUA acabam de soltar “um pacote recorde” de sanções destinado à Rússia – o qual já afetou o setor de petróleo e gás.

Felipe Sant´Anna, especialista em investimentos da mesa proprietária Star Desk, complementa que só enxerga melhoria para o setor aéreo se o governo federal contribuir com ações para além das que foram levadas a cabo recentemente – entre elas, os debates que geraram descontos de dívidas com o Fisco. “Vejo um dólar alto em 2025, o governo gastando muito e empurrando a taxa de juros para cima e prejudicando, na parte econômica, o setor aéreo”, continua.

Na pauta do governo federal estão o estímulo a aeroportos regionais (foi feito um anúncio de R$ 6 bilhões em meados de 2024 para esse fim) e havia a ideia de atrair companhias de baixo custo para estimular a competitividade no mercado interno.  

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Por ora, para que o efeito da alta dos papéis destes primeiros pregões do ano não se perca, seria importante que a bolsa [B3], de modo geral, não se contaminasse por nenhum outro motivo negativo. Isso poderia levar os investidores a realizarem lucros.

Dólar e petróleo

No capítulo macro especificamente, dois pontos são relevantes para as aéreas: como evoluirão os preços do petróleo – a commodity vive em um novo movimento de alta – e a cotação do dólar, ainda em patamar que supera R$ 6. Boa parte dos economistas estima que os preços do petróleo e a cotação do dólar não devem seguir ‘comportados’, ao menos a visão é esta por ora, adiciona Bastos, da Genial.

“E esse pessimismo está no preço. Caso [o cenário macro mais pessimista] não se concretize, aí existe um potencial para as ações andarem”, diz o analista. Bastos complementa que a visão mais otimista não é o “cenário base de ninguém”. É pela falta desse olhar que os papéis estão oscilando a partir de notícias pontuais.

A redução de passivos por conta das renegociações com o Fisco (os descontos chegaram perto de um patamar de 40%), para ambas as companhias, é um dos fatores que explicam o impulso dos papéis nos primeiros pregões da B3 em 2025. Mais uma causa que ainda traz reflexos para as ações, dizem os analistas, foi o forte desempenho operacional das aéreas no quarto trimestre de 2024.

“A gente viu o setor com um nível de demanda bem robusto e isso também ajuda. Mesmo com o cenário de custos altamente estressado, o consumidor na ponta tem se mostrado receptível ao repasse de preço”, disse o analista da Genial. Segundo ele, não é o mesmo quadro visto no final de 2023, mas ainda assim houve alta do ganho por quilômetro voado por passageiro.

Ainda no campo macroeconômico, mesmo em um nível alto, o dólar não repetiu a escalada vista no final do ano passado.

Apesar do cenário macro – e reforçando uma visão cautelosa para o setor de aéreas –, os analistas do Santander disseram, sobre a Azul, que esperam geração de receita 17% maior e ebtida (lucro antes de juros e amortização de impostos) 21% para este ano, em comparação a 2024, devido sobretudo ao aumento de volumes e preços das passagens. O relatório mais recente é de 3 de dezembro do ano passado.

Fusão e ganhos

As especulações em torno de uma possível fusão entre Azul e Gol voltaram a circular na semana passada, mas o negócio ainda dependeria da saída da Gol do processo de RJ – batizado Chapter 11 –, prevista para abril.

Em um comunicado ao mercado divulgado na sexta-feira (10), a Azul reiterou que as discussões mantidas com a Abra, controladora da Gol, para explorar potenciais oportunidades de negócios seguem.

“No entanto, a companhia reitera que, até o presente momento, não foi celebrado ou formalizado qualquer acordo, vinculante ou não, de qualquer natureza, sobre operação de parceria ou combinação de negócios junto à Gol ou seus acionistas controladores além do acordo de codeshare [compartilhamento de voos] já devidamente divulgado”, diz a nota.

Embora uma possível fusão já estivesse, em parte, precificada, desta vez circulou boataria sobre a assinatura de um memorando de entendimento, ou seja, de que lideranças discutiriam, de fato, uma fusão. “É uma informação nova. Mostra que, realmente, estão próximas a chegar a um acordo. Antes, as duas companhias haviam citado que estavam olhando oportunidades de consolidação no setor”, disse Bastos, da Genial.

Há ainda um certo ceticismo entre agentes de mercado sobre a viabilização do negócio, visto que a Abra, controladora da Gol, teria cerca de 60% do mercado brasileiro caso ocorresse uma fusão, comentam os analistas.

À parte dos rumores sobre a fusão, Sant’Anna, da Star Desk, acredita que as ações da Gol podem subir até 50% num curto prazo apenas com a concretização da saída da aérea da RJ. “Mesmo convertendo parte da dívida em capital acionário, trazendo esses credores para dentro da empresa, pode ser uma bela notícia para os acionistas da Gol”, comenta.

Dívida com o Fisco

Nos primeiros dias deste ano, Gol e Azul anunciaram a realização de acordos de renegociação de dívidas tributárias, realizados com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e a Secretaria Especial da Receita Federal.

“O valor total dos débitos renegociados no acordo é de cerca de R$ 2,9 bilhões, sendo que tal valor será deduzido em mais de R$ 1,8 bilhão ante a conversão de depósitos judiciais, utilização de prejuízos fiscais e efetivas reduções no valor dos juros, multas e encargos referentes aos créditos tributários”, informou a Azul por meio de comunicado.

A Gol informou o parcelamento de débitos previdenciários e não previdenciários, estimado em aproximadamente R$ 5,5 bilhões, assim como a aplicação de descontos sobre multas, juros e encargos na forma da legislação, e a possibilidade de abatimento de parte do saldo devedor com prejuízo fiscal e base de cálculo negativa de CSLL.