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Especialistas preveem crescimento do mercado privado e emergentes devem se sobressair

Amanda Meneses

Carlos Miranda, fundador e CEO da X8 Investimentos
Carlos Miranda, fundador e CEO da X8 Investimentos

Diante de uma mudança no cenário global, com modelos de negócios que dominaram a gestão de ativos por anos postos em xeque, margens de lucro se comprimindo e muitas assets reduzindo as taxas de gestão, os mercados privados passaram a ganhar mais destaque entre gestores e investidores. Segundo estimativas da Bain&Co, os ativos do mercado privado sob gestão devem crescer a uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 9% a 10%, atingindo US$ 60 a US$ 65 trilhões até 2032, mais do que o dobro da taxa de ativos sob gestão do mercado público.

Os ativos privados constituem um mercado muito maior do que ativos públicos e oferecem rendimentos potencialmente maiores, diversificação e, em casos como imóveis, uma proteção contra a inflação, destaca a Bain. Além disso, tendências globais como a diminuição de empresas listadas também têm favorecido os mercados privados. Esse movimento de ascensão do mercado privado tem ocorrido tanto externamente quanto localmente, uma vez que há oportunidades a serem exploradas no Brasil.


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Vendo uma carência em private equity para o middle market brasileiro, a X8 Investimentos, por exemplo, gestora de fundos growth criada em 2010, decidiu se posicionar exatamente nesse universo, atraída pelas altas taxas de crescimento e a maior estabilidade frente à volatilidade dos investimentos em Bolsa de valores. 

“É um negócio assim, não tem crise. Quando você pega a empresa, que é uma empreendedora bem-posicionada, pouco importa se o dólar está alto, baixo, se o mercado está subindo, se está descendo, não interessa. O cara está crescendo a taxas superiores a 40% ao ano. Isso vai muito ao encontro com o que estamos falando”, comenta Carlos Miranda, fundador e CEO da X8 Investimentos. “Em algum momento, as casas que antigamente torciam o nariz para pensar nesse tipo de investimento, começaram a perceber que, se você quiser realmente aumentar patrimônio, quando você entra em investimento de capital privado, você tem taxas absolutamente superiores a qualquer investimento que você vê no mercado.” 

A X8, que investe em empresas que causam impacto, principalmente do ramo alimentício, tem, inclusive, levado empresas brasileiras para bolsos lá fora. “Vimos uma tendência e uma oportunidade de levarmos empresas brasileiras para o mercado norte-americano. Se você pensar em desafios e competição, acho que o primeiro movimento de você ir para fora é interessante por causa disso e tecnologia, que você acaba aprendendo e trazendo para a nossa realidade aqui. Esse é o primeiro ponto. Segundo, é um mercado absurdamente maior que o nosso, e você tem muito mais acesso a capital em cada fase de crescimento da empresa”, aponta Miranda. Além disso, há muitos investidores brasileiros que investem no exterior, gostam de aplicações em dólar, e tem mais medo do risco Brasil. “A gente colocou a X8 nos Estados Unidos, ela tem um ano de vida agora e a gente está assim para, provavelmente, fazer dois, três investimentos. A gente não pode falar ainda no quê, mas estamos bem próximos de já começar a fazer os primeiros investimentos”, antecipa o CEO.

Outro exemplo, a DXA, gestora de private equity e venture capital que atua no Brasil e nos Estados Unidos nascida em 2012, também se envolveu nessa evolução do mercado financeiro para investimentos privados, vendo oportunidades no segmento. “A grande razão é porque o rendimento é maior do que a Bolsa. Você está investindo em ações, só que é ação privada, não pública”, comenta Oscar Decotelli, o CEO da DXA Group, citando as tendências que têm influenciado o crescimento desse mercado. “E o outro movimento é a queda do número de empresas listadas na Bolsa. Isso é um fenômeno mundial. As empresas têm ficado privadas mais tempo. Temos casos de empresas que valem US$ 40, 50, 60 bilhões e não são listadas ainda.”

Oscar Decotelli, CEO da DXA
Oscar Decotelli, CEO da DXA
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Para Decotelli, dois movimentos globais têm impacto esses mercados: o das gerações, de conhecer onde o dinheiro está sendo investido, e de uma mudança na visão de diversificação. “A tradição em mercados privados sempre foi fundos grandes que tinham diversificação. Só que diversificação não quer dizer que eu tenho que dar um cheque em branco para um gestor. Eu posso ter um portfólio diversificado de 20, 30 coisas diferentes que eu escolhi”, aponta o CEO da DXA. “Outra grande tendência tem sido o quanto as famílias têm investido mais em investimentos privados, mas em investimentos diretos. Um estudo do UBS diz que já 35% do patrimônio das famílias está sendo investido em alternativos, do qual a maior parte é privada, ou seja, private equity e real estate, as duas maiores locações. Mas a parcela de investimentos diretos é muito forte.”

