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Gestores de fundos de crédito têm ‘sede’ por FIDCs

Érica Polo

Retorno e liquidez impulsionam a busca; mercado de crédito privado segue aquecido, sem deterioração, mesmo com volume de recuperações judiciais
Leandro de Albuquerque, diretor da S&P Global Ratings

Há uma certa sede, entre gestores de fundos de crédito privado, por Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs) – além do que o mercado tem ofertado – devido a retorno e liquidez. A leitura foi feita por Leandro de Albuquerque, diretor da S&P Global Ratings, no Uqbar Day 2024 nesta terça-feira (15). O executivo participou de painel que debateu os rumos do mercado de fundos e emissão de títulos, como Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e do Agronegócio (CRA).

“O crescimento da captação dos FIDCs de crédito privado, e vemos que existe muita liquidez na indústria, acaba amassando bastante os spreads dos títulos que são high grade, não os créditos estruturados. O que, de certa forma, incentiva muito os gestores de fundos de crédito privado a buscarem mais FIDCs”, disse Albuquerque. “Muitos dos gestores gostariam de ver mais ofertas de FIDCs do que o mercado tem trazido, isso pelo lado do retorno”, ressaltou.

Por outro lado, ele levanta também a questão do risco desse tipo de fundo – e em sua avaliação é preciso aprimorar a liquidez no mercado secundário. Segundo o diretor da S&P, se em algum momento os juros básicos voltarem a cair – e a captação de fundos de crédito privado for revertida, levando a resgates –, os spreads vão abrir. “Com isso, os ativos corporativos vão sofrer no risco de mercado. E os FIDCs são mais defensivos porque têm menos liquidez”, continua.


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A leitura ainda não é uma realidade, contudo, ressaltaram participantes do painel. Carlos Augusto Lopes, sócio fundador da Uqbar, rememora que, por ora e apesar do volume de recuperações judiciais no país, os números não mostram deterioração no mercado de crédito estruturado, especialmente em FIDCs.

Albuquerque conta que a S&P está reconstruindo a carta de risco de FIDCs elaborada pela agência. Segundo o executivo, a maioria das operações monitoradas pela S&P tem um “colchão de proteção muito grande”. “Pode haver um aumento razoável de inadimplência e, ainda assim, é possível evitar o rebaixamento de ratings”, continua o diretor.

Os participantes do debate, que ocorreu logo após a abertura do evento, debateram retrato atual do mercado de fundos e emissão de títulos, como CRI e CRA, além de projeções e desafios para a indústria. Nota-se um mercado aquecido, visto que o patrimônio líquido de FIDCs avançou 41% considerada a comparação entre os acumulados entre janeiro e agosto de 2023 e de 2024. Em agosto deste ano, o PL de FIDCs somava R$ 542 bilhões, segundo dados apresentados pela Uqbar. Todas as categorias citadas aumentaram (ver gráfico).

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Se por um lado há captação ainda forte em fundos de crédito privado, reforçada sobretudo devido à trajetória de alta da Selic a partir de setembro, por outro é também um momento de atenção à qualidade de crédito, fator que, de certa forma, pode ser compensado por uma economia que se mostra resiliente. “Com os juros subindo, o investidor pessoa física não tem tanta opção e tem muita gente indo para o crédito privado, o que eleva a captação. Mas, por outro lado, juros em alta (mesmo em contexto de economia crescente) eleva dívidas lastreadas em CDI, o que pressiona ainda mais os devedores, sobretudo pequenas e médias empresas e pessoas físicas”, contextualiza Albuquerque.

A busca por recursos fora dos bancos é um fator de alavancagem cada vez mais evidente para os FIDCs, reforçou João Baptista Peixoto Neto, CEO da Ouro Preto Investimentos. O gestor avalia que o Brasil pode viver cenário parecido com o norte-americano, já bastante amadurecido, em cerca de dez ou quinze anos.

“Não quer dizer que os bancos vão deixar de existir, mas serão mais investidores (em valores mobiliários, por exemplo) do que em crédito”, projeta Peixoto Neto. Os próprios bancos compram volume em FIDCs atualmente, acrescenta Albuquerque, da S&P. O mercado brasileiro reúne pouco mais de 300 gestoras de crédito, número que poderá alcançar cerca de duas mil em cinco anos – com FIDCs atuando como uma espécie de “mini bancos” –, em cenário sem grandes disrupções.

É um movimento que resulta do enxugamento das estruturas bancárias em anos recentes, que passaram a economizar em estruturas físicas. Essas alterações ocorrem paralelamente à descentralização e especialização em concessão de crédito no universo privado, continua o gestor da Ouro Preto.

Seleção natural

A “democratização do crédito”, como sugeriram os participantes do painel para o movimento do mercado de capitais, contudo, traz uma série de desafios. Entre eles, ocorrerão ajustes no mercado de gestoras. Muitas surgem justamente a partir de ex-funcionários de bancos, que abrem suas próprias companhias de investimentos.

“A gente vai poder ver estruturação do mesmo crédito de formas diferentes: uma gestora estruturando crédito bom e um FIDC ruim; assim como crédito ruim e FIDC bom. Com tanta gente no mercado, e uma pressão competitiva, ao longo do tempo a consolidação vai ajudar mais no desenvolvimento e amadurecimento do mercado”, opina Albuquerque.

Evitar ativos ruins ou más estruturações não deve ser, contudo, uma preocupação no segmento. “A punição é severa. Qualquer gestora que tenha prejuízo é quase expulsa do mercado. E os problemas ocorrem rapidamente”, acrescentou Peixoto Neto. “Para o gestor de crédito, então, a punição é mais rápida e ainda mais rígida. Acho que as gestoras vão aprender com o momento. Vai ocorrer seleção natural” disse, ainda, o gestor da Ouro Preto.

Os debatedores abordaram ainda os riscos dos efeitos de influencers sobre decisões de investimentos. Mas para os participantes do painel, cabe ao investidor final a consciência de evitar entusiasmo com promessas de retorno incompatível com o risco. Peixoto lembra que todos os casos “escabrosos” tinham essa natureza. Ademais, acrescenta Lopes, da Uqbar, retorno alto denota risco elevado, característica sobretudo de operações de crédito.