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Governança surte efeito para empresas familiares e auxilia na atração de investidores para as de capital aberto

Érica Polo

O peso do desenvolvimento de governança em negócios familiares é um processo para a atração de investidores, inclusive estrangeiros, e para o resultado anual das companhias (fechadas ou abertas), segundo especialistas.

“O que aprendi durante todo o processo [de carreira] é que essas jornadas têm começo, mas nunca tem fim”, disse Olga Colpo, membro dos conselhos de administração do BMG e do grupo São Martinho, durante painel no Blanchet Governance Day 2024, primeiro encontro sobre governança promovido pelo Blanchet Advogados, promovido nesta terça-feira (26). Colpo liderou a área de reestruturação de empresas familiares da PwC por 38 anos.

“Mais um ponto importante é [ter em mente] que regra é sua amiga: se no núcleo da empresa não há regras, não há espinha dorsal que conduza ao alinhamento nas decisões. E isso pode ser origem imensa de conflitos e demora para tomar decisões diferenciadas”, continuou a executiva.


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Ainda para ela, há três blocos importantes para combinar, reunindo governança e gestão. Se numa empresa familiar não é assegurado um modelo de gestão – ou seja, sistema de planejamento com indicadores, apresentação de relatórios e estrutura que demonstre responsabilidades e riscos, entre outros fatores – fica mais difícil alinhar o sistema de governança do negócio e da família.

Ademais, não se pode perder de vista que aquele que está no comando da gestão precisa ter “orgulho de prestar contas” para outros acionistas. É preciso ainda definir limites de poder para cada um na estrutura. “Os conflitos são normais para a própria evolução do negócio, seja entre os núcleos familiares, entre acionistas, entre gerações e até entre executivos”, acrescenta Olga.

Os gatilhos para esses conflitos são variados, com causa em má performance, crises, falta de confiança, problemas entre gerações, entre outros. Então, continua, quando as regras são desenhadas, é preciso considerar que não se está eliminando conflitos, mas reduzindo-os. Para isso, é importante a implementação de ingredientes para superá-los da forma mais adequada.

“A geração que está no poder precisa decidir se quer passar legado ou propriedade, e isso é importante no contexto. Então, esse processo de estruturação de governança de negócio e familiar requer um esforço sistêmico de regra e humano sobrenatural”, disse ela.

Reorganização do negócio

Richard Blanchet, sócio do Blanchet Advogados, diz que todo modelo de processo de governança familiar começa da mesma maneira, mas ao final se encerra de outra, a depender das estruturas familiares e do negócio. Há, contudo, necessidade de estruturar holding familiar (fator que permite coesão de núcleos) e acordo de acionistas. Mais um fator-chave é definir qual é o papel do dono e as matérias das quais ele não abre mão.

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Leonildo Colombo Neto, da terceira geração das indústrias Colombo, de máquinas agrícolas de Pindorama–SP, dividiu a experiência de como se deu a evolução do processo de estruturação de governança relacionado ao negócio – que viu faturamento de R$ 280 milhões em 2019 alcançar atuais R$ 600 milhões.

“Sou da terceira geração. Quando cheguei, em 2015, vi um potencial muito grande na companhia, com marca forte e líder no segmento de atuação, mas que carecia de estruturação interna, do ponto de vista de gestão e de governança, para que tivesse perenidade”, contou. Segundo ele, a empresa ainda era bastante informal e calcava decisões à época praticamente no principal executivo – seu pai.

A Colombo contava então com quatro sócios (dois dos fundadores, a viúva do terceiro deles e seu pai, Luis, que é da segunda geração). Quando Neto apresentou a ideia ao pai, houve alguma resistência deste. “Ele tinha receio de perder autonomia porque os fundadores tinham muita confiança nele”, conta.

Contudo, a primeira tentativa ocorreu em 2016 e as famílias chegaram a participar de entrevistas, que resultou num diagnóstico para uma proposta de estruturação de governança e do negócio. Mas o processo emperrou porque não houve “match” com o consultor. “A proposta que veio foi muito ‘copia e cola’ do livro e achamos que não ia dar certo pelo que estávamos enxergando em termos de falta de sintonia. Precisávamos adaptar a prática apresentada à nossa realidade”.

As famílias retomaram o processo em 2019, quando Neto assumiu a diretoria financeira. De lá para cá, foi construído um protocolo da família empresária, documento importante, disse, para aproximar os membros da segunda geração – e até mesmo a primeira – que eram distantes do negócio. “Foi o primeiro documento que nos reuniu para sentar à mesa e discutir temas como a relação da família com a propriedade e como íamos tratar algumas questões quando ocorressem”, contou.

Segundo o executivo e empresário, as famílias também construíram um acordo de acionistas que ajudou a ajustar “dores” de cada núcleo familiar.

“Foi uma jornada bastante intensa, fizemos 34 versões do acordo de acionistas”, disse. Hoje, a companhia também tem um conselho consultivo com o objetivo de aproximar a família da indústria, já que há poucos participantes no dia a dia. Neto afirma que o patrocínio da liderança, seu pai, foi fundamental para que o processo ocorresse.

Governança e atração de investidores

No evento, também participaram executivos do Hospital Sírio Libanês e do Grupo Fleury, que abordaram desafios de gestão da governança em estruturas com faturamento bilionário – sendo o Sírio uma associação sem fins lucrativos com board estatutário sem remuneração. O CEO do grupo GPS, Luis Martinez, falou sobre o papel do conselho em processos de fusões e aquisições.

Martinez comentou a importância da governança no processo de fusões e aquisições da companhia ao longo da última década, e seu papel para a atração de investimentos. “Nossa governança ajudou a atrair investidores de fora do país”, disse o executivo. O grupo, com capital aberto, aposta em estratégia de crescer por meio de aquisições. “Nosso conselho nunca percebeu isso como algo oportunístico. É plano estratégico da companhia”, reiterou.

Em sua estrutura, a companhia tem o conselho formado por sete membros, sendo dois vinculados a acionistas e cinco independentes, três comitês de auditoria – um de finanças, o qual entrega suporte para decisão sobre aquisições. Em 14 anos, após abrir capital, foram 53 aquisições.