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Riscos e responsabilidades corporativos aumentam e impõem uma atualização nas estratégias de gestão de crise

Jiane Carvalho

Daniella Marques, Chairwoman, Managing Partner e Head de Special Assets da Legend
Daniella Marques, Chairwoman, Managing Partner e Head de Special Assets da Legend

Situações de crise no meio empresarial, sejam gestadas na própria organização ou exógenas, sempre impuseram desafios importantes na gestão dos episódios. As novas demandas por compromissos socioambientais e de governança – que atendem pela sigla ESG – e o avanço regulatório mundo afora adicionam dificuldade para que as companhias, em particular as de capital aberto, adotem estratégias que garantam a governança de mecanismos de compliance no enfrentamento desses desafios. O assunto foi tema da 5ª edição do Integrity Conference promovido pela Câmara de Comércio Internacional (ICC Brasil).

“Sem sobra de dúvidas, estamos vivendo em um mundo inconstante, em acelerada transformação, com muita volatilidade, incerteza, complexidade e, acima de tudo, ambiguidade. Tem muitos riscos. Tem espaço para erro e todas as decisões têm que ser tomadas sob pressão, com pouco tempo”, comentou José Alexandre Buaiz Neto, sócio do Pinheiro Neto Advogados. “A gestão de situações de crise não permite amadorismo ou falta de experiência. Os resultados de uma crise mal gerida tendem a colocar em risco a própria existência da organização e gerar perdas financeiras ou reputacionais para todos os envolvidos.” Entre os exemplos citados por Buaiz Neto estão riscos climáticos, ataques cibernéticos, fraudes contábeis, como Americanas, além de atos de corrupção envolvendo o poder público, como Operação Lava Jato.


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O elevado potencial de danos para as companhias em momentos de crise foi lembrado por Daniella Marques, executiva que assumiu a presidência da Caixa em 2022, justamente em um momento de crise detonada por acusações de assédio sexual contra seu antecessor, Pedro Guimarães. “Quando falamos de gestão de crise e risco, compliance, minha experiência mostra que você não consegue prever uma crise, mas pode aprender com ela”, comentou Daniella, hoje Chairwoman, Managing Partner e Head de Special Assets da Legend.

A ex-presidente da Caixa lembrou que, ao assumir o banco, em meio a denúncias de assédio e em “um momento de muita hostilidade” a reputação do banco estava abalado, com indicadores reputacionais em forte queda. “Assédio a gente apura. Mas não basta. Tem que isolar a crise e tocar a empresa da melhor forma durante o processo, buscando focar em seu core e o da caixa era crédito habitacional e o papel nos programas sociais do governo”, lembra. Na visão de Daniella, é preciso levar a sério a máxima “talk and Walk” – diga e faça – na proposição de estratégias para sair da crise e jamais ignorar o papel do auditor quando indica algo em não conformidade. “Você aprende com crise e fortalece os processos. É preciso criar um processo de autofiscalização. Autorregulação, cultura é a forma mais eficiente de garantir a ética e a integridade nas organizações.”

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Uma iniciativa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que está prestes a completar um ano, foi lembrada no evento como mais um elemento que ajuda as empresas a prestarem contas de suas ações de forma adequada. Trata-se da Resolução 193 (outubro/2023) que dispõe sobre a elaboração e a divulgação de um relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade com base no padrão internacional (IFRS S1 e S2) emitido pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) por companhias de capital aberto.

Alexandre Pinheiro dos Santos, Superintendente Geral da CVM
Alexandre Pinheiro dos Santos, Superintendente Geral da CVM

A importância de controles internos e do trabalho das auditorias para detectar inconformidades também foi lembrado por Alexandre Pinheiro dos Santos, superintendente Geral da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “As auditorias independentes têm papel importante neste processo de prevenção de eventos com potencial de crise. As empresas não podem ignorar pareceres de auditores independentes que cada vez mais terão exigência a cumprir”, comenta Santos, citando que, em 2026, empresas de capital aberto terão novas regras para apresentação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade com base no padrão IFRS S1 e S2.

“Desde 2023, já temos a resolução 193, um passo pioneiro da CVM convocando as empresas de capital aberto, de forma voluntária, e inclui fundos de investimentos e securitizadoras, a seguirem as novas IFRS S1 e S2”, comenta o superintendente, acrescentando que “é importante estimular boas práticas, parametrizar as informações prestadas pelas companhias. Precisam ser informações comparáveis, consistentes e de forma confiável sobre sustentabilidade.” O executivo lembrou que, em março deste ano, um ofício da CVM/SEP trouxe novas orientações sobre como as companhias abertas devem prestar contas dentro das boas práticas ESG. “Todos devem se preparar, se capacitar para garantir que os parâmetros sejam cumpridos. Fatores internos, como a organização procederá para conseguir trabalhar e comunicar qualquer coisa relacionada a essa temática. Aprendizados anteriores não são suficientes para lidar com novos desafios, é preciso capacitação constante.”

Outro tem debatido no evento da ICC foi a necessidade de que as empresas entendam que também compõe a sua área de responsabilidade a cadeia de fornecedores e prestadores de serviços ligadas a ela, dando como exemplo o trabalho da GM de certificação das empresas de seus parceiros. “Ponto relevante é que empresas precisam cuidar de toda a cadeia que envolve a atividade, esta é uma demanda atual. Tem que validar quem atende seu cliente. Nós certificamos nossos parceiros e levamos de 6 a 9 meses no processo”, explicou Ricardo Cabral, Compliance, Product Liability & Civil Litigation Director da GM América do Sul. “De compliance, checamos as finanças da empresa, a reputação, verificamos se os valores éticos estão de acordo conosco. É um processo global aplicado a cada país e inclui temas de sustentabilidade, ESG.”

Ao final do evento, a ICC divulgou duas versões mais recentes e em português de documentos com orientações para as companhias : “Diretrizes da ICC sobre Negócios Responsáveis em Contextos Desafiadores”  e  “Regras do ICC de Combate à Corrupção”. “Difícil prever crise, mas algumas coisas vocês já sabem que dará errado. O novo paper da ICC surgiu de uma reunião difícil, estávamos no meio de conflitos armados, Oriente Médio, e debatendo a pressão sobre as empresas e como manter negócios com estes locais”, lembra Reynaldo Goto, Chief Compliance Officer da BRF. “Dependendo do que você vende, é só sair, as sanções impactam empresas, mas se você vende remédio, alimentos impõe um dilema sera que apoia regime ditatorial ou deixa de lado a população”, questionou o executivo. Ele acrescentou de existirem documentos com orientações sobre como proceder de forma diligente. Nos papers da ICC há itens sobre planejamento estratégico, tático, diretrizes, análise de cenário entre outros.