Na expectativa por melhores safras, fundos de Venture Capital captam recursos e diversificam atuação

O ano de 2024 para os fundos de Venture Capital (VC) no Brasil passou longe da retomada desejada pelo setor, mas ainda assim o desempenho foi melhor do que 2023 e sinaliza, na versão dos gestores, a retomada de um caminho sustentável de crescimento. Com o valuation das candidatas a investidas ainda fora da realidade, após a excessiva liquidez nos mercados entre 2021/2022, o retorno das operações de VC ocorre de forma mais tímida do que o projetado. O juro em alta, que reduz o apetite dos investidores em assumir riscos, e a menor agressividade dos gestores na busca por startups explicam a velocidade de retomada.
O relatório Inside Venture Capital do Distrito, plataforma especializada em Inteligência Artificial e Inovação na América Latina, traz dados ainda parciais sobre VC em 2024. Até novembro, o Brasil já registrava um volume de aportes de US$ 1,9 bilhão, 5,5% maior que 2023, quando atingiu US$ 1,8 bilhão. Só em novembro, os aportes bateram em US$ 111 milhões em 30 rodadas – posição que fez o Brasil liderar em número de deals na região pesquisada (América Latina), cujo total de investimento em startups chegou a US$ 496 milhões.
Conheça os impactos das Resoluções CVM 214 e 175, garantindo segurança e conformidade
jurídica no curso “Fiagro e a Resolução 214”
“O mercado brasileiro de startups demonstra resiliência em um cenário econômico desafiador. A seletividade dos investidores está direcionada para negócios com soluções sólidas e escaláveis, o que reafirma o amadurecimento do ecossistema local”, comenta Victor Harano, gerente de Pesquisa do Distrito, acrescentando que em 2024 o mercado voltou a ver grandes rodadas. “Essas rodadas praticamente não existiram em 2023, indicando um potencial renovado de crescimento para as empresas capazes de ultrapassar o inverno das startups, convertendo teses em tração e unit economics sólidos”, analisa Harano. Os setores-chave que mais atraíram recursos, segundo o Distrito, foram Fintechs, Foodtech e AgTechs em linha com as tendências regionais.
Para Gustavo Gierun, CEO e cofundador do Distrito, as grandes rodadas Late Stage movimentaram o aumento de volume investido em novembro, impactando no resultado do segundo semestre como um todo. “Também foi um período em que as startups brasileiras precisaram se adaptar às mudanças nos setores de Banking (BaaS), benefícios corporativos e agricultura (AgTechs). O mercado continua apresentando sinais de recuperação no volume geral, embora mais cauteloso e seletivo nas decisões de investimento”, ponderou.
Os anos de juros globais baixos e muita liquidez no mercado fizeram os VC ganharem força no país. Só em 2021, ano recorde para o segmento, os investimentos em startups atingiram US$ 9,4 bilhões, 170% maior do que 2021. O ano de 2022 foi de queda, mas ainda assim positivo, o que não se repetiu em 2023, quando o recuo na comparação anual chegou a 56,8%, a US$ 1,8 bilhão.
Na visão do sócio da área de Venture Capital do Patria Investimentos, Pedro Melzer, 2021 foi importante para a região “entrar no mapa dos grandes alocadores do setor”, mas com certo exagero. “Juros muito baixos e um fluxo de capital que veio de forma exagerada para o Brasil. Se por um lado teve um efeito positivo, porque disponibiliza capital para novos projetos, também traz um efeito de uma certa artificialidade do mercado, nos preços”, explica o executivo. A fase atual dos VCs, destaca Melzer, é de correção nos excessos de preço – valuations das empresas que subiram muito na fase de exuberância do mercado – e na forma de análise dos investimentos, agora mais criteriosa, buscando negócios que se sustentem e não dependam de rodadas subsequentes.
“Em 2023, a gente começou a ver o capital que estava aqui, que eu chamo de capital mais turista, se recolhendo. Os cheques agora estão menores, corrigindo a distorção anterior. Mas a gente continua vendo volumes importantes. Estamos falando de ter entre 2024 e 2025 alguma coisa perto de US$ 3 bi ou até US$ 4 bi, não é pouco dinheiro”, comenta o executivo do Pátria. “Os setores que veem atraindo mais recursos são os de softwares e soluções para serviços financeiros, sob diversos ângulos, como infraestrutura para crédito, seja soluções para tokenização de ativos, seja tecnologia para administração de fundos e securitização.”

