Gestores de crédito privado fazem caixa para controle de risco e de olho em oportunidades de alocação

O ano de 2025 promete ser de desafios para gestores de crédito privado em um cenário de aperto monetário que eleva os riscos das carteiras, carregadas de papeis de empresas. Isto não significa, para gestores ouvidos pela Capital Aberto, que oportunidades de alocação rentáveis e seguras tenham desaparecido. Na transição entre um 2024 de captações recordes e um mercado secundário pujante para um 2025 que, no mínimo, trará riscos maiores, fundos de crédito já se posicionam para o novo cenário. Ponto comum nas escolhas das assets ouvidas foi uma entrada de ano com o caixa mais gordo. Além de reduzir o risco carteira, estão de olho em oportunidades que possam surgir, em geral mais conservadoras.
O principal fator nesta virada de expectativas entre 2024 e 2025 é a taxa Selic em 12,25% ao ano podendo atingir 14,25% até março, com impacto na saúde financeira das empresas. O desempenho do crédito privado no ano passado, uma das classes de investimentos que se destacaram com volume recorde de emissões, um mercado secundário mais ativo e um fluxo intenso de recursos para os fundos da categoria, dificilmente se repetirá. O ano de 2024, até novembro, foi de forte captação dos fundos de renda fixa com o ingresso de R$ 344 bilhões. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram, contudo, que em novembro houve reversão do movimento e saída líquida de R$ 4,7 bilhões dos fundos da categoria, o que não ocorria desde dezembro de 2023.
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O movimento, na visão dos gestores, pode ser pontual e a categoria retomar os ingressos líquidos de recursos. “Eu acredito que a classe de ativos ainda vai gerar atratividade dos investidores por diversos aspectos. Inegavelmente continua um mundo muito difícil para multimercados e para renda variável com esse nível de juros”, comenta Marcelo Peixoto, gestor de Crédito Privado da Trígono Capital. “Podemos afirmar que, atépor exclusão de outras classes, o crédito privado vai seguir chamando a atenção. O juro nominal, perto de 1% ao mês, também ajuda, embora os riscos sejam maiores.”

Luiz Christ, gestor de Crédito da Principal Claritas, tem visão semelhante. “Foi um ano de captações em alta, com exceção de novembro, mas olhando para frente a gente entende que a estratégia de crédito privado seja atrelada aos papéis CDI + ou IPCA +, tende a ser atrativa para o investidor”, comenta Christ. “A nossa expectativa é que 2025 continue sendo um ano positivo para o crédito, talvez com uma captação menos expressiva do que 2024.”
Risco em alta
Na visão dos gestores da Trígono e da Principal Claritas, se por um lado recursos continuarão ingressando nas carteiras dos fundos, por outro o esforço para manter o risco sob controle será maior. As duas casas já se organizaram para os desafios que estão por vir.

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Luiz Christ lembra que o cenário para navegar no crédito privado é muito diferente neste ano que se inicia, tanto pelo juro maior quanto na perspectiva macro. “A seletividade dos papeis de créditos, das alocações, tem que ser ainda mais rigorosa, evitando empresas muito alavancadas que sofrerão com juro a 14% ou 15%.” A Principal Claritas já tirou o pé e elevou a posição de caixa dos fundos de crédito privado – saindo de alocações que considera de maior risco – reduzindo também a duration da carteira.
Para os fundos de crédito privado da casa, de resgate D30, em ambientes normais, o gestor trabalha com uma posição de caixa entre 10% e 15%. Para este começo de ano, o caixa foi elevado para algo entre 25% e 30% do Patrimônio Líquido (PL). “Com mais caixa e o movimento de correção dos spreads dos papeis que tem sido feito podemos aproveitar oportunidades”, comenta o gestor, lembrando que caixa é “zero risco, de certa forma”. A duration média da carteira foi alterada de três anos para algo entre 2 e 2,5 anos. “É mais ou menos essa estrutura que a gente desenhou para transitar para esse ano de 2025.”
Movimento semelhante foi feito pela Trígono Capital. No fundo Sirius CP, um D15, a posição de caixa que girava em torno de 5% foi elevada para 20% do PL. É uma parcela que fica atrelada ao CDI, sem risco e com bom retorno. “Termos caixa também nos permite buscar bons papeis no mercado secundário ou mesmo no primário, desde que o título tenha um prêmio adequado”, explica Marcelo Peixoto.
O que dá um certo conforto para gestores de crédito privado atravessarem 2025, lembra Peixoto, é um mercado secundário muito mais ativo do que no passado, o que permite mais movimentação nas carteiras. “Quando eu comecei, há 30 anos, a gente analisava um ativo, aprovava no comitê, comprava e rezava para dar tudo certo, porque não tinha mercado secundário. O nível de liquidez hoje é cinco vezes maior do que ele foi há cinco anos.”
Papeis mais defensivos
Na visão de Luiz Christ, da Principal Claritas, o maior impacto do cenário de juro alto e atividade econômica mais fraca deve ocorrer nas emissões com perfil high yield. “Vão sofrer um pouco mais porque são papeis emitidos por empresas menores, mais alavancadas e que devem sofrer no cenário projetado para 2025. No universo high grade também tem riscos, mas de modo geral percebemos que uma boa parte das empresas está bem posicionada em termos de alavancagem, explica Christ, acrescentando que no ano passado muitas companhias rolaram seus passivos e melhoraram o perfil da dívida.
No posicionamento mais defensivo da carteira de crédito privado da Principal Claritas, ganham espaço setores que tenham uma alta previsibilidade em termos de geração de caixa e, portanto, sejam menos dependentes do ciclo econômico, como dos setores elétricos e de saneamento. Por outro lado, perdem atratividade, os títulos de dívida de varejistas, que sofrem com juros altos, e de saúde, de modo geral com empresas bem alavancadas. “Outro fator que ganha ainda mais relevância é a pulverização da carteira, quanto maior melhor. Isto nos protege do efeito de algum fato que não estava previsto. Temos perto de 80 nomes.”
Marcelo Peixoto, da Trígono, faz coro sobre a maior segurança dos papeis high grade e lembra que, emboraos spreads tenham caído muito no ano passado, começaram uma pequena recuperação a partir de outubro. “No universo high grade, entre as melhores empresas tem algumas pagando CDI mais meio (0,5%) e outras agora com a taxa abrindo para CDI mais 5%, 6%. Ainda há uma grande dispersão nas taxas, mas começou a melhorar porque gestores pararam de aceitar qualquer taxa.”
Sobre os retornos ainda maiores pagos pelos papeis do universo high yields, Peixoto lembra que “não é de graça, é o prêmio para correr mais riscos e, por isto, nosso foco segue em títulos high grade”. O gestor também tem uma visão positiva sobre o movimento das empresas de melhor rating que, em 2024, melhoraram o perfil de endividamento. “É para levantar e bater palma para os CFOs, eles fizeram um bom trabalho e isto mitiga os riscos para nós gestores que alocamos neste universo de companhias.”
No mais, as escolhas da Trígono são parecidas com as da Principal Claritas. “A gente não tem nenhum papel de varejista, não temos incorporação imobiliária e somos muito seletivos em saúde. Em compensação, temos 25% das alocações em papeis de bancos de primeira linha (LF) que mesmo se a inadimplência subir estão bem provisionados”, afirma Peixoto também citando energia elétrica e saneamento.


