Excesso de atratividade do crédito privado preocupa e leva gestores a fecharem fundos

Em um período turbulento para os ativos de renda variável diante de uma aversão a risco, na renda fixa o desempenho e a rentabilidade acima da média dos fundos de crédito privado têm atraído cada vez mais investidores. No entanto, essa alta demanda tem forçado muitos gestores a fecharem a captação para garantir a qualidade dos investimentos e evitar o crescimento excessivo dos fundos.
O crédito privado tem passado por uma bonança que atrai investidores dos mais variados perfis. A XP, que inclusive tem fundos do segmento fechados para captação, tem produzido um estudo sobre a tendência de atratividade desses fundos no cenário atual. “Quando a gente olha alguns números, a captação sobre o PL dos fundos classificados pela Anbima como renda fixa, não só fundos de crédito, já superou R$ 300 bilhões em 2024. E se seguir nessa mesma toada, vai ser o maior volume anual de fluxo para a série histórica e a maior captação sobre o PL também da série histórica”, comenta Clara Sodré, analista de fundos da XP.
Segundo o levantamento, esses fundos já estão com crescimento de 8% sobre o patrimônio líquido, e as últimas vezes que atingiram esse nível foram em 2021 e em 2011, com 9% de avanço. “Estamos num movimento realmente muito forte para os fundos de crédito. E essa dinâmica positiva de captação está atrelada justamente a essa questão da performance. É muito importante entender que o investidor acaba sendo muito enviesado por esse retorno”, diz Clara.
Nos últimos 12 meses, o CDI teve uma rentabilidade de 11%, enquanto os principais índices de crédito chegam a 15%. “Temos os fundos High Yield em 13%, High Grade em 13,13% e Liquidez em 12,17% em 12 meses. Quando a gente olha essa rentabilidade em relação ao CDI, estou falando de 122% para o High Yield e 115% do High Grade, para você ter um baixo risco de crédito”, diz a analista.
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Segundo Clara, olhando para frente, o que os gestores estão vendo para fecharem a carteira dos fundos está na dispersão dos spreads de crédito. Ou seja, a diferença de rentabilidade que há nos títulos mais conservadores e nos títulos mais arriscados. “Os títulos mais conservadores estão com o spread bem apertado, enquanto nos títulos mais agressivos têm um fechamento ainda para acontecer. Ou seja, tem espaço de retorno ainda. O que isso quer dizer? Nos mandatos mais conservadores, o gestor precisa de ainda mais seletividade, dado o patamar atual de risco/retorno. Ela deixa de ser uma alocação trivial”, afirma a analista.
Com isso, o que muitos gestores estão fazendo nesse cenário é preferindo conservar o carrego na estratégia do que colocar títulos com spread muito apertado e derrubar esse carrego. “É muito uma estratégia de preservação de capital”, diz Clara.
Visão das gestoras
Entre as gestoras que adotaram essa estratégia está a SulAmérica Investimentos, com dois fundos fechados em plataforma: o SulAmérica Premium, que só compra títulos bancários e tem resgate em D+1, e o SulAmérica Excellence, com estratégia similar ao Premium, mas que além dos títulos bancários, pode comprar títulos corporativos.
“Concordamos que o mercado de crédito privado está bastante aquecido, 2024 tem sido o ano de muita entrada de recurso aqui. Captação recorde atrás de recorde para a indústria. Mas é exatamente por isso que falamos que a gente tem que usar as nossas ferramentas de gestão. Entendemos que o fechamento de um produto também é uma ferramenta de gestão”, diz Daniela Gamboa, head de Crédito Privado e Imobiliário da SulAmérica Investimentos. “Essa enorme entrada de recursos na classe de ativo, qual é a consequência disso? Temos o fechamento dos spreads, do preço que é pago nos títulos acima daquilo que é pago pelo título público.”


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Daniela comenta que no meio do ano passado, na média, as debêntures de mercado, segundo o índice de debêntures da Anbima (IDA), estavam perto de 2,60%. Hoje, esse mesmo indicador já está muito perto de 1,40% ou até abaixo. “Ou seja, já fechou bastante. Com alguns papéis, quando a gente fala dos de baixo risco dessa amostra, pagando spreads mais perto de 0,80%, 0,60%. O que acontece nesse tipo de cenário que temos? Emissores corporativos pagando CDI+0,60%, CDI+0,80%. Emissores bancários também pagando CDI+0,30%, CDI+0,40%”, conta a gestora.
