Efeito DeepSeek nas big techs pode ser mais duradouro do que o esperado

A DeepSeek, empresa chinesa de IA emergente, está causando uma nova onda na indústria de tecnologia com seu novo modelo e o barateamento de custos atrelados a esse negócio. As ações e consequentemente o valor de mercado das Big Techs foram afetados significativamente desde o lançamento da nova ferramenta, à medida que os investidores pesam o potencial impacto da empresa no cenário. Embora os efeitos ainda sejam incertos, especialistas acreditam que essa onda criada pela chinesa pode ser mais duradoura do que os impactos iniciais nas ações vistos esta semana, caso as empresas não revejam seus modelos de negócios.
A chinesa lançou na semana passada um modelo de IA de raciocínio de código aberto que igualou ou superou o da OpenAI, responsável pelo ChatGPT, em benchmarks de desempenho importantes, atraindo uma atenção significativa no espaço de tecnologia. A DeepSeek afirma ter treinado seu modelo por apenas US$ 5,6 milhões, em comparação com as centenas de milhões normalmente exigidas por concorrentes dos EUA para treinar modelos semelhantes, lembram os analistas do Itaú BBA, em relatório.
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“Existem dúvidas com relação ao custo total de desenvolvimento, já que o que foi apresentado é só a parte de treinamento de inferência. Em termos gerais, eles foram muito hábeis na segmentação da base de treinamento usando um conceito de especialização, foco em uma técnica de reforço de aprendizado e de destilação dos modelos maiores de dados. Isso tudo utilizando chips de geração inferior”, destaca Eduardo Carlier, co-diretor de gestão da Azimut Brasil Wealth Management, grupo global e independente com atuação em gestão de ativos, gestão de patrimônio, banco de investimento e fintech.

Em poucos dias, o assistente de inteligência artificial denominado DeepSeek se tornou um dos aplicativos mais baixados nos Estados Unidos e na China, e agora também no Brasil. Após a ascensão da ferramenta chinesa, houve um impacto significativo nas ações das Big Techs no começo desta semana. Nesta segunda-feira (27), as ações da Alphabet, dona do Google, por exemplo, caíram mais de 4% no dia seguinte ao lançamento do DeepSeek.
Outras Big Techs também foram afetadas pelo lançamento do DeepSeek. As ações da Microsoft caíram mais de 2%, enquanto os papeis da Nvidia foram os mais afetados e despencaram 17%, gerando queda de US$ 589 bilhões em seu valor de mercado num único dia, o que sugere que os investidores estão preocupados com o potencial do DeepSeek para perturbar o mercado de tecnologia e reduzir os lucros das Big Techs. Nos dias posteriores, no entanto, as ações voltaram a subir, com exceção da Nvidia, que sofria com queda e quase 2% nesta quinta-feira (30).
Agora, há também uma briga entre as grandes e a nova competidora, que está sendo investigada por supostamente extrair dados da OpenAI, segundo informações da Bloomberg. Além das questões de privacidade de dados e uso indevido de propriedade intelectual que rondam o programa, fato é que a companhia chinesa está movimentando o mercado e mudando como as coisas são feitas.
“O grande ponto é que a DeepSeek rompeu o moat das Big Techs. O que antes se acreditava exigir enormes recursos para ser desenvolvido, agora se mostrou viável com um investimento muito menor do que o imaginado. Com isso, uma importante vantagem competitiva foi quebrada: a barreira de entrada”, opina Gerson Brilhante, analista da Levante Inside Corp.
Inclusive, na mesma semana do lançamento, o grupo gigante chinês Alibaba também decidiu entrar na corrida pela inteligência artificial e divulgou uma nova versão do seu modelo de IA Qwen 2.5 que, segundo a empresa, superou o aclamado DeepSeek-V3.
Para as big techs americanas, a implicação imediata desse evento é de aumento da concorrência e redução do “gap” percebido de dominância sobre a tecnologia. “Não deveria tirar o ímpeto de investimentos na tecnologia no médio prazo, mas vai suscitar discussões de otimização do capital a ser investido”, opina Carlier, da Azimut Brasil.

