CEO assume Vale com Mariana (MG) e outorga de ferrovias aguardando solução

A Vale passa nesta terça-feira (1) para o comando de Gustavo Pimenta, em um movimento que antecipa o processo sucessório que ocorreria em 2025. O executivo encontra a mineradora com as menores cotações na bolsa (B3) dos últimos anos e com um leque importante de problemas a serem resolvidos. Há demandas internas, ligadas às indenizações a serem pagas pela tragédia ocorrida em Mariana (MG) e à busca por um acordo sobre a outorga para explorar duas ferrovias importantes para a mineradora que precisam de solução nos próximos meses. Nas tarefas do novo CEO, não menos importante que as demandas internas citadas, estão a busca por novos mercados que compensem a perda de tração da economia da China e aceitem pagar um prêmio para o minério da Vale, de melhor qualidade.
Nos últimos pregões, os papéis da mineradora subiram com força acompanhando uma melhora no humor geral com o mercado imobiliário da China, após pacotes de ajuda anunciados na semana passada pelo governo local. Os preços do minério de ferro reagiram aos estímulos anunciados e a Vale acompanhou. A sustentabilidade deste movimento, contudo, é questionada por especialistas. “Não acho que vai ser um game changer, um fator relevante que vai mudar a narrativa, mudar a história do que estava acontecendo”, comenta Igor Guedes, analista de mineração da Genial Investimentos, se referindo à “euforia dos últimos dias” fruto do pacote de estímulo ao mercado imobiliário chinês. “O problema é estrutural, enquanto as medidas são cíclicas, a economia chinesa não vai bem. Estão desesperados, tentando reaquecer o mercado imobiliário a qualquer custo. A população chinesa está decaindo, desde 2022, as famílias não querem ter mais filhos. Não é uma economia que voltará a crescer como há 10 anos.”
O Head de Renda Variável da Levante Ideias de Investimentos, Flavio Conde, também vê na euforia de momento algo insustentável. “Os preços do minério melhoraram, os papéis da Vale reagiram, agora é difícil alguém dizer se o valor da commodity vai se manter neste patamar, isto é muito difícil prever. O que conseguimos é afirmar que afastou a possibilidade de que o minério de ferro fosse a US$ 80”, explica Conde.
A cotação do minério, agora oscilando perto de US$ 116 por tonelada, chegou a US$ 220/tonelada em julho de 2021, quando começou a cair espelhando a menor demanda por aço na China. Em julho de 2022 chegou a US$ 84/tonelada. No começo de setembro deste ano, estava em US$ 105/tonelada. “Os investidores estrangeiros estão céticos com a China. As ações da Vale neste momento viraram algo extremamente especulativo em termos de pregão. Investidores estão especulando graficamente, com opções.” Do resultado da Vale, 75% vem de minério de ferro.


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Na visão de Guedes, da Genial, a dependência da China é um tema que terá que ser avaliado pelo novo CEO. “O preço de minério, que neste momento vejo muito de especulação, a Vale não controla, mas a empresa pode buscar novos mercados. Estados Unidos e Emirados Árabes são potenciais mercados para a Vale compensar a China e com a vantagem que são locais que aceitam pagar um prêmio pelo produto de maior qualidade da Vale, o que a China não faz.” O especialista acrescenta que, pelo fato de a China representar 70% da demanda global do mercado, “diversificação regional é importante, mas não resolve no curto prazo”.
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Dois pontos que na visão de Guedes devem ocupar as primeiras semanas do novo CEO são internos. Um deles é fechar em definitivo a indenização a ser paga pelo desastre humanitário e ambiental causado em Mariana (MG), que deve superar R$ 100 bilhões. O outro envolve a outorga de duas estradas de ferro cruciais para a Vale - Estrada de Ferro Carajás e da Estrada de Ferro Vitória a Minas. O acordo de revisão da outorga, que pode levar a mineradora a desembolsar mais de R$ 17 bilhões para operar a ferrovia, segundo fontes do mercado, pode sair nos próximos meses. “Os primeiros passos do CEO deve ser endereçar estes dois pontos (Mariana e ferrovias). O mercado tem a percepção de que o Pimenta é um nome melhor para estas negociações do que seu antecessor, Eduardo Bartolomeo.”
Nesta segunda-feira, as ações da mineradora fecharam negociadas a R$ 63,51, uma discreta queda de 0,45 %. Na sexta-feira (27), a ação da Vale fechou a R$ 63,96, alta de 11,53% sobre o dia 20, quando as medidas chinesas ainda não eram conhecidas. Patamares bem menores do que o topo dos últimos anos, registrado em julho de 2021, a R$ 115, momento em que o mercado imobiliário chinês começou a ruir.
Mercado aprova CEO
Eleito por unanimidade pelo conselho de administração da Vale em 26 de agosto, Gustavo Pimenta (46) chega ao cargo para cumprir mandato de três anos. O executivo, embora jovem, tem carreira sólida em setores financeiro, de energia e mineração, e com uma carreira desenvolvida ao longo de mais de 20 anos no Brasil, Estados Unidos e Europa. Em 2021, assumiu a posição de vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores da Vale. Também foi responsável pelas áreas de Suprimentos e Energia & Descarbonização.
Ao longo dos últimos meses, havia ruídos sobre quem seria o substituto de Bartolomeo o que, afirmam os especialistas, também pesava no desempenho na bolsa. “O novo CEO tem uma experiência corporativa muito importante, inclusive no exterior. E havia o temor de que o Ministério de Minas e Energia tentasse indicar alguém deles. A escolha de Pimenta foi, na minha visão, o primeiro problema resolvido da mineradora”, comenta Conde, da Levante.
Igor Guedes, da Genial, lembra também do período incerto sobre a sucessão e elogia a antecipação do processo para este ano. “Surgiram nomes supostamente indicados pelo presidente Lula, e mesmo não sendo oficial fazia preço, pesava nas ações. A decisão por Pimenta foi bem recebida e a antecipação da troca de poder, para este ano, também é positiva. Vai ser uma transição tranquila.”
