Campanha Vórtx Institucional

PUBLICIDADE

Fundos de private equity põem o pé no freio em meio à dificuldade de desinvestir

Amanda Meneses

Priscila Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP)
Priscila Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP)

Diante da alta de juros mundial durante a maior parte do ano e uma seca de ofertas públicas nas Bolsas de Valores, gestores de private equity (PE) em todo o mundo estão sendo levados a recalcular a rota de seus fundos. Diversos fatores têm criado dificuldade para que as casas façam o desinvestimento nas companhias, levando-as a passar mais tempo com os ativos na carteira ou optando por alternativas às ofertas primárias para sair das empresas investidas.

“Estamos em um momento, que não é exclusivo para o Brasil, ou seja, é global, onde vemos um volume menor de saídas. Em inglês, temos um número, um volume menor de DPI's, métrica que indica a devolução do capital que você investiu”, comenta Priscila Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP). “Basicamente, porque as Bolsas estão bem fechadas. Isso faz com que você tenha uma dificuldade um pouco maior de saída e os M&A's também estão bastante tímidos. Você acaba tendo um volume menor de desinvestimentos, o que impulsiona também um volume menor de fundraising.”


Aprenda no curso “M&A com a visão do CADE” o caminho das pedras das fusões e aquisições  


No Brasil, a executiva cita que há um volume importante de capital ainda a ser investido, lembrando que em momentos em que há um pouco mais de desafios de desinvestimento, acaba sendo bom para fazer a alocação de capital. 

“Esse não tem sido um bom ano para os fundos de PE por conta das questões macroeconômicas, especialmente o aumento de juros em nível global. Começando pelos Estados Unidos, o dinheiro começou a ficar um pouco mais caro”, comenta Cláudio Batista, sócio do Domingues Advogados. “Aqueles financiamentos que permitiam uma alavancagem nos fundos de Private Equity para a compra de empresas acabou enxugando”, finaliza, citando que o custo de capital mais alto nas empresas acaba estressando o ativo, os investimentos que foram realizados e gerando dificuldade de saída.

Além dos juros e do fechamento das Bolsas em nível mundial, outra questão que tem afetado o cenário desses fundos é o câmbio. “Quando o câmbio flutua demais, fica muito difícil para os fundos conseguirem modelar os investimentos potenciais”, argumenta Guilherme Malouf, co-head da área de M&A e Private Equity do Machado Meyer. “Você dá um dólar, e em qual patamar vai estar esse dólar quando for sair? No momento em que o dólar continua subindo, conseguir dar um retorno em dólar, especialmente para os fundos estrangeiros, é importante e acaba sendo difícil. Em reais, o investimento pode ser muito bom, mas em dólar, não necessariamente”.

Saga do desinvestimento

Além da abertura de capital na Bolsa, que tem sido dificultada pelas questões macroeconômicas, as outras duas principais alternativas que os fundos têm olhado na fase de desinvestimento são a venda de fundo para fundo (Sponsor to Sponsor Transaction) e vendas para estratégicos com saída via M&A tradicional. “O pós-pandemia fez com que muitos desses estratégicos segurassem um pouco essas novas aquisições para organizar a casa, depois o aumento de juros fez com que a turma olhasse um pouquinho melhor a sua estrutura de capital”, diz Priscila, da ABVCAP. “Muitas companhias olharam para dentro para arrumar a operação, e agora estão voltando a conversar um pouco para fazer atividades de M&A. Temos visto algum movimento nesse campo e os deals que estão sendo anunciados de fundos, quase todos na tendência de saída, mais recentemente, tem sido via M&As”.

Malouf, do Machado Meyer, cita como solução a possibilidade de venda para um fundo estratégico ou para algum fundo maior. “Fundos de Growth conseguem vender para fundos de Private Equity, ou esperar um pouco e, nesse meio tempo, focar na gestão do portfólio, na gestão das investidas, eventualmente fazer movimentos nas empresas do portfólio, fazer crescerem via, inclusive, aquisições ou combinação de negócios”, diz o advogado.

Campanha Vórtx Institucional

PUBLICIDADE

“Tem sido muito comum que empresas de portfólio de fundo se combinem com outras empresas de portfólio. Temos visto isso no mercado de educação, telecom, todos”, completa. Ele cita que essa preparação ocorre para que as empresas fiquem maiores e mais robustas para estarem mais bem posicionadas quando surgir a janela de oportunidade para um IPO ou para uma venda para um estratégico.