PUBLICIDADE
Para o Patria, 2024 foi bastante movimentado. A casa fez rodadas subsequentes no portfólio do Fundo III, da Igah Ventures, adquirida pela gestora em 2022, abriu a captação do Fundo IV e que já realizou o primeiro investimento, na tokenizadora Liqi. “Estamos no começo de construção do portfólio do Fundo IV, olhando uma plataforma de serviços financeiros, com tecnologia embarcada, bastante robusta, além de uma empresa de biotecnologia e outra de softwares ligados a carregadores de carros eletrificados”, comenta Pedro Melzer. “Temos um pipeline bastante aquecido e devemos, ao longo dos próximos meses, anunciar algumas transações.”
Outro movimento importante do Patria foi a parceria fechada no final do ano para distribuir, na plataforma da XP, um veículo exclusivo montado pela gestora. Trata-se do fundo Patria Igah Blend, um produto híbrido com uma alocação majoritária no Fundo IV e um investimento minoritário no fundo III. “Os recursos captados irão abastecer os dois fundos de VC. Lembrando que o fundo III é um produto performado, entregando acima de 33% de TIR, enquanto o IV está em fase de investimento”, explica. O Igah Blend tem duas subclasses, com um investimento mínimo de R$ 10 mil e outro de R$ 500 mil. A perspectiva para o fundo IV é concluir captações na casa de US$ 150 milhões.
O diretor de Corporate Venture Capital na Bossa Invest e CEO do BMG Uptech, Rodolfo dos Santos, tem visão semelhante sobre a fase atual dos fundos no Brasil e demonstra otimismo com um crescimento mais sólido, sem os exageros de 2021. “Foi espetacular, mas completamente outlier e para falar de tendência a gente precisa até descartar aquele ano. Se você põe num gráfico o valor investido em VC no Brasil de 2008 até 2022, e descarta 2021, você vê o crescimento constante”, explica Santos.
Apesar das pressões econômicas e dos juros altos de 2024, na visão do CEO da Bossa Invest - empresa com uma atuação focada em startups de base tecnológica em estágios pre-seed e seed – o brasileiro começou a “aprender a trabalhar com a startup, a investir em startup e o mercado conseguiu se segurar bem”.
“O mercado de investimento em startup reflete muito o que as empresas, as gestoras conseguem captar. Com o juro ainda em alto, os bolsos ficam com menos dinheiro. É importante que a gente, como gestor, demonstre para o investidor a capacidade de entregar resultado e gerar oportunidades”, comenta o executivo da Bossa Invest.
A Bossa, explica Rodolfo dos Santos, tem capacidade de entrar em alguns deals, principalmente fora do Brasil, que são interessantes. A casa já investiu, por exemplo, em startups grandes como a OpenAI, além dos aportes locais. “Uma das missões da Bossa, desde origem, é democratizar o acesso do investidor a VC, que é um capital de risco. No ano passado, a gente conseguiu colocar o produto no crowdfunding, que permite alocações com menos recursos”, explica Santos. A casa já tem quatro mil pessoas físicas, investidores, em nosso portfólio.
Criada em 2015, a Bossa Invest registrou no ano passado o segundo melhor ano em aportes em startups, perdendo apenas para 2022, segundo informa o CEO. “Ao todo, foram 72 startups recebendo recursos da Bossa, mas o valor não divulgamos.” O Venture Capital fez um acordo com a Captable - um crowdfunding regulado pela CVM – para captar recursos dos investidores de forma mais pulverizada e a partir de valores menores. O tíquete médio aportado por investidor via plataforma de crowdfunding fica entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, diferente dos demais produtos da Bossa que têm tíquetes maiores.

Sobre perspectivas de alocação para 2025, o CEO lembra que o Brasil tem apenas 22 unicórnios, sendo 12 deles fundados entre 2012 e 2016, que foi um momento muito difícil da economia brasileira. “Mesmo sem a gente olhar para unicórnios, falando em portfólio Bossa, uma das safras mais vencedoras que a gente já teve foi a de 2018. Ou seja, para a gente ter investido em 2018, essa safra também foi fundada ali em 2016”, lembra o executivo.
O empreendedor brasileiro é muito resiliente, continua. “Chega num momento de crise como esse, ele consegue achar soluções onde ninguém está enxergando e o Venture Capital precisa seguir investindo, plantando, para colher mais à frente. Safras vencedoras nascem em momento de crise, vamos continuar investindo.” Sobre setores a receberem recursos, Santos lembra que a Bossa Invest é “agnóstica”. E conclui: “É importante o número de startups investidas e a diversificação nos segmentos em que elas atuam também, para a gente não ficar exposto ao risco de um mercado.”


