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Spread de crédito deve seguir ‘achatado’ e retomada será gradual    

Érica Polo

Leonardo Ono, responsável pela área de crédito da Legacy Capital
Leonardo Ono, responsável pela área de crédito da Legacy Capital

Os spreads de crédito em CDI ‘fecharam’ para níveis vistos em agosto de 2021 após a forte abertura registrada no ano passado – e gestores enxergam um horizonte de estagnação para ao menos os próximos dois a seis meses. Com a Selic em alta, o fluxo segue direcionado para os ativos classificados como renda fixa, mas no que diz respeito ao crédito empresarial a cautela deve ser maior, com estratégias escolhidas a dedo, já que o risco não está sendo devidamente remunerado.

Um movimento de abertura gradual poderá ocorrer a partir de 2025, observam fontes consultadas pela Capital Aberto. Isso leva a ressalvas para quem põe dinheiro em crédito privado agora. “A continuidade desse movimento de alta da Selic faz a economia desacelerar, o risco dos devedores (empresas), então, aumenta, e os credores passam a exigir maiores prêmios pelo risco excedente que começam a assumir”, avalia Fernando Camargo Luiz, gestor da Trópico Investimentos.


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Trocando em miúdos, a leitura da Trópico é a de que os spreads “muito achatados” de agora podem abrir de novo – embora sem projeção de quando. Mais uma leitura é a de que isso leve a perdas de investidores que se sentem seguros por estarem em renda fixa. “Os ganhos que os investidores tiveram, carregando títulos ao longo do ano de fechamento dos spreads, começam a se perder quando estes mesmos spreads abrem. Começa, então, a vir cota negativa em renda fixa”, continua Camargo Luiz.

O mercado de crédito privado abraçou maior fluxo de dinheiro após as mudanças no mercado regulatório, as quais afetaram LCI, LCA, CRI e CRA, além da alta da Selic, e os eventos de crédito de Americanas e Light. O chamariz é o prêmio pago acima dos títulos públicos. O cenário gera uma condição ótima para empresas captarem dinheiro barato no Brasil.

Um gestor que pediu anonimato citou o exemplo da Vale, que anunciou emissão de debêntures neste mês. “A Vale fez uma emissão de R$ 6 bilhões com prêmio negativo. Apesar de [o título] ser isento [de imposto de renda], se olharmos sobre a taxa teto da NTN-B, já está saindo com prêmio negativo, como alguns outros papéis estão sendo negociados com prêmios negativos”, disse.

Em CDI, o spread médio marcou 1,4% segundo o índice IDA-DI da Anbima, dado extraído da 5ª Carta de Gestão de Crédito Privado da Legacy Capital, divulgada também neste mês. “Há um consenso no mercado de que abaixo desse nível a recompensa é muito baixa para correr o risco de crédito das empresas”, diz Leonardo Ono, gestor de crédito privado da Legacy Capital. A gestora não vê espaço para fechamentos adicionais de spread nos próximos meses. “Em nossa visão, chegou a um piso”, complementa.

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Se considerado o IDA-IPCA, o efeito do achatamento foi mais forte. “O catalisador do movimento de fechamento foi a resolução do CMN [Conselho Monetário Nacional] que restringiu a emissão de lastros de LCI e LCA. Parte dos investidores correu para o mercado de debêntures de infraestrutura, também isentas de IR”, comenta Gilberto Paim, sócio e gestor de crédito da Galapagos Capital.

Focando em IDA-DI, o patamar do spread é próximo hoje ao registrado em agosto de 2021. Luis Nazário, gestor de crédito privado da Principal Claritas, destaca que, se for feito um recorte entre os papéis que formam o índice elaborado pela Anbima, há títulos com spread mais baixo do que a média atual, de 1,4%. Para ele, deve haver correção neste grupo para, ao menos, os níveis vistos em 2021. “Mas não falo de nada disruptivo. Quem está pagando abaixo de CDI +1 deve voltar a pagar acima de CDI +1, embora não no curtíssimo prazo”, avalia. O curtíssimo prazo é dezembro de 2024.

Projeção de melhora

Os gestores não projetam quando exatamente poderá haver uma reprecificação e, embora os prêmios atuais não justifiquem os riscos das operações, avaliam que o crédito ainda é alternativa desde que escolhido a dedo com lupa na estratégia.

Para Ono, da Legacy Capital, a alta da Selic, de fato, amplia o risco do investimento em crédito privado – sobretudo de companhias mais alavancadas. Mas, diz, para haver retração de investidores e uma reversão no gráfico de spreads precisaria ocorrer algum “gatilho”, a exemplo de insolvência de grandes empresas, como Americanas e Light. “Só com a percepção de risco eu acho difícil”, observa. Ele divide as empresas em dois grandes grupos. Mesmo com o alto patamar dos juros básicos, empresas como Vale e Sabesp, por exemplo, têm “pouca chance” de quebrarem – consideradas informações disponíveis para o mercado. Há, contudo, companhias que desenharam planos para enfrentar patamar de Selic mais alta por tempo maior, contudo, a situação “pode se complicar”.

Agro e varejo são citados como setores delicados neste momento. É o momento de os gestores olharem com lupa para as operações escolhidas.

Paim, da Galapagos, hoje fica um pouco mais alocado em caixa e no curto prazo. “Mesmo que o spread abra, eu não estou com papel super longo que vá oscilar muito mais. Então, o papel eventualmente pode entregar prêmio mais baixo, mas para um crédito muito bom e num prazo muito curto. Quer dizer, não me comprometo que vou financiar alguém pelo resto da vida naquela taxa”, conta.

O gestor reforça que vê oportunidades encurtando carteira e mantendo caixa. “Eu não sei quando vai acontecer o evento, mas quando acontecer eu vou ser comprador. A minha ideia é ser um pouco mais contrário em relação ao mercado: se o mercado está comprando, eu estou saindo”, diz Paim.

Nazário, da Principal Claritas, avalia que provavelmente os recursos vão migrar dos papéis mais arriscados para os mais conservadores. “É como se a gente quebrasse o mercado em dois. Os mais conservadores tendem a continuar ganhando fluxo, mas as outras verão um movimento de saída. Só que essas empresas [mais arriscadas] hoje já pagam um pouco mais de spread”, disse.

O nível da Selic acima de 12% ao ano justifica um pouco o racional de correr para títulos públicos, diz o gestor da Principal Claritas, mas em patamar de taxa entre 12% e 12,5% ao ano, por exemplo, o cenário ainda é o de olhar muito pontualmente para a escolha do papel no universo privado. Com esse pano de fundo, o gestor não vê “movimentos disruptivos para o crédito”, ou seja, que possam mover decisões de investimento que mexam tanto com os spreads.