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O mercado tinha muita expectativa sobre o quanto a IA poderia gerar de receita para as big techs, mas com um novo competidor, e externo, isso gerou uma apreensão de que, potencialmente, os resultados desses investimentos que as empresas americanas fizeram nessa linha de negócio podem ser bem piores do que antes se imaginava, comenta Fernando Siqueira, atual head de Research da Eleven Financial.
“Além disso, essa concorrente chinesa usa bem menos capacidade computacional, então também seria ruim, por exemplo, para empresas como NVIDIA, que fornecem serviços na plataforma por trás dessas grandes redes de inteligência artificial. Bagunçou bastante o cenário para essas grandes companhias de tecnologia”, diz Siqueira, explicando o movimento desta semana que causou a queda de dois dígitos nas ações da queridinha do segmento.
Na análise do Itaú BBA, no entanto, não há indícios de risco material para a Nvidia, pois a Blackwell (arquitetura de IA generativa da companhia) já está contratada, e é improvável que as empresas desistam de seus compromissos. “Mesmo em um cenário negativo em que as empresas reduzem os gastos, custos de treinamento mais baixos podem gerar uma nova demanda substancial por inferência, fornecendo um vento favorável para a NVDA e especialmente para a MSFT. Isso reforça nossa convicção na MSFT como nossa principal escolha para o ano, dado seu potencial descomunal para capitalizar essa dinâmica”, dizem os analistas em relatório.
O movimento de queda no início da semana, no entanto, foi uma junção de realização de lucros com o chamado “evento DeepSeek”. O que aconteceu, e o executivo da Eleven cita até como positivo, foi que os investidores acabaram fugindo das grandes empresas de crescimento e tecnologia, que são consideradas caras e negociam com relação a preço-lucro muito alto, e optaram por ser mais conservadores e investir em empresas chamadas “de valor”, que negociam com relação a preço-lucro baixo.
Além disso, segundo o executivo da Azimut, essa queda se concentrou nas empresas de semicondutores em cima de uma reponderação sobre os efeitos futuros na oferta e demanda de chips de alta tecnologia. “Em contrapartida, Apple e Meta subiram, portanto, não afetou todas as Big Techs”, diz.
Agora, se, de fato, o cenário piorar daqui para frente com resultados “menos brilhantes do que o mercado imaginava, ou se foi apenas um susto inicial e o impacto dessa empresa chinesa vai ser pequeno, não sabemos”, comenta Siqueira.
O principal ponto é como a chinesa abriu precedente para o desenvolvimento mais barato de uma tecnologia que tem custado caro para algumas das “7 Magníficas”. O surgimento de uma abordagem potencialmente mais eficiente para o processamento de IA questiona a necessidade dos bilhões de dólares de investimento esperado em infraestrutura e propriedade intelectual. “O alto crescimento esperado dos lucros tem sido usado para justificar avaliações muito elevadas, deixando-as muito expostas a qualquer decepção”, lembra Oliver Blackbourn, gerente de portfólio do time de Multi-Asset da Janus Henderson.
“Embora seja fácil nos precipitarmos, também é importante lembrar que as altas expectativas elevaram as avaliações do mercado acionário dos EUA e, portanto, das ações globais. Se começarmos a ver as avaliações das ações dos EUA caírem significativamente, há o perigo de que isso se propague para outras áreas de alta avaliação na Europa e na Ásia”, complementa Blackburn, explicando os possíveis efeitos do movimento.
O futuro da DeepSeek é incerto. No entanto, o potencial da empresa para revolucionar o mercado é claro. Se for bem-sucedida, poderá ter um impacto significativo nas Big Techs que, inclusive, podem ter que adaptar seus modelos de negócios para não ficar para trás.
“Isso representa uma ameaça para essas empresas, mas o capitalismo se baseia em adaptação. As Big Techs têm uma capacidade muito maior de se ajustar às mudanças do que as pequenas empresas que buscam desenvolver seus próprios modelos”, opina Brilhante, da Levante, que acredita que a pressão nas ações das big techs não deve durar tanto devido à rápida adaptação. “Mas se não houver essa adaptação, elas podem sofrer mais.”
Já Siqueira, da Eleven, acredita que, apesar de os próximos passos serem incertos, pelo menos, por alguns meses, enquanto as pessoas não têm clareza da situação, devem “continuar evitando um pouco as empresas de tecnologia lá fora”.
O que deve ocorrer é que a otimização do capital investido deve sofrer um rebalanceamento daqui para frente. “O aumento de competição deve acelerar o cronograma de lançamento de novos modelos. O foco em desenvolvimento pode ser reforçado. Reequilibrar o investimento na parcela de desenvolvimento em detrimento de infraestrutura pode fazer sentido. Enfim, mais software e foco em inovação e menos hardware”, diz o executivo da Azimut Brasil.
Exagerar no ciclo de investimento com baixa visibilidade do retorno já era um tópico discutido antes mesmo do evento DeepSeek, mas agora ganha um reforço. “Existe o cenário alternativo de desacelerar o ritmo de capex caso fique entendido que o balanço de oferta/demanda esteja mal dimensionado. Neste cenário, a liberação de caixa seria robusta, beneficiando as Big Techs. Tem ganhadores e perdedores dependendo do ângulo. Nvidia com menor demanda pode sofrer, mas quem compra os chips gasta menos”, complementa Carlier.