As gestoras que estão com ativos para sair dos fundos têm trabalhado muito em criação de valor, uma vez que há a dificuldade de desinvestir, reitera a presidente da ABVCAP. “Já que eu não consigo sair, o quanto eu consigo crescer essa companhia, o quanto eu consigo criar um valor adicional para ficar um ano, dois, às vezes três, a mais em portfólio?”, sugere. 

Diante dessas dificuldades, uma alternativa pela qual gestores de private equity no exterior têm optado, por exemplo, é pelo Continuation Funds. “Basicamente, são companhias que podem ser ciclos de fundos por muito tempo. Ela faz esse primeiro ciclo com essa gestora A e esse grupo de investidores, fica de quatro a seis anos empregando esse crescimento, mas tem uma perspectiva de mais quatro, cinco, seis anos fazendo outras coisas”, esclarece a presidente da ABVCAP. “Às vezes ela precisa de mais capital, às vezes ela faz mais M&A, às vezes ela lança um produto novo. O que você faz? Oferece aos investidores.” 

Priscila explica ainda que, neste caso, se o mercado está com uma baixa liquidez, em vez de propor vender o ativo por um preço que não necessariamente reflete seu potencial, o gestor oferece ao investidor, e caso ele não precise de liquidez no primeiro momento, ele lança um fundo novo e joga esse ativo lá. “Você contribui com a sua participação dentro desse fundo novo, colocamos mais dinheiro e a gente faz um próximo ciclo de cinco, seis anos com essa companhia”, diz. 

No entanto, as discussões dessa estratégia no Brasil ainda são incipientes. Segundo a presidente da ABVCAP, por aqui, os fundos de private equity têm utilizado mais a oportunidade de venda de secundário. “A venda no mercado secundário tem sido um pouquinho mais olhada, mas isso não necessariamente significa sair do investimento”, diz Priscila. Segundo ela, é “um pedaço”, ou seja, algum grupo de investidores que requer a liquidez mais no curto prazo, tem trocado a participação na estrutura acionária ou de cotista do fundo, para um gestor especializado em secundários, e a gestora em si continua monitorando o ativo para compensar esse alargamento de prazo criando mais valor.

Setores e perspectivas

Embora seja um problema geral e global, alguns setores, como o de tecnologia, têm dado mais trabalho aos fundos devido à sua reprecificação na Bolsa de valores. “Temos visto principalmente no ramo de tecnologia, que teve um boom em 2021, pós-Covid. O capital estava muito barato e as startups captaram bastante dinheiro. Teve bastante abertura de capital também”, menciona o sócio do Domingues advogados. “E agora estamos numa curva invertida disso e vemos a dificuldade das próprias empresas, algumas entrando em default, para descontinuidade do investimento.”

Outros setores, como o de educação e o de saúde, que também tiveram uma reprecificação muito forte de bolsa no Brasil, sofrendo com grandes quedas nos últimos anos, também acabam desafiando o mercado.

A dificuldade, no entanto, não tem prazo para cessar. Segundo os especialistas consultados, embora as perspectivas mais otimistas levem a crer que o cenário deve ser mais favorável aos fundos de private equity no primeiro semestre de 2025, essa melhora depende de uma conjunção de fatores.

“Depende de um direcionamento, especialmente do governo federal, de mais responsabilidade fiscal, porque isso vai ser muito importante para os juros caírem. Sem isso, eles vão continuar em um patamar alto e juros caírem é fundamental para que o mercado possa voltar”, menciona Malouf, do Machado Meyer, citando também a instabilidade mundial com conflitos no Oriente Médio e a guerra na Rússia e Ucrânia, além das eleições americanas.

“Ano que vem, com as eleições determinadas, com uma clareza maior de para que lado o mundo vai, se vamos ter uma tentativa de paz nesse confronto, se os juros dos EUA continuarão caindo, isso tudo vai dar uma sinalização melhor de quando vai ser a retomada do mercado brasileiro.”

Priscila, da ABVCAP, menciona que outro ponto importante são as reformas, que atraem capital. “Tem uma expectativa em relação ao Brasil voltar a ter grau de investimentos para atrair um pouco mais de capital estrangeiro. Há uma sinalização de uma das agências de rating positiva nessa frente. Mas ela também é condicionada a ter uma série de mudanças estruturais.”

Para a executiva, no ano que vem as coisas começam a melhorar. “Já começamos a ver mais movimento de diligência para olhar ativos. Gestoras olhando para alocar capital, colocando seus ativos em discussões privadas com outros players. Tudo nessa indústria é a longo prazo. Você começa a ver um movimento agora e demora seis, oito meses para começar a realmente ver transações sendo anunciadas”, finaliza.