Spread de crédito deve seguir ‘achatado’ e retomada será gradual

Os spreads de crédito em CDI ‘fecharam’ para níveis vistos em agosto de 2021 após a forte abertura registrada no ano passado – e gestores enxergam um horizonte de estagnação para ao menos os próximos dois a seis meses. Com a Selic em alta, o fluxo segue direcionado para os ativos classificados como renda fixa, mas no que diz respeito ao crédito empresarial a cautela deve ser maior, com estratégias escolhidas a dedo, já que o risco não está sendo devidamente remunerado.
Um movimento de abertura gradual poderá ocorrer a partir de 2025, observam fontes consultadas pela Capital Aberto. Isso leva a ressalvas para quem põe dinheiro em crédito privado agora. “A continuidade desse movimento de alta da Selic faz a economia desacelerar, o risco dos devedores (empresas), então, aumenta, e os credores passam a exigir maiores prêmios pelo risco excedente que começam a assumir”, avalia Fernando Camargo Luiz, gestor da Trópico Investimentos.
Aprenda a identificar as empresas aptas à reestruturação e os elementos críticos na análise de credores, créditos e dos contratos no curso “Recuperação Judicial na Prática”
Trocando em miúdos, a leitura da Trópico é a de que os spreads “muito achatados” de agora podem abrir de novo – embora sem projeção de quando. Mais uma leitura é a de que isso leve a perdas de investidores que se sentem seguros por estarem em renda fixa. “Os ganhos que os investidores tiveram, carregando títulos ao longo do ano de fechamento dos spreads, começam a se perder quando estes mesmos spreads abrem. Começa, então, a vir cota negativa em renda fixa”, continua Camargo Luiz.
O mercado de crédito privado abraçou maior fluxo de dinheiro após as mudanças no mercado regulatório, as quais afetaram LCI, LCA, CRI e CRA, além da alta da Selic, e os eventos de crédito de Americanas e Light. O chamariz é o prêmio pago acima dos títulos públicos. O cenário gera uma condição ótima para empresas captarem dinheiro barato no Brasil.
Um gestor que pediu anonimato citou o exemplo da Vale, que anunciou emissão de debêntures neste mês. “A Vale fez uma emissão de R$ 6 bilhões com prêmio negativo. Apesar de [o título] ser isento [de imposto de renda], se olharmos sobre a taxa teto da NTN-B, já está saindo com prêmio negativo, como alguns outros papéis estão sendo negociados com prêmios negativos”, disse.
Em CDI, o spread médio marcou 1,4% segundo o índice IDA-DI da Anbima, dado extraído da 5ª Carta de Gestão de Crédito Privado da Legacy Capital, divulgada também neste mês. “Há um consenso no mercado de que abaixo desse nível a recompensa é muito baixa para correr o risco de crédito das empresas”, diz Leonardo Ono, gestor de crédito privado da Legacy Capital. A gestora não vê espaço para fechamentos adicionais de spread nos próximos meses. “Em nossa visão, chegou a um piso”, complementa.

PUBLICIDADE
Se considerado o IDA-IPCA, o efeito do achatamento foi mais forte. “O catalisador do movimento de fechamento foi a resolução do CMN [Conselho Monetário Nacional] que restringiu a emissão de lastros de LCI e LCA. Parte dos investidores correu para o mercado de debêntures de infraestrutura, também isentas de IR”, comenta Gilberto Paim, sócio e gestor de crédito da Galapagos Capital.
Focando em IDA-DI, o patamar do spread é próximo hoje ao registrado em agosto de 2021. Luis Nazário, gestor de crédito privado da Principal Claritas, destaca que, se for feito um recorte entre os papéis que formam o índice elaborado pela Anbima, há títulos com spread mais baixo do que a média atual, de 1,4%. Para ele, deve haver correção neste grupo para, ao menos, os níveis vistos em 2021. “Mas não falo de nada disruptivo. Quem está pagando abaixo de CDI +1 deve voltar a pagar acima de CDI +1, embora não no curtíssimo prazo”, avalia. O curtíssimo prazo é dezembro de 2024.
Projeção de melhora
Os gestores não projetam quando exatamente poderá haver uma reprecificação e, embora os prêmios atuais não justifiquem os riscos das operações, avaliam que o crédito ainda é alternativa desde que escolhido a dedo com lupa na estratégia.
Para Ono, da Legacy Capital, a alta da Selic, de fato, amplia o risco do investimento em crédito privado – sobretudo de companhias mais alavancadas. Mas, diz, para haver retração de investidores e uma reversão no gráfico de spreads precisaria ocorrer algum “gatilho”, a exemplo de insolvência de grandes empresas, como Americanas e Light. “Só com a percepção de risco eu acho difícil”, observa. Ele divide as empresas em dois grandes grupos. Mesmo com o alto patamar dos juros básicos, empresas como Vale e Sabesp, por exemplo, têm “pouca chance” de quebrarem – consideradas informações disponíveis para o mercado. Há, contudo, companhias que desenharam planos para enfrentar patamar de Selic mais alta por tempo maior, contudo, a situação “pode se complicar”.
Agro e varejo são citados como setores delicados neste momento. É o momento de os gestores olharem com lupa para as operações escolhidas.
Paim, da Galapagos, hoje fica um pouco mais alocado em caixa e no curto prazo. “Mesmo que o spread abra, eu não estou com papel super longo que vá oscilar muito mais. Então, o papel eventualmente pode entregar prêmio mais baixo, mas para um crédito muito bom e num prazo muito curto. Quer dizer, não me comprometo que vou financiar alguém pelo resto da vida naquela taxa”, conta.
O gestor reforça que vê oportunidades encurtando carteira e mantendo caixa. “Eu não sei quando vai acontecer o evento, mas quando acontecer eu vou ser comprador. A minha ideia é ser um pouco mais contrário em relação ao mercado: se o mercado está comprando, eu estou saindo”, diz Paim.
Nazário, da Principal Claritas, avalia que provavelmente os recursos vão migrar dos papéis mais arriscados para os mais conservadores. “É como se a gente quebrasse o mercado em dois. Os mais conservadores tendem a continuar ganhando fluxo, mas as outras verão um movimento de saída. Só que essas empresas [mais arriscadas] hoje já pagam um pouco mais de spread”, disse.
O nível da Selic acima de 12% ao ano justifica um pouco o racional de correr para títulos públicos, diz o gestor da Principal Claritas, mas em patamar de taxa entre 12% e 12,5% ao ano, por exemplo, o cenário ainda é o de olhar muito pontualmente para a escolha do papel no universo privado. Com esse pano de fundo, o gestor não vê “movimentos disruptivos para o crédito”, ou seja, que possam mover decisões de investimento que mexam tanto com os spreads.


