Com FIDC, CR ou FIP, gestores aproximam o universo da música do mercado de capitais

A aproximação entre o mercado de capitais e o universo da música é algo ainda incipiente no Brasil, perto de outras teses de alocação já consolidadas por aqui. Nos últimos anos, gestores começaram a olhar para este nicho com mais atenção buscando públicos distintos e usando instrumentos variados para acesso a este mercado. A Capital Aberto ouviu gestores que conectam o universo da música com o do mercado de capitais de forma distintas, usando Certificado de Recebível (CR), Fundo de Participação (FIP) e Fundo de Investimento em Direito Creditório (FIDC). São instrumentos distintos com públicos também diversificados e que, na visão dos gestores, vem mostrando seu valor.
O movimento mais recente, do mês passado, foi protagonizado pela Arbor Capital, uma gestora especializada em fundos de ações internacionais e que encerrou sua primeira iniciativa no mundo do entretenimento. A casa vendeu o fundo Adaggio, um FIP de 2021 destinado a comprar direitos autorais de músicas, por R$ 150 milhões. Dono de catálogos do Legião Urbana e Cidade Negra, o fundo rendeu aos cotistas um retorno líquido de 23% ao ano - mais que o dobro do retorno que o CDI deu no mesmo período (de cerca de 10%). Também ganha, com muita folga, do Ibovespa no período, cuja alta foi de apenas 17% acumulada nos três anos.
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“Quando montamos o FIP, criando a empresa Adaggio para comprar os catálogos musicais. A ideia já era valorizar e vender como um todo, não tínhamos a pretensão de permanecer por muito tempo”, explica Leonardo Otero, sócio fundador da Arbor. “Em três anos, o capital investido retornou sete vezes mais do que se tivéssemos investido no Ibovespa. Vendemos todo o catálogo para uma empresa sueca, a Bell Partners.”
A escolha pelo investimento em catálogos musicais via FIP se justifica pela ideia, original, de valorizar os ativos comprados e vendê-los como um todo, explica Otero, assim como para atrair o investidor institucional. Os sócios da Arbor lideraram o investimento no FIP. O conselho do fundo contava com a participação de coinvestidores como a Atmos Capital. Com a estrutura de FIP, escolhida pela asset para sua primeira incursão no mundo da música, foi possível otimizar o aspecto fiscal e permitir que outros fundos conseguissem investir no produto, como fundos multimercado e de ações. Dois terços dos investidores do FIP eram institucionais que, no momento em que o fundo foi vendido, puderam diferir o imposto – por ser um fundo dentro de outro fundo.
O fundo Adaggio tinha perto de 150 catálogos e mais de 140 mil músicas. Faziam parte dos ativos do fundo artistas como Dado Villa-Lobos, do Legião Urbana, Jorge Aragão, um dos grandes expoentes do samba; e Délcio Luiz da Silveira, autor de hits do Molejo como ‘Dança da Vassoura’. “Estamos bastante satisfeitos com o desempenho do produto, um mercado que no Brasil ainda é pequeno, mas que tende a crescer. São teses de investimento que na Europa e nos Estados Unidos já são maduras”, comenta Leonardo Otero.
Um dos desafios, lembra o executivo, é montar uma equipe de pessoas da música para seleção dos catálogos a serem adquiridos. “Tem menos pessoas treinadas para serem bons selecionadores de catálogos musicais. Talvez um dificultômetro para atuar neste mercado”. O sócio da Arbor Capital, sem citar prazos, diz que avalia a criação de outro fundo para o universo da música. “Foi uma ideia, que trouxemos de outros mercados, e que deu muito certo. Vamos avaliar a possibilidade de outro fundo.”
O ano de 2024 também viu nascer a primeira operação de securitização de royalties musicais no Brasil, com a emissão de um Certificado de Recebível (CR) e sua oferta pública. O CR foi emitido pela MUV Capital, empresa de investimento em royalties de música e de cinema pertencente à Hurst Capital. A MUV já trabalhava com royalties musicais, mas em outro formato, via emissão de tokens. O primeiro movimento da MUV para o CR foi comprar do empresário José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, o catálogo de temas de abertura do Fantástico e de outros sucessos como “Tieta”. Os recebíveis estão atrelados ao número de vezes que determinada obra musical e o fonograma serão executados publicamente ou reproduzidos em diferentes ambientes e plataformas que geram, ao titular dos royalties de música, o direito ao recebimento de determinada quantia por tal reprodução.

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“Começamos na MUV a operação com o catálogo do Boni, que é bem diversificado. Optamos pela emissão de um certificado de recebível por entendermos que, para o investidor, tem diversos benefícios como maior transparência, eficiência e custos menores de transação”, explica Ana Gabriela Mathias, COO da MUV Capital. No modelo adotado pela empresa, o CR tem vencimento em 36 meses, com pagamentos mensais dos royalties pela execução das músicas e, ao final do prazo, uma garantia mínima de devolução do capital investido corrigido pelo IPCA. A rentabilidade projetada, informa Ana Gabriela, é de 17,26% ao ano e, desde o lançamento do CR, em março “está em linha com o estimado”.