A alocação de clientes de wealth, ou seja, ultra high net worth, que tem mais de US$ 50 milhões em patrimônio, e o high net worth, que tem de US$ 1 milhão a US$ 50 milhões, tem aumentado nos mercados privados, segundo o UBS. “Esse é um movimento que é uma grande tendência, alocação maior para privados, porque as empresas estão ficando privadas mais tempo. O prêmio de liquidez, ou seja, estou investindo na Bolsa versus estou comprando uma ação de uma empresa, não tem sido tão valioso mais”, opina Decotelli.

Com isso, a gestora tem uma visão otimista para o mercado tanto internamente quanto externo. Nos EUA, por exemplo, a média de alocação que o investidor americano tem em alternativos, que incluem esse mercado de privados, é de 2% a 3% apenas, por enquanto, mas um movimento de migração é esperado, com esse percentual indo para 5%, 6%, até 10%. Para o Brasil, a visão não é diferente, e a perspectiva é que a participação dos investidores nesse mercado chegue ao mesmo percentual. 

Para Miranda, da X8, há um movimento de ampliação do perfil do investidor que aloca em mercados privados. “Nos últimos 15 anos, mais ou menos, olhando esse mercado, primeiro de startups, eu olhava gente com muito dinheiro que entrava um pouquinho nisso. Hoje você vê gente classe média olhando e se interessando em investir em startup”, aponta o CEO. “Há uma tendência, uma procura. A gente mesmo, em vários fundos, como no nosso último fundo, tivemos muita procura de gente que montava clubes dentro das próprias empresas, sócios de um escritório de advocacia, juntavam 10 deles e pegavam uma cota, para poder entrar. Isso está aumentando e muito. Às vezes o cara que não é investidor qualificado entra num clube desses.”

Emergentes podem se sobressair 

Gustavo Camargo, sócio e líder da prática de Private Equity da Bain na América do Sul, destaca que o mercado de investimentos privados se comporta de forma muito semelhante em diferentes regiões do mundo, mas que, apesar de ter se estabelecido em momentos distintos nos Estados Unidos, no Brasil e na Ásia, por exemplo, sua movimentação segue ciclos, que atualmente apresentam flutuações parecidas. 

“Na última década, foi criado aqui no Brasil um ecossistema com players locais e internacionais que elevaram a maturidade do investimento privado no país, com um framework regulatório muito bem estabelecido”, aponta Camargo. “Apesar do crescimento desse mercado ainda não ter a mesma tração do internacional, ele se beneficia dos mesmos ventos favoráveis que estão movimentando o setor de forma global. Assim, apesar das flutuações inerentes, o ecossistema brasileiro continua a receber investimentos mesmo em momentos de baixa.”

Para o executivo da Bain, em mercados emergentes, como Brasil e México, a expansão do mercado privado pode ser ainda maior que na previsão global. “O ecossistema enxerga que, por ser mais recente e representar um percentual menor do PIB do que as economias desenvolvidas, o mercado de investimentos privados no Brasil tem ainda mais espaço para crescer.”

Segundo os especialistas, há um grande potencial no Brasil para os mercados privados no setor de infraestrutura, principalmente, devido aos gargalos no país. Para Camargo, da Bain, também há oportunidades no clima, muito em razão das vantagens climáticas. Enquanto Decotelli, da DXA, menciona a transformação de terras agrícolas, fronteiras agrícolas e tecnologia ao redor do agro. Já Miranda, da DXA, prefere acreditar em setores que não dependam tanto do governo, mais associados a necessidades mais próximas do consumidor, como alimentos, mas também vê potencial em educação e saúde.

Embora as perspectivas sejam positivas, ainda há desafios a serem enfrentados, como a visão dos gestores voltada a produtos mais tradicionais. Já no campo das oportunidades, entrando em um mundo em um ciclo nos próximos 18 meses em que a taxa de juros vai voltar a cair, volta a ter muita oportunidade em mercados privados. “Acredito que ainda tem mais 12 meses desafiadores, do ponto de vista macro, mas de 18 meses para 24, as coisas vão começar a andar. Vai ter muita oportunidade por conta desse ciclo de queda de juros”, afirma o CEO da DXA.