Como gestora, a casa precisa tomar a decisão, e com mandatos distintos, entregar o target de retorno de cada um. “Se eu deixo entrar muito dinheiro no meu produto, eu acabo não mantendo a minha capacidade de ter ativos de boa qualidade, com taxas boas, porque esse meu reinvestimento é feito nessas taxas baixas novas de mercado”, diz Daniela. “Passamos a ter dificuldade de encontrar ativos no mercado que atendam os targets dos produtos. Para não prejudicar a nossa entrega de um produto de qualidade para o investidor, entendemos que a melhor alternativa é fechar.”
Os fundos de crédito privado da SulAmérica que estão fechados, especificamente, são os produtos de maior fluxo de captação da gestoras, produtos de plataforma que são comumente usados pelos investidores como “reserva de dinheiro”. Nesse momento, para preservar o investidor que já está no fundo e não diluir o retorno que a gestora tem dentro das carteiras colocando mais recursos sem conseguir investir, a melhor forma é fechar o produto.
O volume de oferta dos últimos meses, por exemplo, em agosto, foi razoavelmente fraco, e em setembro também ainda não voltou de forma muito intensa. “Os volumes de ofertas primárias de debêntures no mercado não têm sido suficientes para atender. E o nosso compromisso aqui é entregar o mandato que a gente se comprometeu com o investidor, baixo risco de crédito com, e cada um desses fundos tem o seu target, que é superar ligeiramente o 100% do CDI.”
Outra casa que tem adotado a estratégia de “evitar deixar um monte de dinheiro entrar e não ter capacidade de fazer bons investimentos alinhados com o mandato” é a Sparta. Os fundos feeders D30 do Sparta Max, que aloca títulos de renda fixa de grandes empresas, estão fechados e estão abertos os D70. “Dá pra entrar, mas no prazo de resgate um pouco maior”, comenta Ulisses Nehmi, CEO da Sparta. Já o Sparta debêntures incentivadas tem dois feeders, o de 30 e o de 45 dias, que também estão fechados desde fevereiro, e por fim, o Sparta debêntures incentivadas inflação também está fechado.
“Esses dois são os principais e somam cerca de R$ 2,5 bi de PL. São dois, mas com duas estratégias, não tem dois feeders, mas são os nossos principais. Fechamos porque estava num ritmo muito forte de captação. E crédito e velocidade não combinam”, diz Nehmi. “Preferimos seguir com as captações nos nossos fundos listados, porque neles você faz uma captação no momento certo, na hora que você quer, e depois em um tempo pra ir trabalhando a alocação, de uma forma ordenada.”
Segundo o CEO da Sparta, o grande desafio é que “se começa a entrar muito dinheiro muito rápido, o gestor é levado a tomar decisões piores”. Para o executivo, até tem algumas oportunidades de compra para esses fundos. “É por isso que a gente tem feito as captações nos nossos fundos listados. A questão não é que não tem oportunidades. Inclusive, um dado interessante, é que deve ter um novo recorde esse ano de emissão de debêntures incentivadas. Um volume muito grande de ofertas”, conta Nehmi. “Isso é ótimo. Onde alocar tem, a questão é que, como tem muita demanda pela classe, um monte de fundos captando também e todos querendo comprar ao mesmo tempo, isso leva a uma elevação dos preços. E os spreads das debêntures incentivadas estão fechando.”
Outros fundos de debêntures incentivadas também estão fechando para captação, além da questão do preço dos títulos, pelo ritmo de captação, segundo o CEO da Sparta. A captação desenfreada leva a problemas, pois o gestor tem que fazer alocações piores e “entra um monte de gente” nos produtos. A gestora acredita na ideia de que, se o investidor está entrando de uma maneira muito eufórica no fundo, eventualmente ele pode se frustrar mais facilmente. “Se vier a ter um movimento adverso nesse mercado, porque os spreads têm qualquer leve abertura, não achamos que isso vai acontecer, mas se vier a ter, os investidores se assustam e querem sair. A gente não acha que é uma dinâmica positiva.”
Tendo fundos de debêntures incentivadas há 7 anos, a casa sabe como funciona a dinâmica do mercado e por isso tomou a decisão de fechar mais cedo para a captação e focar nos fundos listados ou nos fundos de condomínio fechado, que são aqueles que não podem ter resgate. “Ou seja, que vão fazer alocações mais perenes e conseguimos agregar mais valor para os nossos investidores.”
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