O CR lançado pela MUV tem investimento mínimo de R$ 10 mil e, nestes primeiros sete meses, vem atraindo um público diversificado. “No geral, é um investidor um pouco mais qualificado, mas temos aportes de R$ 10 mil, outros de R$ 100 mil e algumas ofertas privadas que colocamos, fora da plataforma, que superam R$ 1 milhão por investidor”, comenta Ana Gabriela. A MUV, desde a primeira oferta de CR, segue ampliando o portfólio e já conta com catálogos internacionais, de Beyoncé e Justin Bieber, e neste momento com ofertas de outros dois certificados de artistas nacionais.
Na visão da COO da MUV Capital, investimentos em royalties musicais são para todos os públicos e vão seguir ganhando espaço no Brasil. “No mercado internacional isto é bem mais desenvolvido, mas temos visto casas locais investindo em ativos musicais, buscando diferentes formatos para chegar ao investidor”, comenta a executiva, que é egressa da música, tendo trabalhado em gravadoras como a Sony Music e na editora Warner Chappell. Somando a oferta de royalties musicais via tokens mais a oferta de CRs, a MUV Capital já levantou R$ 217,2 milhões. O que falta para um maior desenvolvimento deste nicho no Brasil, destaca Ana Gabriela, é um mercado secundário que “é possível, mas não existe hoje”. E acrescenta: “são dois mundos tão distantes, mas que estão se encontrando agora no mercado local. No Brasil, a gente tem muitos formatos a explorar ainda.”
Outro instrumento utilizado para reunir mercado de capitais e o mundo da música são os FIDCs. Um dos exemplos é o Fundo de Investimento Four Even, criado em 2020 e que hoje tem como principal ativo shows da dupla sertaneja Jorge & Mateus. Ao longo do tempo, o produto passou por ajustes. O primeiro grande nome a fazer parte da carteira do FIDC foi Gustavo Lima, que não consta mais do grupo de artistas. Além disso, em 2022, houve a troca da gestão do fundo, hoje feita pela M8 Partners.
“Quando assumimos, priorizamos ajustar o modelo de precificação a algo mais realista em relação aos ativos e seus devidos segmentos com o administrador fiduciário, além de criar uma proximidade com os artistas (ativos), orientar e monitorar os consultores especializados em entretenimento referente as peculiaridades regulatórias que acompanham o mercado de capitais”, explica Ricardo Benjamin, sócio da M8 Partners, acrescentando que foi preciso trazer governança ao processo. “Foi necessário trazer melhoria na formalização dos recebíveis e no operacional para aproximar os dois mundos completamente diferentes e ainda de relacionamento desconhecido.”
Em relação à escolha do instrumento FIDC para a antecipação das receitas de show, explica o executivo, há vantagens tributárias. O veículo FIDC de condomínio fechado, que é o caso deste fundo, já possuía o diferimento de come cotas e, portanto, tributariamente, já estava dentro de uma estrutura com o benefício aos cotistas. Com a lei 14.754, de 15 de dezembro de 2023, a isenção chegou para FIDCs, em geral, ou seja, de condomínio fechado ou aberto, passam a ter a mesma vantagem tributária, informa o executivo.
Atualmente, o FIDC Four Even investe em 14 ativos de crédito, sendo 3 créditos relacionados à locação de espaço de eventos para o segmento de entretenimento e 11 créditos relacionados a antecipação de agenda de artistas vinculados ao cachê. Além da parceria com a dupla Jorge & Mateus, o fundo fez a antecipação de locação de espaços do novo Pacaembu, histórico estádio no centro da capital paulista que passa por reformas. Em relação ao tipo de investidor que acessa teses como a do FIDC Four Even, comenta Benjamin, é mais restrito a investidores institucionais, especialmente family offices. O retorno das cotas seniores (cotas de investidores) gira em torno de CDI + 6% ao ano.
O sócio da M8 Partners acredita que há espaço para que teses voltadas ao entretenimento ganhem espaço. “É um mercado que, especialmente nos EUA, já evoluiu bastante em relação ao tema de crédito, em que os fundos já são bem usuais. No Brasil, é tudo muito novo e começou no pós-pandemia quando os artistas foram obrigados a cancelar os shows agendados”, relembra o executivo da M8 Partners. “Estamos só no início e o mercado de fundos voltados ao entretenimento possui um espaço enorme para entrar no rol de produtos de crédito ao mercado de capitais. Enxergamos as gestoras e investidores em busca de FIDCs com teses específicas, mas sugerimos que sejam teses com pulverização e não de uma empresa ou em um ativo, o que atenua o risco de crédito se a performance de um dos créditos investidos resultar em prejuízo.”
